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Carlinhos, um busto
merecido
ARIOVALDO IZAC *
Ex-jogadores flamenguistas como o meia Zico, zagueiro Mozer
e o polivalente Leonardo testemunham que Carlinhos foi um técnico com profundo
conhecimento de futebol, sabia comandar treinos, dar padrão tático ao time e
trabalhar jogadas de conclusão. O diferencial desse treinador era o
desprendimento pelo dinheiro e o aspecto disciplinar. Se dependesse dele as
rédeas seriam afrouxadas, porque sequer admitia se concentrar com o elenco nas
vésperas de jogos. Deixava o controle dos jogadores a parceiros da comissão
técnica e cartolas. Aparecia em hotéis e vestiários dos estádios, para se juntar
ao grupo, apenas algumas horas antes do jogo, visando a indispensável preleção e
pronto.
Trocado em miúdos, Carlinhos, registrado com o nome de Luís
Carlos Nunes da Silva, foi um “boleirão”, sarrista no velho estilo carioca. À
noite, após o sagrado trabalho, gostava de reunir amigos em bares para goladas
de chope e saborear a salada preferida, de palmito. Não se constrangia pela
incapacidade de decorar nomes de todos os jogadores reservas, mesmo após o tempo
suficiente para isso. Às vezes um suplente pouco requisitado era chamado apenas
como “rapaz”.
Nas passagens como técnico de Flamengo, Guarani e Remo
geralmente optava pelo acordo verbal com os dirigentes, sem multa rescisória, e
com colocações bem claras: seria exclusivamente um treinador de campo. E nesse
aspecto soube montar equipes com refinado toque de bola, de forma a envolver
adversários até a assistência para atacantes completarem jogadas.
O principal reflexo do trabalho do treinador foi o título
da Copa União com o Flamengo, em 1988. Ainda no clube do Rio de Janeiro, foi
campeão do Campeonato Brasileiro em 1983 e 1992, além de títulos estaduais por
três vezes.
Por causa desse retrospecto o Guarani ousou contratá-lo
ainda em 1992 e o trabalho consistente resultou na colocação do time à sexta
colocação do Campeonato Brasileiro no ano seguinte. Personalista, Carlinhos
deixou o clube por divergência com dirigentes nas quartas-de-final do
Brasileiro, mesmo com o time em situação cômoda. E na passagem por Campinas, o
técnico confessava repetidamente a saudade do Rio de Janeiro, mesmo viajando
toda semana para rever a família.
Carlinhos foi um “baita” volante na década de 60. No seu
tempo, jogadores de sua posição transcendiam o papel de marcador. Tinham que
saber passar a bola corretamente, carregá-la e se desvencilhar de marcadores. E
por conjugar muito bem essas funções, com estilo refinado, ganhou o apelido de
Violino.
A mágoa que não esconde foi o corte entre os 40 atletas
pré-relacionados para a Copa do Mundo de 1962, no Chile. Na ocasião, o então
treinador Aimoré Moreira preferiu levar Zequinha, do Palmeiras, como reserva de
Zito, e Carlinhos entendeu a atitude como bairrista. “Quiseram fazer uma média
com os paulistas”.
No dia 29 de março passado, por iniciativa do Conselho
Fiscal do Flamengo, Carlinhos foi homenageado com um busto, na sede da Gávea,
que citou não ser nada parecido com ele, mas se emocionou com o reconhecimento.
Ele vestiu a camisa do clube por 517 vezes entre 1959 e 1970. E durante esse
período se orgulha de jamais ter sido expulso, comportamento que resultou, na
época, no prêmio Belford Duarte, para atletas disciplinados.
* É
jornalista em Campinas e colaborador do HP |