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Campo de torturas de Bush no
Afeganistão sextuplica em 3 anos
Campo de
concentração de Bagram é apresentado no New York Times “como um Guantánamo
maior e, de longe, mais espartano”. Bush criou ainda uma nova prisão de alta
segurança em Cabul
Em meio a contorcionismos, o jornal “The New
York Times” admitiu que o açougue de Bush no Afeganistão, Bagram, ali
apresentado como um “Guan-tánamo maior” e “de longe mais espartano”,
sextu-plicou em três anos o número de presos em decorrência do “agravamento
da guerra”, e que o oil-boy texano ainda precisou erguer um tipo de “Abu
Graib”-2 nos arredores da capital, Cabul. Coincidentemente, o Pentágono
anunciou o envio de mais 3 mil marines, para tentar deter a prevista
ofensiva da primavera do Talibã.
Não se trata propriamente de uma novidade que a
tortura come solta em Bagram. Isso é sabido desde 2002, quando foi
impossível para Bush ocultar assassinatos e estripamentos a sangue frio. E
confirmado em inúmeras declarações daqueles que conseguiram sobreviver,
alguns depois levados para Guan-tánamo. A propósito, em Nova Iorque, irá
estrear no próximo dia 18 um documentário sobre um desses assassinatos
cometidos pelos invasores norte-americanos - o de um simples motorista de
táxi afegão, seqüestrado ao acaso em Cabul e morto a pancadas em Bagram.
Quem quer que já tenha lido os relatos sobre
Guantánamo pode ter uma noção do que é o NYT poderia estar considerando
“maior” e “mais espar-tano”. Maior: tem atualmente “cerca de 630 presos”,
“mais do dobro” dos 275 de Guantánamo. Os “630” são um conta de chegar, como
admite o jornal, pois acrescenta que memorando confidencial do Comitê
Internacional da Cruz Vermelha ao governo dos EUA afirmou recentemente que
há uma ala de celas “a qual não tem acesso”, e cujos presos – “dezenas” -
não existem oficialmente e são submetidos a violações das convenções de
guerra de Genebra. Há, admitiu uma fonte ao jornal, prisioneiros “mantidos
há cinco anos” nessa situação. Outro oficial, falando sob anonimato,
esclareceu que esses casos são autorizados “no mais alto nível”.
Quanto ao lado “espar-tano” de Bagram, quem sabe
se trate de alguma impensada referência ao assassinato do motorista de táxi
Dilawar, como exposto no filme de Alex Gibney, “Um Táxi Para o Lado Escuro”.
“Suas pernas” – registrou o médico legista – tinham sido espancadas
repetidamente até que “basicamente tivessem virado uma pasta”. “Mesmo que
ele tivesse sobrevivido”, um relatório do próprio exército dos EUA admitiu,
“ambas as pernas teriam de ser amputadas”.
Mas a notícia (?) sobre o campo de tortura de
Bagram é apresentada pelo NYT sob o curioso título de “Frustrando plano dos
EUA, prisão se expande no Afeganistão”. A seguir o jornal explica de que se
trata tal “frustração”. “Enquanto o governo Bush luta para achar um modo
para fechar a prisão militar de Guantánamo, um esforço similar para reduzir
um centro de detenção maior e mais reservado no Afeganistão tem sido
perturbado por problemas políticos, legais e de segurança”. Como se vê, tem
muita gente no NYT querendo a vaga deixada por madame Judith Miller no
esforço de guerra de Bush. Oh, perdão, no esforço de “fechar Guan-tánamo” e
reduzir Bagram.
A “Abu Graib” de Cabul – a prisão de
Pul-i-Charkhi - levou “quase três anos” para ser construída e custou “mais
de US$ 30 milhões”, revelou o jornal. “Mas quase um ano depois da prisão
afegã aberta, as autoridades americanas dizem que ela só pode acomodar cerca
da metade dos presos planejada” e que “como resultado”, Bagram
“provavelmente continuará a operar com centenas de detidos no futuro
previsível”, assinalou o preocupado NYT.
O governo fantoche de Hamid Karzai assinou em
agosto de 2005, esclareceu o NYT, “um acordo diplomático confidencial” para
a construção da “Abu Graib” de Bush em Cabul, cuja construção começou no ano
seguinte. Em maio do ano passado, um integrante da guarda que os próprios
americanos estavam treinando e doutrinando matou a tiros de fuzil o coronel
dos EUA que supervisionava o projeto, James Harrison Jr, e seu ajudante,
Wilberto Sabalu Jr, quando iam cruzar o portão de entrada. A implantação foi
paralisada por um mês, duas dezenas de guardas foram demitidos e, ainda
assim, cada vez que um americano passa na entrada, sente um friozinho na
barriga. Às vezes na nuca.
O sucesso da ação da resistência afegã estimulou
alguns integrantes do governo fantoche a irem mais devagar com o andor.
Karzai, após se aconselhar com alguns assessores, chegou a uma nova
conclusão, a de que não havia clima para assumir na prisão oficialmente
“afegã”, nos dizeres do NYT, “um referencial legal como aquele de Guantánamo”
– “a indefinida detenção militar dos ‘combatentes inimigos’”. O “ministro da
Defesa” lacaio, Abdul Rahim Wardak, mais modesto, confessou “temer ser
cercado pelos líderes tribais” querendo libertar algum preso. Na verdade, o
“referencial legal” não passava de uma “lei” ditada pelo coronel Manuel
Super-vielle, o advogado-chefe militar no Afeganistão, e co-responsável,
segundo o jornal, pela “parte legal” de Guantánamo. Queriam, até, que o
exército fantoche montasse ‘tribunais’ iguais aos de Guantánamo.
TOALETE
PRÓPRIA
A prisão era “afegã”, mas os invasores é que
mandam na prisão. “Supervisionando” e “treinando”, claro. Quando o NYT tenta
explicar porque a nova prisão iria fracassar em atender às expectativas do
Pentágono quanto ao número de presos, fica a dúvida se o que é mais
relevante é o ridículo ou o cinismo. Apesar de planejada para manter 670
prisioneiros, ocorreu “uma significativa falha” de projeto, que “reduziu a
capacidade ótima” para cerca de 330 presos, acrescentou o jornal.
Como isso aconteceu? Simples. “Para melhorar a
segurança e higiene, os americanos equiparam cada cela de dois homens do
novo bloco com seu próprio banheiro”. (Nas outras alas seriam “oito por
banheiro”). Depois, os torturadores, desculpem, os planejadores, chegaram à
conclusão, quando a prisão já estava pronta, nas palavras do NYT, que “a
modéstia cultural” dos homens afegãos “os deixaria em desconforto” se
tivessem de usar o mesmo banheiro. Que gente boa esses americanos.
Prisioneiro com privada própria, water-boarding próprio, pau-de-arara
próprio.
Já os afegãos, são uns ingratos – vivem mandando
chumbo quente nos invasores, os ataques com bombas se multiplicaram por oito
nos últimos dois anos, ações se estenderam à capital, o número de baixas dos
agressores bate recorde e, de acordo com um site de veteranos contra a
guerra – “GI Special”-, a aventura de Bush, “sob qualquer medida, está
desmontando”.
ANTONIO PIMENTA
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