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Lula: “vejam o Citi; quem dá muito palpite, quebra a cara”
“Com esse
prejuízo, demonstram que não têm tanta competência como falavam”, disse em Cuba.
“A autodeterminação dos povos é coisa sagrada”
O presidente Lula anunciou, em entrevista
coletiva na terça-feira em Havana, a assinatura de 8 acordos entre Brasil e Cuba
e defendeu uma maior integração entre os dois países. “O Brasil como maior
economia precisa cumprir com o seu papel, acreditar que esse é o caminho correto
para uma boa política de integração”, disse. “Esta viagem faz parte de uma
definição estratégica da política internacional brasileira de se voltar cada vez
mais na perspectiva de trabalhar uma integração mais forte com todos os países
da América do Sul e da América Latina”, prosseguiu.
Durante a entrevista, Lula criticou a política
norte-americana de intromissão nos assuntos internos de Cuba e dos demais países
da região e defendeu a política de autodeterminação dos povos. “Nós não damos
palpite na política de nenhum país. Autodeterminação dos povos, para nós, é uma
coisa sagrada”, frisou. “O que nós queremos com qualquer país é uma relação em
que a gente comece respeitando a autodeterminação das decisões de cada país e de
cada povo”. “Da mesma forma que nós não queremos que as pessoas dêem palpite nas
coisas do Brasil, nós não queremos dar palpite nas coisas dos outros”, destacou.
PALPITES
“Aliás”, prosseguiu o presidente, “quem dá muito
palpite, quebra a cara”. “Veja que o Citibank acaba de anunciar um prejuízo de
10 bilhões de dólares. Eles, que davam tanto palpite sobre como administrar os
países, as coisas, quando chega a hora de provar a sua competência, demonstram
que não têm tanta competência como falavam”, avaliou.
Lula estava se referindo aos “palpites” do
ex-presidente do Citibank, Willian Rhodes, quando este ocupou o cargo chefe do
comitê de bancos credores do Brasil e de outros países sul-americanos, nas
décadas de 80 e 90. Na época, Rhodes vivia deitando falação sobre o que o Brasil
devia ou não fazer.
Como principal cobrador da dívida externa dos
países da América do Sul, Willian Rhodes lançou o Plano Brady que, sob o
pretexto de equacionar as dívidas, organizou o assalto ao patrimônio público e
privado dos países da região. O plano transformava as dívidas de países
emergentes em títulos e ao mesmo tempo exigia a entrega das empresas nacionais
para os monopólios, principalmente os norte-americanos. Foram emitidos US$ 150
bilhões em papéis que ficaram conhecidos como “bradies”.
O Brasil só se submeteu ao achaque de Rhodes e
do Citi depois que FHC assumiu a presidência, em 1995. Em seguida à assinatura
do “acordo”, começou o chavascal das privatizações. Mas, foi na Argentina de
Menem que os “pitacos” do Citi foram mais escandalosos: criou-se o “Plano
Cavallo” e a paridade do peso com o dólar. O país literalmente quebrou. E o mais
grave é que mesmo com o desastre argentino, FHC resolveu seguir a mesma
“cavalgada”, valorizando o real artificialmente, sem lastro. O resultado foi a
quebradeira que todos nós conhecemos.
Sobre os acordos da Petrobrás em Cuba (ver
matéria completa na página 2), Lula disse que a empresa pode dar uma grande
contribuição na prospecção em águas profundas e na montagem de uma fábrica de
lubrificantes no país. Para o presidente, o Brasil deve fazer parcerias com a
indústria cubana. “A indústria brasileira, no setor farmacêutico, pode fazer
convênios e parcerias com a indústria cubana. O Brasil pode ajudar muito Cuba na
questão da agricultura, sobretudo, na questão da produção de soja, temos
interesse em compartilhar com os cubanos os nossos conhecimentos tecnológicos
nessa área”, lembrou.
Sobre pedidos de asilo de alguns cubanos ao
Brasil, Lula declarou que não vai participar de “nenhuma pirotecnia anticubana,
como de vez em quando se tenta criar no mundo”. “O que nós queremos é ser
parceiros para as boas causas, nesse momento da história do Brasil”, salientou.
Lula lembrou que “durante muito tempo predominou
no Brasil a mentalidade de país colonizado, que não conseguia se libertar do
chamado Primeiro Mundo”. “Na verdade, nós estamos provando que a nossa relação
com o nosso mundo, com o nosso continente, é o que tem possibilitado o
crescimento extraordinário das exportações brasileiras, da melhoria da nossa
balança comercial”. Ao final, sobre a Colômbia, o presidente destacou que o
Brasil vai continuar contribuindo para a paz na região. “Eu falei com o Uribe,
eu falei com o Chávez. O Brasil sempre estará disposto a contribuir para que
haja harmonia entre os países da América do Sul”, completou. .
FIDEL
Na noite da segunda-feira, Lula foi recebido
pelo presidente Fidel Castro, que se recupera de uma cirurgia. Os dois líderes
conversaram durante duas horas. Após o encontro, Lula disse que vinha
acompanhando o estado de saúde de Fidel pela imprensa e que ficou feliz por ter
podido se encontrar com seu “companheiro”. “A impressão que eu tenho é que o
Fidel está muito bem de saúde, que está com uma lucidez como nos melhores
momentos”, disse Lula pouco antes de embarcar de volta ao Brasil, no aeroporto
de Havana. O presidente interino de Cuba, Raúl Castro, acompanhou Lula no
aeroporto.
DIPLOMAS
Os diplomas dos brasileiros que cursaram
medicina em Cuba poderão ser validados pelo governo federal. O objetivo do
governo é suprir cerca de mil vagas de médicos em comunidades indígenas,
quilombolas e no interior do Brasil. O presidente Lula anunciou a decisão após
assinar, junto ao governo cubano, o “Termo de Ajuste Complementar ao Acordo de
Cooperação Cultural e Educacional Brasil-Cuba”. A validação atende a uma antiga
reivindicação dos cerca de 160 brasileiros formados na Escola Latino-Americana
de Medicina (ELAM), de Havana. Até 2010, outros mil brasileiros devem concluir o
curso de medicina na ELAM.
SÉRGIO CRUZ
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