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Fashion Week,
máfias e trabalho escravo
ALTAMIRO BORGES*
Nas duas últimas semanas, as elites opulentas e os apreciadores da
alta costura se deliciaram com os desfiles de moda no Rio de Janeiro e São
Paulo, a paparicada Fashion Week. Jornais gastaram toneladas de papel para
comentar cada grife nas passarelas. Já as televisões, com destaque para a TV
Globo, ocuparam os espaços nobres com suas reportagens consumistas e hedonistas
bem ao gosto dos ricaços. No mesmo período, a mídia burguesa fez de tudo para
desqualificar a greve de 230 mil professores paulistas, “que tumultuou o
trânsito dos que foram ao desfile na capital”. A visão classista da imprensa
ficou escancarada nestas duas coberturas “jornalísticas”.
Sem desprezar a criatividade dos estilistas brasileiros e as
peculiaridades desta indústria no país, seria sensato que a mídia não tratasse
com tanto glamour este badalado mundo da moda. O livro Camorra, de Roberto
Saviano, ajuda a desmistificar este setor altamente lucrativo. Lançado em 2006
na Itália, traduzido em 47 países e com 1 milhão de exemplares vendidos, ele
descortina os bastidores deste “negócio”. Para isso, o jornalista italiano se
infiltrou na Camorra, a organização criminosa sediada em Nápoles que já
suplantou a máfia siciliana em movimentações financeiras. Após sofrer um
atentado a bomba, hoje ele vive sob escolta policial e utiliza carros blindados.
Valentino,
Versace, Prada e Armani
Na sua corajosa pesquisa, Saviano descobriu que um dos braços da
máfia camorrista se estende à indústria da moda. Ele comprova que famosas grifes
terceirizam a sua produção junto ao sistema fabril controlado pela Camorra.
Muitas confecções inclusive utilizam mão-de-obra de imigrantes ilegais, com base
no trabalho escravo. Como aponta Walter Maierovitch, numa resenha do livro para
a revista Carta Capital, a obra “acertou em cheio grandes grifes mundiais, como
Valentino, Versace, Prada e Armani. Essas empresas desfrutaram deste esquema
ilegal, protegendo-se da responsabilidade criminal por meio do ridículo
argumento do ‘terceirizei e basta’”.
Somente após a repercussão do livro e as denúncias da Procuradoria
Antimáfia da Itália, algumas destas bilionárias empresas começaram a criticar o
mercado pirata da moda. A omissão, segundo Saviano, teria os seus motivos.
“Denunciar o grande mercado significava renunciar para sempre à mão-de-obra a
baixo custo que utilizavam. Os clãs teriam, em represália, fechado os canais de
acesso às confecções que controlam no país e as do Leste Europeu e Oriente”. O
livro revela como uma empresa legal se compõe com milhares de confecções do
“sistema Camorra”. Cita os leilões de modelos em escolas de Nápoles com a
presença de compradores das grifes mundiais.
Ao destrinchar como funciona a Camorra, hoje uma poderosa
“multinacional” com ramificações em vários setores – alta costura, drogas,
contrabando e mercado financeiro –, Saviano mostra as precárias condições de
trabalho dos imigrantes ilegais e dos milhares de jovens desempregados,
recrutados nas periferias napolitanas. No tráfico de drogas, os jovens fazem
entregas com motocicletas fornecidas pelos clãs mafiosos. Depois de várias
entregas, eles ganham a moto de presente e realizam um “grande sonho, sem
perceber que os capi lucraram muito mais”.
* Jornalista,
membro do Comitê Central do PCdoB e autor do livro recém-lançado “Sindicalismo,
resistência e alternativas” |