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A
Satiagraha de Gilmar Mendes
Gilson Caroni Filho*
Tratando da indignação filosófica
em Platão, o professor Jean Lauand, em artigo publicado no Jornal da Tarde (15
de agosto de 1981), afirmava que o filósofo não quer saber se “um rei que tem
muito ouro é feliz ou não, mas o que é, em si, o poder, a felicidade e a
miséria. Em si e em suas últimas razões”.
Ao criticar, por sua suposta
espetacularidade, a operação da Polícia Federal que resultou na prisão de vários
notáveis, entre eles, Daniel Dantas, Naji Najas e Celso Pitta, o presidente do
Supremo Tribunal Federal ( STF), ministro Gilmar Mendes evidenciou duas coisas
que um magistrado deve evitar: indignação seletiva e nostalgia de tempos
recentes. Não sei se o mais recomendável é a leitura de “A República” ou uma
imersão político-jurídica no Brasil dos últimos cinco anos.
O que disse Mendes sobre
espetacularização quando, no final de 2006, um delegado da Polícia Federal
obteve e repassou à imprensa as fotos do dinheiro apreendidos com duas pessoas
ligadas ao PT num hotel de São Paulo? Como se pronunciou na folhetinização do
caso da menina Isabela Nardoini, promovida pela mídia com apoio prestimoso da
polícia e do Ministério Público Paulista? A resposta para as duas perguntas é um
nada retumbante.
No primeiro caso, o procedimento
do delegado foi compatível com o Estado de direito? Prisões em plena vigência do
período eleitoral, que só autoriza prender em flagrante delito, foram
manifestações de apreço pela ordem democrática ou uma ação que ignorou a lei em
nome da conveniência de interesses partidários e de corporações de mídia? Será
que só há espetáculo quando concordamos com a escolha de quem deve desempenhar
os papéis dos vilões?
É bom lembrar que ação da Polícia
Federal só foi possível a partir da abertura de um inquérito determinado pelo
procurador-geral da República, Antônio Fernando de Souza. Esse fato,
aparentemente prosaico, guarda uma distância enorme da prática vigente de quando
o atual ministro era Advogado-Geral da União (AGU), no segundo mandato de
Fernando Henrique Cardoso.
Naquela época, no tempo do
“estamos no limite da irresponsabilidade”, qualquer tentativa de investigação
criminal contra ministros e presidente da República terminava com pareceres
contrários do então procurador Geraldo Brindeiro, o que lhe valeu o apelido de”
engavetador-geral da República.”
Anos antes, a febre privatista do
tucanato sucateava o patrimônio público. Como destacou o saudoso Aloysio Biondi,
em um livrinho capital para entender o processo (O Brasil Privatizado- um
balanço do Desmonte do Estado), “o governo Fernando Henrique Cardoso implantou
as privatizações a preços baixos, financiou “ os compradores”, sempre alegando
não haver outros caminhos possíveis”.
Era o plano perfeito. A lógica
autoritária do vender ou vender. Esquema absolutamente lógico, não havia outra
saída. Bancos do governo e os fundos de pensão das estatais injetavam nas teles
muito mais recursos do que se imaginava, embora a lei não permitisse que os
fundos emprestassem dinheiro para empresas privadas. É nesse contexto, de “plena
vigência do Estado de direito” que pontificaram Dantas, Cacciola e tantos
outros. E o que disse Gilmar Mendes?
A imprensa foi elemento central
para legitimar a privataria. Editoriais e artigos afiançavam que, para o
governo, não poderia haver negócio melhor, pois se livraria da responsabilidade
de gerenciar um negócio em que seu desempenho era um fiasco para assumir a nobre
atividade da fiscalização. Aos consumidores, o paraíso. Melhora na qualidade dos
serviços, redução de tarifas e fácil acesso a um aparelho.
“Vamos promover uma mudança
gigantesca neste país com a privatização da Telebrás”, prometia o então ministro
Luiz Carlos Mendonça, o mesmo que protagonizaria um dos diálogos mais
republicanos de que se tem notícia.
Em conversa grampeada, Mendonça e
Ricardo Sérgio (ex-diretor da área internacional do Banco do Brasil) mostram os
bastidores do governo que não chocou o presidente do STF.
“Mendonça de Barros - Está
tudo acertado. Mas o Opportunity está com um problema de fiança. Não dá para o
Banco do Brasil dar?
Ricardo Sérgio - Acabei de
dar.
Mendonça de Barros - Não é
para a Embratel, é para a Telemar [nome de fantasia da Tele Norte Leste].
Ricardo Sérgio- Dei para a
Embratel, e 874 milhões para a Telemar. Nós estamos no limite da
irresponsabilidade.
Mendonça de Barros - É isso
aí, estamos juntos.
Ricardo Sérgio - Na hora
que der merda, estamos juntos desde o início.
Não deu. E os motivos vão da
sólida base parlamentar de FHC a um procurador que não indiciava. Uma operação
da Polícia Federal que trouxesse resultados práticos era impossível. Faltava-lhe
autonomia e uma dimensão republicana que só obteria em outro governo.
Ao dizer que a Operação Satiagraha
configura um “Estado Policial” certamente o ministro não age de má-fé. É apenas
um homem sem coordenadas precisas de tempo histórico e espaço político.
*Gilson Caroni Filho é
professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio
de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador da Hora do povo e do
Observatório da Imprensa. |