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Contra a especulação e em
defesa dos salários, CUT faz ato na Paulista nesta quinta
Em
entrevista ao HP, o presidente da CUT-SP, Edílson de Paula, destacou o
significado do ato “Contra a especulação, contra o aumento da inflação e em
defesa dos salários”, convocado para a próxima quinta-feira, às 10 horas, em
frente à Fiesp e ao banco ABN, na Paulista.
Sob o pretexto do combate à inflação, a direita defende o
arrocho nos salários e o BC ameaça com novo aumento de juros. O que a CUT
propõe?
Nos últimos meses, o Brasil tem convivido com o despertar
do “fantasma” da inflação. Mas é bom salientar que o tão noticiado “surto
inflacionário” na verdade tem origem na especulação externa, particularmente
no aumento de preços do petróleo e dos alimentos, que são commodities. Como
tudo que é produzido tem um componente pesado de transportes e, no caso dos
produtos agrícolas, também dos fertilizantes, hoje nas mãos de três grandes
multinacionais, os efeitos desse processo especulativo são claros. O IPCA,
índice oficial da inflação, indicou uma variação acumulada de janeiro a maio
de 2008 de 2,71%, porém somente o item alimentação apresentou variação de
5,55%. Resumindo: o problema não se resolve arrochando o salário do
trabalhador nem aumentando o juro, mas fortalecendo políticas públicas que
diminuam a nossa dependência externa, aumentando o poder de consumo e
expandindo o mercado interno. Por isso nome lema é contra a especulação,
contra o aumento da inflação e em defesa dos salários.
Quem puxa a inflação?
Só a título de comparação, a inflação de maio de 2007 a
maio de 2008 foi de 5,58%, enquanto para os alimentos foi de 14,63%, contra
apenas 3,21% dos demais itens. Os principais vilões foram a carne bovina,
feijão, panificados (trigo), leite, arroz e óleo de soja, respondendo
somente estes 6 itens por quase 60% do aumento dos preços dos alimentos no
IPCA. No acumulado entre janeiro e maio os produtos alimentícios que mais
subiram de preço foram o tomate (66,82%), feijão preto (46,4%), arroz
(25,75%) e farinha de trigo (22,57%).
O alto preço dos fertilizantes vem sendo responsável por
até 50% do custo da produção.
Esta é uma denúncia dos companheiros da CUT-PR e o próprio
governo tem sinalizado com a perspectiva de reestatização do setor de
fertilizantes. Vale lembrar que após 15 anos da privatização do setor por
FHC, o país importa mais de 70% dos insumos que utiliza. A Bunge controla
hoje no país 52% da produção de fertilizantes, 98% se somada às
multinacionais Yara e Cargill. Dominado o setor, o cartel transnacional vem
promovendo aumentos abusivos nos preços dos insumos. O enxofre, por exemplo,
chegou a aumentar 900% em apenas um ano, de maio de 2007 a maio de 2008. O
ácido fosfórico subiu 259% e o cloreto de potássio 246%. Hoje, importamos
17,3 milhões de toneladas, o que corresponde a 65% do fertilizante que o
país consome, um modelo dependente e que precisa ser revisto, para
garantirmos nossa soberania alimentar, com alimento barato para a população.
O trabalhador é o mais penalizado.
Evidente. O Índice de Custo de Vida (ICV-Dieese) indica uma
inflação acumulada entre janeiro e junho de 2008 de 3,61%. Porém, a variação
do preço dos alimentos foi de 7,75% no mesmo período para aqueles que têm
menos renda, ou seja, 33% das famílias. No mesmo período, a inflação para o
1/3 dos mais ricos foi de 3,27%, o que quer dizer que os mais pobres foram
mais penalizados. Se estivéssemos vivendo em um país no qual a classe
empresarial defendesse os interesses da nação, o combate a este “surto
inflacionário” seria mais fácil. No nosso entender em vez de pegarem carona
no aumento dos preços internacionais, os empresários deveriam denunciá-los e
combatê-los. Assim, com uma diminuição considerável da taxa de juros, o
governo estimularia o aumento dos investimentos e a expansão da capacidade
produtiva, eliminando por completo qualquer risco de inflação de demanda.
Este é o caminho do crescimento econômico com geração de emprego e
redistribuição de renda. O proposto pelo BC é um tiro no pé.
O fundamental agora é garantir a continuidade da
recuperação salarial.
A preocupação essencial da CUT neste momento é proteger os
salários, que o Banco Central diminua as taxas de juros para proporcionar
mais investimentos na produção de alimentos e que os empresários cumpram com
sua palavra de que com o fim da CPMF os preços baixariam. O que vimos até
agora foi justamente o contrário: a classe empresarial aumentou seus lucros
e pega carona na onda inflacionária mundial, majorando os preços aqui no
Brasil. Diante disso, há uma tendência das campanhas salariais ganharem
impulso neste semestre, com uma multiplicação das greves.
LEONARDO SEVERO |