No início do século XX, Oswaldo Cruz erradicou a febre
amarela da cidade do Rio de Janeiro, então capital do país. Apesar desse
feito extraordinário – numa época em que não havia vacina contra a doença,
portanto a única forma de combatê-la era eliminar o mosquito portador do
vírus – Oswaldo Cruz sempre foi detestado pelos jornais da época.
Nitidamente, eles preferiam a febre amarela – ou o mosquito – ao Dr.
Oswaldo.
Naquela época havia uma epidemia real de febre amarela no Brasil. Agora,
quando esses dias já ficaram para trás, na falta de uma epidemia real, a
mídia inventou uma epidemia virtual de febre amarela. Outra vez aparece sua
antiga afinidade com a doença – ou com o mosquito. E haja noticiário
alarmista, que não informa, não esclarece, não ajuda – apenas propaga o
pânico, por motivos políticos dos mais rasteiros.
É verdade que não se trata de uma fábrica apenas de
epidemias inventadas. Elas fabricam qualquer porcaria. Antes, haviam lançado
na praça o “caos aéreo”, pelo qual o governo Lula seria culpado, não importa
o fato ou a falta de fato, incluindo as quedas de aviões da Gol e da Tam –
provavelmente derrubados por mísseis lançados do Palácio do Planalto.
Agora, é provável que dentro em breve apareçam algumas
senhoras pouco amadas e alguns cavalheiros sôfregos de tanto amor para dar,
dizendo que foi Lula ou o ministro José Temporão que espalharam a febre
amarela pelo Brasil. Certamente, os dois devem ter ido a Paris para comprar
os mosquitos no mercado das pulgas (pulgas, mosquitos, qual a diferença?)
com a solerte intenção de soltá-los nas cidades brasileiras...
No entanto, apesar da vasta campanha a favor da febre
amarela, o mercado das pulgas continua sendo uma feira de quinquilharias e
não há qualquer epidemia de febre amarela no Brasil. Razão tem a ministra do
Turismo, Marta Suplicy, ao dizer que a única epidemia que existe é “a
epidemia de fofocas”. Ela, como se sabe, é uma pessoa educada. Por isso, não
falou em mentiras – ou falsificações, como o mapa de incidência da doença
que a Globo apresentou, totalmente forjado pelos especialistas de seu
departamento de fomento às epidemias nacionais.
Existem, é certo, áreas do Brasil onde existe febre
amarela – e sempre existiu, devido à proximidade das florestas. Mas nem aí
existe epidemia. Nessas áreas a febre amarela é endêmica - e uma endemia é,
sob o aspecto da incidência, o contrário de uma epidemia. Aliás, essas são
áreas onde a população urbana encontra-se, na sua maior parte, vacinada
contra a febre amarela. Pegue-se o exemplo de Brasília, onde começou o
alarmismo atual, em que mais de 90 % da população já estava vacinada contra
a febre amarela.
Portanto, a atual epidemia só existe em lugares tais como
as redações do “Globo”, da “Veja” e de órgãos similares. Realmente, parece
que tem uma porção de sujeitos lá mais amarelos do que japonês com icterícia.
Mas, diante de tal locus de propagação da doença, nós aqui estamos com a
velha sabedoria: se o mosquito (aliás, a mosquita, pois é a fêmea que
transmite o vírus – o macho só faz zoada), picar o Civita ou o Marinho, será
um drama. Pior do que isso, só se eles escaparem. Aí, leitor, será uma
tragédia.