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Como foi tramado o 9 de
Julho (2)
Aureliano Leite foi presidente da
MMDC, a milícia oligárquica que nasceu, segundo ele, da idéia de fortalecer a
conspiração em curso, criando “uma sociedade secreta mais abrangente, mais
universal, que pudesse conter todas as demais”
Conforme prometemos na edição
anterior, vamos deixar que Aureliano Leite exponha com suas próprias palavras o
objetivo da MMDC, criada no dia seguinte ao golpe de 23 de maio, quando a Frente
Única Paulista, integrada pelo PD (Partido Democrático) e pelo PRP (Partido
Republicano Paulista), conseguiu assumir o controle integral do governo de São
Paulo.
O texto é extraído do seu livro
“Martírio e Glória de São Paulo”.
O livro foi escrito em 1934,
quando não era mais necessário tomar maiores cuidados para camuflar sob o
discurso “constitucionalista” os reais intentos que guiaram os partidos da
Frente Única antes mesmo da sua formação: conspirar para promover a luta armada,
derrubar o Governo Provisório, instaurar o domínio da oligarquia e anular os
efeitos da Revolução de 1930.
O terceiro e último capítulo da
série “Como foi tramado o 9 de Julho” será publicada na edição 2.685, de 23 de
julho (SR).
AURELIANO LEITE
Todos
os que trabalharam pela libertação de S. Paulo, de que os sucessos de 23 de Maio
haviam sido o primeiro degrau ostensivo, passaram desde essa data a desenvolver
maior atividade a favor da causa.
Mais de uma sociedade secreta
civil já vinha congregando elementos e forças na Capital e no interior de S.
Paulo, para a reivindicação de sua autonomia. A mais esforçada delas tinha por
sede o jornal “Estado de S. Paulo”. À testa de seus serviços postavam-se o Sr.
António Pereira Lima e Tenente Benito Serpa.
Sem falar num antigo Comitê
Executivo da Revolução, dos Srs. Ataliba Leonel, Júlio Mesquita, Cesário Coimbra
e Coriolano de Góis.
Logo após, porém, a 23 de Maio,
todas as organizações secretas e civis existentes em S. Paulo (salvo, está
claro, a alta direção, corporificada no governo civil, na Frente Única, liderada
pelos Srs. Francisco Morato e Pádua Sales, e no General Isidoro Lopes e seu
Estado maior) desapareceram dentro da que mais tarde veio a chamar-se “M.M.D.C”,
e que entrou a agir desassombradamente e mais largamente.
A idéia da fundação da M.M.D.C.,
ou seja de uma outra sociedade secreta mais abrangente, mais universal, que
pudesse conter todas as demais, nasceu de um jantar, no restaurante Pocilipo, da
rua das Flores, no dia 24 de Maio. Éramos apenas quatro pessoas: J. A. Sampaio
Vidal, membro do governo empossado, Prudente de Morais Neto, Paulo Nogueira
Filho, e eu. Abreviamos a refeição, metemos imediatamente mãos à obra,
conseguindo, daí a duas horas reunir no salão de chá do Clube Comercial vinte e
três pessoas dispostas a todo sacrifício, representantes de todas as classes
sociais.
Ali mesmo escolheu-se a direção,
que ficou constituída de Paulo Nogueira Filho, Sílvio de Campos, Edgar Baptista
Pereira, António Carlos Pacheco e Silva, Gastão Saraiva e Comandante Pietcher,
como técnico militar.
Paulo Nogueira Filho, tendo sido
chamado pelo Sr. Valdemar Ferreira [secretário de Justiça] para criar a polícia
secreta da conspiração, foi por mim substituído no seu posto. Nogueira Filho
levou como secretário Paulo Pinto de Carvalho.
Como um dos diretores do Clube
Comercial, consegui localizar definitivamente no seu palácio a sede da
organização, que começou por chamar-se Guarda Paulista.
Dias depois, o Sr. Edgard B.
Pereira lembrou para patronos espirituais da sociedade os nomes dos quatro moços
paulistas mortos a 23 de maio. Mas que eles se representassem apenas pelas
iniciais em ordem crescente: C.D.M.M.
Mais velho que o Sr. Edgard, eu
vendo a disposição das iniciais, recordei-me de uma antiga legenda de sentido
assaz burlesco. Indiquei a inversão para ordem decrescente. Foi aceita.
“M.M.D.C.”, imediatamente em
campo, dividiu a cidade em várias dezenas de setores... Em menos de 10 dias,
tínhamos à nossa disposição cerca de 5.000 cidadãos paulistas, prontos a pegar
em armas, por S. Paulo.
Por essa altura, verificada do que
seria capaz a novel organização guerreira, os chefes militares de S. Paulo, com
o Gen. Isidoro Lopes à frente, pretenderam entregá-la à direção do Cor.
Klinglhöefer. O plano era investir o ex-combatente da Grande Guerra Européia no
comando de uma brigada que se formasse dos elementos da “M.M.D.C” e da Guarda
Civil de S. Paulo.
À vista da forte oposição
manifestada pela maioria dos diretores, que repeliram a regência de Klinglhöefer,
levei essa resolução aos Srs. General Isidoro, Cap. Veloso, Julio Mesquita
Filho, Silvio de Campos, Cor. Klinglhöefer e o representante da Força Pública,
reunidos no arranha-céu Martinelli com o fito dos preparativos para a
deflagração do movimento.
Atendida a impugnação de que eu
era portador, mais tarde, no começo da luta, como se verá adiante, renovar-se-ia
baldadamente ainda a tentativa de excluir-se o Cap. A. Pietcher da “M.M.D.C” e
entregar-se a parte militarizada ao Cor. Klinglhöefer.
Em seguida realizávamos, no
Canindé, numa manhã de domingo, a primeira concentração e parada de nossos
homens.
Compareceram mais de 1.000 chefes e sub-chefes de grupos. Formaram nessa ocasião
os autos-caminhões da Prefeitura cedidos pelo seu titular. Custa a crer que o
ilustre Sr. Godfredo Teles [prefeito de São Paulo] viesse depois, em seu
depoimento publicado pelo vespertino paulista “A Gazeta”, alegar desconhecimento
da conspiração. |