Novo parecer de Bittar favorece os canais estrangeiros e reduz nacionais na
TV paga
Sobre o seu substitutivo ao Projeto de Lei 29
(PL-29), que pretende regulamentar a TV por assinatura, o deputado Jorge
Bittar declarou que “a Globo (....) precisa abrir espaço para outros”.
Finalmente, uma declaração quase sincera. O
deputado não está preocupado em garantir a presença de produtores, artistas
e empresas nacionais na televisão por assinatura. Para isso, não seria
necessário reduzir o espaço da Globo, e sim aumentar o espaço nacional na TV
por assinatura, estabelecendo condições para que existissem mais canais e
programadoras nacionais, e cotas de conteúdo nacional que não fossem
ridículas.
No entanto, no artigo 18, parágrafo 5º, da mais
recente versão do PL-29, o deputado reduziu a 12 (doze) os canais
brasileiros que as empresas que organizam pacotes a serem oferecidos aos
assinantes (as “empacotadoras”) seriam obrigadas a incluir, tenham esses
pacotes 40 ou 200 canais (o maior, atualmente, tem mais de 120, e o número
não pára de crescer).
O mesmo artigo do substitutivo determina, em seu
parágrafo 1º, inciso I, que uma programadora brasileira só poderia ter 25%
dos 12 canais no pacote, ou seja, a miséria de 3 (três) canais. Por exemplo,
as empacotadoras somente seriam obrigadas a incluir 3 canais da Globosat,
programadora com o maior número de canais do país e da América Latina.
Em suma, o deputado restringiu o número de
canais brasileiros a serem oferecidos ao assinante da TV paga, mais ainda
porque seu substitutivo permite que as empacotadoras sejam estrangeiras. Por
que as empacotadoras estrangeiras teriam preferência por canais de
programadoras brasileiras, além dos que seriam obrigadas a incluir em seus
pacotes? Depois disso, Bittar quer reduzir o espaço da Globo para que
“outros” ocupem esse espaço. O problema é: quem são esses “outros” a quem o
deputado quer doar o espaço da Globo?
Evidentemente, restringir o espaço para os
canais de programadoras nacionais e, dentro desse já restrito espaço,
reduzir o da Globo, significa, inevitavelmente, aumentar, na TV por
assinatura, o espaço já extremamente hipertrofiado da indústria
norte-americana do entretenimento e favorecer o açambarcamento desse
segmento pelas teles estrangeiras – tão doidas para dominar o setor quanto
está o deputado Bittar para que elas o dominem. Quem ocupará o espaço da
Globo, se ela for confinada a esse pequeno curral? Não serão outras empresas
brasileiras, mas os monopólios estrangeiros, muito mais vorazes, de muito
maior poder econômico, e, para dizer o mínimo, muito mais desvinculados do
país que o seu primo pobre do Jardim Botânico.
Na primeira versão do substitutivo, Bittar havia
simplesmente entregue a TV paga ao capital externo. Nisso, ele não se
diferenciava em nada do projeto original, de autoria do deputado Bornhausen,
filho daquele ex-senador que queria exterminar a “raça” petista. Bittar
apenas, em troca da passagem legal da TV paga ao capital externo,
estabelecia algumas “cotas” minúsculas para o “conteúdo nacional”.
Na atual versão, essa essência entreguista
continua inalterada, mas, além das cotas estarem mais diminutas, Bittar
acrescentou as sábias sugestões do grupo Abril, que opera na TV a cabo como
fachada para a Telefónica, a Disney e o grupo Hearst - além da Viacom, que
lhe concede a franquia da MTV, e dos racistas sul-africanos do Naspers, que
possuem um naco do grupo. O grupo Abril sempre foi um conglomerado cítrico –
em suma, é um laranjal diversificado. Nesse caso, por lamentável distração
ou injustificado desespero, a Bandeirantes e a Record se juntaram a Abril,
como se a forma de enfrentar a Globo fosse oferecer-se a uma cascavel para
que ela mate uma cobra d’água.
Porém, o pior é Bittar apresentar uma coisa
dessas como uma limitação ao monopólio da Globo. Se queria limitá-lo, por
que não aumentou o número de canais brasileiros nos pacotes, para
possibilitar que outras empresas nacionais pudessem ocupar mais espaço? Por
que, se queria restringir alguma coisa, não restringiu o espaço das
programadoras estrangeiras? Mas, pelo contrário, ele restringiu o espaço das
programadoras brasileiras e deixou o monopólio estrangeiro à solta.
É verdade que a programadora da Globo seria
prejudicada – mas não por ser um monopólio e sim por ser brasileira. Longe
de ser uma regra anti-monopolista, o dispositivo é uma regra
anti-brasileira, restringindo o conteúdo nacional. Para a Abril não haveria
problema – seu negócio é, realmente, o conteúdo estrangeiro. Como demonstrou
na última sessão do CADE, o que ela quer passar por “conteúdo nacional” é a
MTV. Ocupados esses quatro canais, restariam oito para serem divididos entre
a Record, a Bandeirantes, o SBT e outras redes brasileiras. Bastaria uma
delas crescer um pouco a programação e o número de canais para que isso se
transformasse numa camisa de força, contendo esse crescimento. Seria a
melancólica conseqüência de um oportunismo momentâneo.
Favorecidos pela restrição, só mesmo os canais e
programadoras estrangeiras. Interessante que alguns defensores do deputado
Bittar – pois, certamente, eles existem – argumentam que o problema da TV
paga é que ela é dominada em 78% pela Globo. Não por acaso omitem que a NET
é hoje uma propriedade ilegal da Telmex/AT&T, assim como a TVA é da
Telefónica, Hearst, Disney. O projeto de Bittar pretende, na verdade,
legalizar o que hoje é ilegal – para livrar infratores das penas da lei,
quer-se mudar a lei, que só permite até 49% de capital externo nas empresas
do setor. Esperemos que os pedófilos não proponham legalizar a pedofilia – e
que não encontrem no Congresso um relator que lhes faça um substitutivo.
A Abril está, naturalmente, a favor das atuais
cotas do deputado Bittar. Percebeu que elas nada significam, até porque
estabelecem menos conteúdo nacional do que aquele que já existe na TV por
assinatura – e, ainda por cima, a ser implantado inteiramente só daqui a
quatro anos! O que realmente importa é a entrega da TV paga ao capital
externo. Passar uma cerca de arame em torno dos canais e programadoras
nacionais estava, provavelmente, além dos sonhos de qualquer monopolista
estrangeiro.
CARLOS
LOPES