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Estudo refuta déficit da
Previdência "repetido à exaustão pela mídia"
No
Seminário “Como incluir o excluídos - Contribuição ao debate sobre a Previdência
Social no Brasil”, realizado pela Unicamp, Cesit e Dieese, os pesquisadores
Milko Matijascic, José Olavo e Stephen J. Kay denunciam “as teses que dominam o
debate atual e que vêm sendo repetidas de forma errônea pela maior parte da
mídia” para “agradar segmentos que possuem grandes recursos de poder”
“Quando se trata de comparar a previdência brasileira às
suas congêneres no escopo internacional, é possível destacar que o cenário
brasileiro, ao contrário do que vem sendo divulgado pela maior parte da mídia, é
coerente com o tipo de mercado de trabalho que foi construído pela trajetória
social do país. É possível, com base nos indicadores existentes, negar as teses
que dominam o debate atual e que vêm sendo repetidas de forma exaustiva e
errônea”.
O alerta acima faz parte do estudo “Financiamento e Gastos
da Previdência e da Seguridade: A experiência brasileira e os parâmetros
internacionais”, feito pelos acadêmicos Milko Matijascic e José Olavo Leite
Ribeiro, da Unicamp, e pelo coordenador do Centro das Américas do Federal
Reserve Bank, Stephen J. Kay. Uma síntese do documento foi apresentada no
Seminário “Como incluir os excluídos – Contribuição ao debate sobre a
Previdência Social no Brasil”, organizado pelo Instituto de Economia da Unicamp,
Centro de Estudos Sindicais e do Trabalho (Cesit) e Departamento Intersindical
de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), realizado em São Paulo no
final do ano passado.
Conforme os estudiosos, “a tentativa de agradar segmentos
que possuem grandes recursos de poder, mas dotados de pouco conhecimento sobre o
tema, não vai solucionar as verdadeiras questões e pode colocar em xeque a
legitimidade das reformas”. Segundo eles, a comparação com os países da
Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), muito utilizada
por setores da direita e da imprensa para tentar desqualificar os “elevados”
gastos brasileiros no setor, simplesmente não pode ser feita, ainda mais “sem
ponderar uma série de especificidades que alteram a substância dos argumentos
apresentados pela mesma mídia”. Para fins de formulação de políticas, sublinham,
“o que importa é se o gasto é eficiente, eficaz e efetivo”.
Um exemplo, esclarecem, são os gastos relativos ao
seguro-desemprego, onde o Brasil está numa posição intermediária. “Isso não
decorre de uma reduzida dimensão do desemprego. O desemprego no Brasil está
entre os mais elevados dentre os países que contam com dados estatísticos. Mas o
elevado patamar de informalidade, expresso por relações de trabalho que não se
traduzem na filiação à previdência, associado ao elevado nível de rotatividade
da população trabalhadora em geral, conjugado a regras restritivas de acesso ao
seguro-desemprego, reduz os gastos que, em condições diferentes, tenderia a ser
muito maior”.
DISCREPÂNCIA
“A discrepância nos gastos sociais, que é perceptível entre
os diversos países, depende do nível de proteção propiciado pela legislação e
pelos valores de cada sociedade. Ele tende a ser visto como fator normal em
países de cunho universalista, ou como estigma em sociedades que incentivam as
iniciativas individuais”. Assim, esclarecem, “a percepção que os gastos sociais
brasileiros são elevados requer qualificação. O gasto público precisa ser
hegemônico, pois os rendimentos são baixos para a maioria da população e a
iniciativa privada não consegue suprir esse tipo de necessidade que requer
transferências via imposto”.
Para os pesquisadores, “os gastos públicos sociais precisam
ser analisados com cuidado para evitar que o debate se concentre em falsos
problemas. Existem outros mitos a refutar, como aqueles que afirmam que: os
encargos sobre a folha salarial sejam elevados demais; seja necessário reduzir
as contribuições sobre folha para aumentar a cobertura de contribuintes ou que
exista uma tendência a substituir a folha salarial por outras fontes de
financiamento”. “A composição do financiamento da previdência pressupõe a
existência de contribuições de empregados e empregadores e a participação do
Estado. A transferência de impostos, embora seja polêmica no Brasil, é regular
no contexto internacional. Uma parcela da população, mesmo em países
desenvolvidos, não consegue contribuir regularmente e, atingindo a velhice,
precisa de subsídios via imposto para se sustentar”, sublinham.
Antes de tudo, destacam os pesquisadores, “é preciso
considerar a realidade própria de cada país e cada contexto e não repetir idéias
que não obtiveram sucesso em contextos assemelhados aos do Brasil. É preciso
reverter o quadro marcado pela insistência em considerar que a previdência não
deve ser financiada por impostos e se manter isolada do restante da proteção
social. O amparo à velhice, invalidez, morte prematura ou desemprego passa por
uma combinação de políticas que leve em conta a realidade do país”.
Conforme o estudo, os pactos conservadores sempre
reservaram o dinheiro dos impostos às prioridades relativas ao mundo dos
negócios: “A superação da precariedade das condições de vida da população
através da melhoria dos serviços sociais ou das transferências de renda não era
vista como tema determinante para promover o desenvolvimento. A visão
predominante no Brasil priorizava a auto-sustentação dos benefícios
previdenciários. As políticas ligadas ao mundo do trabalho deveriam ser
financiadas por recursos do próprio mundo do trabalho e os valores das
prestações relativas aos benefícios deveriam manter uma estreita
proporcionalidade com o tempo de serviço”.
“O debate em curso ainda insiste em proposições como
‘fixação de idade mínima’, ignora os efeitos do fator previdenciário e insiste
no ataque às aposentadorias por tempo de contribuição. A insistência em promover
reformas sem os devidos cuidados não solucionou antigos problemas, como o nível
de cobertura e gerou novos impasses, como o aumento da fragilidade das condições
de vida da população idosa”.
Para os pesquisadores, assim como “a ênfase na
desestatização e no equilíbrio fiscal perde força em favor da obtenção de
resultados que diminuam as desigualdades entre os países e no interior de cada
sociedade mediante o cumprimento de metas sociais mínimas”, o debate brasileiro
começa a revelar uma mudança de posição. “A insistência em contrapor um
hipotético déficit da Previdência a um superávit da Seguridade cuja legalidade é
constitucional, cede espaço ao questionamento relativo à dimensão do gasto
previdenciário numa perspectiva internacional e sobre a sua efetividade para
enfrentar os problemas sociais decorrentes da perda da capacidade de trabalho.
Embora a mudança de enfoque seja perceptível, existem ainda mitos recorrentes no
tratamento do assunto que precisam ser descartados, sob pena de se insistir em
reformas desgastantes sob o prisma político e que não tenham a efetividade
pretendida para reduzir a carga tributária, ainda que reduzindo a dimensão dos
direitos sociais”.
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