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Dercy Golçalves deixa legado para história do teatro brasileiro
Carlos Pinto*
Nascida em Santa Maria Madalena,
região serrana do Rio de Janeiro, Dolores Gonçalves Costa, fugiu de casa aos
dezessete anos de idade, para cumprir o sonho de ser atriz. E concretizado o
sonho, entra para a história do teatro, cinema e Tv deste país, com o nome
artístico de Dercy Gonçalves. Com seu falecimento ocorrido neste final de
semana, perde o país uma de suas grandes atrizes, que leva consigo grande parte
da irreverência nacional.
Oriunda do teatro de revista, uma
manifestação cultural genuinamente brasileira, e que infelizmente foi
defenestrada do nosso panorama artístico em função de uma infeliz “canetada” do
então Presidente da República, Eurico Gaspar Dutra. No entanto a participação de
Dercy no cinema nacional, notadamente nas décadas de 50 e 60, atuando nas
famosas chanchadas da Atlântida, lhe deram notoriedade. Tornou-se famosa por
suas irreverentes entrevistas, onde destilava o seu bom humor, e abusava dos
termos de baixo calão, elevando-a ao trono da maior expoente do teatro de
improviso no país.
Após fugir de casa juntou-se a uma
companhia itinerante de teatro. Em 1929, atuando pela Companhia Maria Castro,
estréia em “Leopoldina”. Ainda fazendo teatro itinerante com Eugenio Paschoal,
na década de 30, apresentou-se em várias cidades do interior, em vários estados
com o nome de “Os Pascoalinos”. Especialista na comedia de improviso, esteve
presente no pico de fama do Teatro de Revista nos anos 30 e 40, trabalhando na
Companhia de Walter Pinto.
Nos anos 60 passa a realizar um
trabalho solo, com o qual excursiona por todo o país e vai conquistando os
espectadores ainda presos a um moralismo formal. Nessas apresentações introduz
monólogos onde conta facetas de sua vida particular, carregadas da sua habitual
irreverência e recheadas de seu característico bom humor. Na televisão atuou em
várias emissoras a começar pela TV Excelsior, onde conhece José Bonifácio de
Oliveira Sobrinho, o Boni. Posteriormente vai para a TV Rio e depois para a TV
Globo, onde apresentou um programa de auditório de muito sucesso. Com o advento
da censura em função do regime de exceção instalado no país, seu programa teve
que ser retirado do ar.
No cinema atuou em vinte e quatro
filmes, onde contracenou com Oscarito, Grande Otelo entre outros. Seu primeiro
filme foi “Samba em Berlim”, de 1943, e sua ultima atuação no cinema data do ano
2000, no filme “Célia e Rosita”, um curta metragem. Em 1991 foi tema do enredo
da Viradouro, que apresentou no sambódromo o “Bravíssimo – Dercy Gonçalves, o
retrato de um povo”, onde ela desfilou no ultimo carro da escola com os seios de
fora, provocando grande polêmica. Deixa ainda sua biografia elaborada por Maria
Adelaide Amaral, com o título “Dercy de cabo a rabo.” Deixa um legado
incomparável para a história do teatro brasileiro.
*Carlos Pinto é Jornalista e
presidente do ICACESP |