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Quem atira na Ministra?
GILSON CARONI FILHO*
“Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão”
(Chico Buarque)
Que Dilma Rousseff é o alvo não resta qualquer
dúvida. Mal sai do cenário a “novela-denúncia” do dossiê anti-FHC, começa
uma nova atração para jornais, revistas e o telejornalismo global, que
promete encher páginas e telas nos próximos dias: o caso Varig. A visível
fadiga da dramaturgia recorrente parece não ter sido notado por diretores de
arte e editores. Mas a nova trama começa com um mistério inédito: quem é o
autor?
Segundo o jornalista Josias de Souza, o
presidente Lula, em conversa reservada com um assessor, teria achado
“curioso que a origem dos ataques à ministra partam, invariavelmente, do
PT”. Tanto no caso do dossiê quanto no suposto imbróglio da Varig a munição
teria partido de pessoas ligadas ao ex-ministro José Dirceu, conclui o
articulista da Folha de S. Paulo.
Se o ex-chefe da Casa Civil, hoje se dedica a
uma empresa de consultoria que dá conselhos e presta serviço a grandes
grupos empresariais, isso, por si, o tornaria suspeito? E a ex-diretora da
Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), Denise Abreu? Teria deixado de ser
a mulher que, segundo a grande imprensa, usou o cargo para beneficiar
amigos, se transformando em fonte fidedigna de uma imprensa partidarizada? A
nova musa de Álvaro Dias e José Agripino? Como se vê, não faltam suspenses
na nova produção jornalística que serve ao consórcio PSDB/DEM. O pecado
capital do enredo é a ausência de uma história verossímil...
Em entrevista ao programa Atualidade, da rádio
Gaúcha, a ministra disse que sua participação na venda da VarigLog
limitou-se a decretar a falência do grupo para que a empresa fosse salva. E
afirmou que não acredita em “fogo amigo”. Mas, seguindo metodologia
consagrada na redação da TV Glo-bo, façamos mero exercício de exploração de
hipóteses. Quem seria o atirador e quais suas motivações? Para o professor
Fernando Sá, professor e editor da PUC, o quadro está muito embaralhado para
afirmações categóricas.
“Não apenas o consultor, mas muito mais gente
graúda dentro do PT está tentando garantir a indicação de alguém de dentro
do partido para a sucessão de Lula em 2010. A avaliação é que Lula levará,
inevitavelmente, o seu candidato para o segundo turno e, aí, tudo pode
acontecer, até eleger um candidato sem grandes apelos populares no momento.
Seria o caso de Tarso, Patrus e Marta por exemplo”.
No caso de José Dirceu, lembremos que a Articulação, rebatizada, ainda é a
corrente majoritária. É a mesma lógica que impediu a aliança em BH, pois não
se trata de apenas eleger o candidato, mas de garantir para o
partido/tendências cargos nas máquinas de governo.
Dilma não é um quadro orgânico, não está
vinculada/comprometida com nenhuma corrente, e também não entusiasma os
quadros gaúchos o (Tarso, Olívio, Pont e suas respectivas tendências), pois
caso ela não saia para concorrer ao Planalto - e se o PAC emplacar, até
inícios de 2010 - 60% das obras, será muito difícil impedir sua
candidatura ao governo do Rio Grande do Sul.
Lula sabe de tudo isso. E Dilma também. É licito
imaginar que os dois tenham se lançado ao Planalto para ocupar espaço
político antes das eleições de 2010, pois apenas o PSDB (Serra/Aécio) e
menos o PSB (Ciro) aparecem para a opinião pública com candidatos para 2010.
Nessa quadra, acreditamos que o fogo contra a
Dilma pode vir de qualquer lugar: de amigos e inimigos: oposição, direção
nacional, paulistas, gaúchos etc. Dilma é o nome da vez. Mas o enorme
zepelim pertence a uma agenda que nos quer caminhando para trás na história.
É hora de contra-atacar com igual intensidade e garantir os avanços
conquistados nos últimos anos.
*Gilson Caroni Filho é professor de
Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de
Janeiro, colunista da Agência Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil
e Observatório da Imprensa. |