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Contratos assinados com a Alstom dobraram com Alckmin
Justiça suíça
mostra que a multinacional pagou propina a tucanos. Serra abafa investigações
No último dia 4, a Comissão de Desenvolvimento
da Câmara aprovou, por 10 votos a 7, a convocação do presidente da multinacional
francesa Alstom no Brasil, de membros do Ministério Público e do delegado da PF
que está investigando o caso de suborno a membros do governo de São Paulo.
A convocação da Câmara foi necessária porque o
governador de São Paulo, José Serra, decidiu impedir qualquer investigação pelo
Legislativo estadual. Segundo ele, o caso é mero “eleitoralismo”. Sem dúvida,
ele não achava isso quando, às vésperas das eleições para presidente, os seus
correligionários forjaram investigações de pseudo-casos contra o governo Lula.
CASO
No entanto, o caso Alstom não é um pseudo-caso.
O esquema foi iniciado no governo Covas, primeiro governo tucano de São Paulo.
Antes, a Alstom havia assinado apenas 20 contratos com o Estado. No governo
Covas, esse número saltou para 40. E, no de Geraldo Alckmin, foram fechados 77
contratos. Em valores, o pulo foi de R$ 1,1 bilhão antes de Covas para R$ 3,1
bilhões no governo Alckmin.
Em poucas semanas, proliferaram tanto as
revelações de propinas e atentados à lei, que pode-se ficar tonto ao tentar
acompanhá-las. Sendo assim, aqui está um breve e parcial resumo:
1)
Em maio, autoridades suíças revelaram que a Alstom, um conglomerado que atua em
70 países nas áreas de fornecimento de equipamentos para geração de energia e
ferrovias, havia pago propinas a autoridades governamentais em vários países. No
Brasil, uma propina de US$ 6,8 milhões (seis milhões e oitocentos mil dólares)
havia sido paga para obter um contrato com o Metrô de São Paulo.
2) Segundo a Justiça suíça, as propinas incluíam
pessoas na Secretaria de Energia de São Paulo, no Tribunal de Contas do Estado e
alguém descrito como “ex-secretáire du gouverneur” (ex-secretário do
governador). Na época em que se iniciaram os pagamentos, o secretário de Energia
era David Zylbersztajn, então genro de Fernando Henrique, substituído depois por
Andrea Matarazzo, secretário de Serra quando prefeito de São Paulo, e por Mauro
Arce, atualmente secretário de Transportes de Serra.
3)
As propinas eram pagas através de empresas de fachada com sede em bordéis
fiscais. A Alstom assinava contrato com empresas de consultoria cujo trabalho
era fictício, e repassava o dinheiro das propinas através das empresas de
fachadas. A principal destas era a “MCA Uruguay”, com sede nas Ilhas Virgens
Britânicas e contas bancárias na Suíça e Luxemburgo, cujo dono é um certo Romeu
Pinto Júnior. A “MCA Uruguay” já havia aparecido no escândalo das remessas
ilegais para o exterior via Banestado.
4)
Além do Metrô, as propinas eram pagas em troca de contratos com outras estatais
paulistas. Em um contrato da Alstom com a Eletropaulo, os investigadores suíços
constataram que a MCA recebeu 7,5% do valor total. Num memorando interno da
empresa, esse percentual (7,5%) é descrito como remuneração do “poder político”,
através do “ex-secretáire du gouverneur”, designado pelas iniciais de seu nome:
“RM”.
5)
Havia alguém com essas iniciais: Robson Marinho, ex-secretário de Estado, depois
conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE). Em 2001, um parecer seu, a
favor da aprovação de um aditivo a um contrato da Eletropaulo com a Alstom, foi
um dos relatórios mais rápidos de toda a história do TCE. Segundo conselheiros
ouvidos pelo jornal “O Estado de São Paulo”, a emissão de um relatório
semelhante leva, em média, cinco anos. Porém, o conselheiro Marinho emitiu seu
relatório em três meses. Não se pode criticar alguém pela eficiência e rapidez.
O problema é que o conselheiro havia, 2 anos antes, viajado para a Copa do Mundo
na França com despesas pagas pela Alstom. Segundo Marinho, ele foi convidado por
um amigo, diretor da Alcatel, que só depois viria a saber que é uma subsidiária
da Alstom.
6)
Outras empresas de fachada eram a “Taltos”, em nome de José Geraldo Villas Boas,
um ex-funcionário da Cesp, a “Splendore y Asociados”, esta uma empresa
completamente fantasma, a “Andros Management”, com sede nas Bahamas, a “Janus
Holding” e a “Compania de Asesores de Energia S.A.”.
7)
A Alstom depositava as propinas no exterior, nas contas dessas empresas de
fachada. Em um único caso, houve um pagamento da Alstom dentro do Brasil a uma
dessas falsas consultoria, a Acqua Lux Engenharia e Empreendimentos, de Monteiro
Lobato, município paulista de 3 mil e 700 habitantes.
8)
O jornal “O Estado de S. Paulo” entrevistou um ex-funcionário do setor de
finanças da Alstom no Brasil. Segundo ele, “alguns fornecedores emitiam notas
fiscais com valores alterados e/ou produtos e serviços nunca entregues ou
executados. O valor da propina entrava no custo total do projeto, deixando a
verba diluída com o custo de fornecimento de materiais, produtos e serviços”.
9)
No governo Alckmin, o Metrô e a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos
(CPTM) realizaram duas compras ilegais à Alstom. No Metrô, para evitar
licitação, foi usado um contrato de 1992 para comprar 16 trens em 2005. O
contrato de 1992 era para a compra de 22 trens, dos quais 11 foram entregues. Em
2005, exumou-se esse contrato de 13 anos antes para comprar os 11 trens que
faltavam e mais 5 outros, gastando-se com isso meio bilhão de reais. O caso da
CPTM é ainda mais escandaloso: o contrato era de 1995 e todos os 12 trens nele
previstos já haviam sido entregues. Mesmo assim, esse contrato foi usado, em
2000, para uma outra compra de 12 trens, sem nenhuma relação com a primeira. No
TCE, o relator, Cláudio Alvarenga, considerou que esse uso extemporâneo de um
contrato “traduziu-se, singelamente, em dissimulada contratação direta”, ou
seja, fraude para fugir à licitação.
10)
Em 1994, o Metrô de São Paulo assinou um contrato com a CMW Equipamentos, uma
subsidiária da Alstom, para realizar a ampliação e reforma do seu centro de
operações. Estranhamente, o contrato não tinha valor definido, apenas estimado,
e não havia prazo para a realização da obra. Pela lei, esse prazo não poderia
ser maior do que 5 anos. Mas, nesse caso, o contrato durou 13 anos (1994-2007),
custando ao Estado mais meio bilhão de reais.
11)
Por último, o caso da CTEEP, onde, dos 47 contratos assinados com a Alstom
quando a empresa era estatal, 25 foram sem licitação. Por coincidência, o
presidente da empresa que multiplicou esses contratos é um ex-diretor da Cegelec
– outra subsidiária da Alstom - transplantado por seus amigos tucanos, em 1999,
para a CTEEP.
APURAÇÃO
Nenhum desses fatos atinge Serra diretamente,
até porque seu governo fechou apenas dois contratos com a Alstom, de valor quase
irrisório, além de assinar dois aditivos. Quanto a Covas, terá que prestar
contas no outro mundo. Portanto, resta Alckmin para responder pelas
irregularidades.
Para Serra, adversário de Alckmin dentro do PSDB
e, pelo menos oficialmente, se opondo à sua candidatura a prefeito da capital do
Estado, o caso Alstom seria um prato feito. Como se sabe, Serra não é dado à fé
inútil nas lealdades partidárias, sobretudo quando alguém se opõe a ele – que o
diga o Paulo Renato e suas pretensões a ser o candidato do PSDB à Presidência
nas eleições de 2002. Suas ações são sempre pautadas por interesses muito
concretos. Se ele está evitando que Alckmin vá para o pelourinho, certamente não
é por amor ao próximo.
CARLOS LOPES
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