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Oscar 2008: Hollywood segue
firme para o fundo do poço
No meio do deserto, um caçador
pega de um traficante de drogas uma valise repleta de dinheiro. Um assassino
psicótico parte para recuperar o dinheiro com o xerife no seu encalço. As duas
horas seguintes são quantidades incomensuráveis de sangue jorrando para todos os
lados.
Esse lamaçal de sangue e de falta
de assunto, roteirizado e dirigido pelos irmãos Joel Coen e Ethan Coen e
concebido sob o nome de “Onde os fracos não têm vez”, arrebatou o Oscar de
melhor filme, melhor direção, melhor ator coadjuvante e melhor roteiro adaptado,
coroando a derrocada, que se aprofunda a cada ano, da indústria cinematográfica
americana e de seu principal evento anual, a festa do Oscar, cada vez mais
feitos sob medida para rezar na cartilha dos conglomerados financeiros e do
governo norte-americano.
Num dos momentos mais bizarros da
cerimônia, foi chamada para anunciar o Oscar de Melhor Curta-Metragem uma tropa
de soldados norte-americanos no Iraque. Apesar de vários documentários
discutirem a invasão dos EUA ao Iraque e ao Afeganistão, os soldados anunciaram
o vencedor na categoria: “Freeheld”, sobre uma policial lésbica que luta para
deixar pensão para sua namorada.
Já na pré-seleção, o Oscar
explicita bem o caráter cada vez mais descaradamente ideológico dos filmes
escolhidos. Na categoria Melhor Filme Estrangeiro, por exemplo, concorreram a
pré-indicação os longa-metragens “Beaufort”, que narra a retirada de uma tropa
de verdadeiros anjos israelenses e seu comandante angelical após 18 anos de
ocupação numa base militar do Líbano; o filme “Katyn” é a repetição da acusação
nazista ao Exército Vermelho de ter promovido um massacre na Polônia durante a
2º Guerra Mundial; “Armadilha” é um drama familiar que se passa na Sérvia após a
queda de Slobodan Milosevic; “A deconhecida” conta o drama de uma mulher nascida
na Ucrânia que vive na Itália buscando esquecer seu terrível passado. E por aí
vai...
O vencedor de Melhor Filme
Estrangeiro foi o longa-metragem austríaco “The Counterfeiters”, sobre a
produção de documentos bancários falsos em um campo de concentração durante a
Segunda Guerra Mundial. Evidentemente, o falsificador era o prisioneiro.
O besteirol deste ano cansou até
mesmo os telespectadores dos EUA, e a premiação teve a pior audiência de sua
história, com 6 milhões de norte-americanos a menos ligados no Oscar 2008 em
relação à edição anterior.
“ONDE OS FRACOS”
“Onde os fracos não têm vez”, como
o próprio nome revela, não passa de mais um desses filmes que se encobre sob o
manto da violência gratuita e, aparentemente sem sentido e sem fim, mas cuja
função velada é a de justificar e tornar plausível a política de Estado dos EUA
contra países soberanos de todo o mundo. Ou seja, aqueles que não se enquadram
na cartilha do Império, “não têm vez” contra a espoliação, a agressão, a
violência e o terror do agressor e, portando, devem submeter-se a ele.
São os filmes com essa matiz onde
hoje são despejados os bilhões de dólares dos cartéis e monopólios para serem
produzidos, distribuídos e premiados pela academia de cinema dos Estados Unidos.
No caso do Oscar 2008, os irmãos
Joel Coen e Ethan Coen, diretores e roteiristas de “Onde os fracos não têm vez”
são o perfeito estereótipo do que essa indústria cinematográfica decadente e
dirigida passou a badalar como “cinema de vanguarda” e “cinema independente”,
justamente quando esse cinema está, mais do que nunca, atrelado aos escusos
interesses de grupos financeiros e do governo norte-americano.
Sem ter feito nada digno de nota,
os irmãos Coen, de Massachusetts, trazem em seu currículo uma coleção de filmes
fúteis, violentos e de péssimo gosto. Em alguns casos, as três qualidades se
agregam no mesmo filme.
Juntos, os ganhadores de quatro
Oscars numa única tacada produziram coisas do tipo: “Gosto de Sangue” (1984),
“Matadores de Velhinha” (2004) e “Fargo, Uma Comédia de Erros” (1996), cujo
roteiro trata de um homem em dificuldades financeiras que seqüestra a própria
esposa para roubar o dinheiro do sogro, promovendo vários assassinatos.
Um dos irmãos, Joel, ficou quatro
anos no programa para estudantes da Universidade de Nova York realizando seu
filme-tese chamado “Soundings”, no qual o roteiro se resume a uma mulher que tem
relação sexual com o namorado surdo e fantasia estar tendo relação com o melhor
amigo do seu namorado, que a escuta gemendo na sala ao lado. Viraram os
queridinhos da indústria hollywoodiana.
Aliás, o Oscar vem se
especializando em premiar esse tipo de aberração. Foi assim que diretores
completamente desconhecidos como Quentin Tarantino foram alçados rapidamente ao
topo da fama pelo cartel cinematográfico dos EUA por seus roteiros truncados, de
uma extrema violência e sem sentido aparente, numa badalada onda na qual se
passou, de uma hora para outra, a tecer louros aos “filmes independentes”, como
se num cinema cada vez mais dirigido, dominado e pago por cartéis e monopólios
ainda existisse muita independência.
GISELE CARESIA
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