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Zimbábue:
Robert Mugabe vence de virada com
2 milhões de votos
A fuga das
urnas às vésperas da eleição, a encenação do refúgio na embaixada de um país
colonialista, a Holanda, e o pedido de intervenção de tropas estrangeiras no
país, fizeram eleitores de Tsvangirai debandarem em massa no 2º turno
O presidente Robert Mugabe foi “recebido como
herói”, afirmou o presidente do Gabão, Omar Bongo On-dimba, ao ser indagado
por jornalistas ingleses e americanos sobre como havia sido sua entrada na
cúpula da União Africana, em realização na cidade de Sharm El Sheik, no
Egito, de 29
a 30 de junho. “Ele foi eleito, prestou juramento, está aqui entre nós,
sendo assim é presidente e nada mais temos de lhe pedir”, assinalou Ondimba.
Diante da insistência desses jornalistas em arrancar alguma declaração
contra o presidente Mugabe, e que atendesse às “condenações de Londres e
Washington”, ele foi ainda mais incisivo. “Antes e agora, não somos
obrigados a seguir ordens do exterior, nós africanos somos capazes de
decidir por nós próprios. Recebemos Mugabe como herói e podiam confirmar
isso se estivessem dentro da sala”, afirmou.
No segundo turno das eleições a presidente do
Zimbábue, numa reviravolta em relação ao primeiro, Mugabe obteve 2.105.000
votos, contra 223.000 dados ao candidato favorito dos EUA e da Inglaterra,
Morgan Tsvangirai, que fugiu das urnas. Houve, ainda, 131.000 votos nulos e
o comparecimento foi semelhante ao primeiro turno, de 42%. Como, na reta
final, o partido de Tsvangirai, o MDC, fez campanha aberta pelo voto nulo,
pode-se dizer que a votação dele no segundo turno alcançou 354.000 votos. No
primeiro turno, o resultado fora 47% a 43%.
ANFITRIÃO
Ainda de acordo com outros relatos da Cúpula da
OUA, ao contrário das pressões de W. Bush e do primeiro-ministro inglês
Gordon Brown, Mugabe foi recebido calorosamente com abraços da maioria dos
outros líderes africanos presentes, e entrou na sala de conferência
conduzido pelo próprio anfitrião, o presidente egípcio Hosni Mubarak. Mugabe
foi o líder da guerra de independência do Zimbábue e do desmantelamento do
estado racista da “Rodésia” – o nome é em homenagem ao aventureiro inglês
Rhodes – e esteve por dez anos nos cárceres dos colonialistas ingleses e do
regime de apartheid.
Na véspera, ação conjunta da África do Sul, da
China e da Rússia barrou no Conselho de Segurança da ONU a segunda tentativa
em quinze dias da Inglaterra e dos EUA de patrocinarem um golpe de estado no
Zimbábue através de declaração de ilegitimidade das eleições para dar o
poder a Tsvangirai. Nos debates, o embaixador sul-africano Dumisani Kumalo
afirmou que não está dentro das prerrogativas do CS legitimar ou não
eleições. Embora não tenha caráter obrigatório, como ocorre com uma
resolução, a declaração, se tivesse sido aprovada, funcionaria como
instrumento de intimidação da conferência da UA. Quem estava no CS dando
aulas de legitimidade eleitoral, democracia e outros babados, por parte de
W. Bush – também ele um campeão das eleições limpas, da Flórida a Ohio,
passando pela Suprema Corte – foi o atual embaixador dos EUA na ONU, o
ex-vice-rei do Iraque ocupado, Zalmay Khalilzad.
WALL STREET
De acordo com Wall Street, o Departamento de
Estado, a City londrina e sua mídia, a virada se deu por causa do
“espancamento dos eleitores” e da “violência” contra a oposição e não porque
o povo do Zimbábue pensa com a própria cabeça. Mas, talvez, um fato haja,
melhor que qualquer outro, marcado a virada. O dia 5 de junho, quando um
comboio de boca de urna “humanitária” da Usaid, escoltada por “diplomatas
ingleses e americanos” foi interceptado pela polícia zimbabuense, e proibido
o tráfico de votos em troca de “ajuda alimentar”, como vinham fazendo em
larga escala, num país sob desabastecimento e hiperinflação provocados pela
sabotagem econômica aberta.
Enquanto a campanha de Tsvangirai era uma
campanha de palavras vazias, “Morgan é mais”, “Um novo recomeço”, usadas
como disfarce de um programa neoliberal de arrancar o couro do povo,
devolução das terras nacionalizadas e difusão da fantasia reacionária de que
o “capital externo” ia resolver tudo, Mugabe foi até os zimbabuenses
colocá-los diante de uma opção. Ou atender aos colonialistas e seus agentes
internos, e ver o país lançado no confronto, ou avançar nas mudanças em
curso, a mais falada delas a devolução das terras roubadas pelos
colonizadores brancos, ao povo zimbabuense. “100% de poder ao povo
zimbabuense, independência total”: convocou Mugabe em comícios apinhados de
gente por todo o país. A resposta veio nas urnas. Em seu breve discurso da
vitória, ele registrou o fracasso daqueles que “tentaram usar todos os meios
para sabotar nossa independência e profanar nosso inalienável e duramente
conquistado direito à autodeterminação”. O Zimbábue, reiterou Mugabe,
“jamais será uma colônia novamente. Viva o Zimbábue!”.
ANTONIO PIMENTA
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