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Linha 4-Amarela do Metrô de São Paulo
Erros
e negligência de consórcio provocaram a tragédia
no Metrô
Laudo do IPT apontou 11 fatores que contribuíram
para a abertura da cratera, que matou 7 pessoas
O
relatório do Instituto de Pesquisas Tecnológicas
(IPT) aponta uma série de falhas do Consórcio
Via Amarela como sendo as motivações da tragédia
ocorrida na linha 4-Amarela do Metrô de São
Paulo, que resultou na morte de 7 pessoas e
deixou outras 230 desabrigadas, em janeiro de
2007. O laudo do instituto citou 11 fatores que
contribuíram para a tragédia.
Segundo o laudo, concluído quase
17 meses depois do acidente, as principais
causas que levaram à tragédia são provenientes
da negligência com que o Consórcio Via Amarela,
formado pelas empreiteiras Odebrecht, Queiroz
Galvão, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez,
tratou a obra. Para o IPT, o projeto executado
pelo Via Amarela não levou em consideração o
modelo geológico complexo do local. Mais grave
ainda, a investigação técnica concluiu que as
empreiteiras tiveram, ao menos, duas
oportunidades para corrigir os rumos da obra,
durante a escavação do poço da rua Capri e da
calota (porção superior) do túnel, mas nada
fizeram.
“Havia grande disponibilidade de
conhecimento e informação sobre a geologia do
local. Apesar disso, foi empregado um modelo
geomecânico deficiente e, conseqüentemente, a
estrutura foi projetada com suporte de baixa
capacidade”, afirma o laudo do IPT.
O fator decisivo para a abertura
da cratera da rua Capri foi, de fato, a pressa
que o consórcio tinha em concluir a obra.
Durante as investigações, os peritos encontraram
placas de concreto com dimensão menor do que o
previsto no projeto, concreto sem fibras de aço
ou com quantidade inferior ao recomendado e
falta de ensaios no cimento. “O ritmo da obra
estava tão acelerado naquele mês que o consórcio
não podia esperar a chegada dos materiais mais
adequados”, afirmou o promotor Arnaldo Hossepian
Júnior, um dos responsáveis pela investigação
criminal do caso. Em janeiro de 2007, segundo o
IPT, as escavações avançaram 70% a mais do que o
registrado no mês anterior.
A investigação detectou diversas
irregularidades em decorrência da rapidez nas
escavações. Para frear o processo de recalque
(rebaixamento) dos túneis que vinha sendo
detectado, os técnicos e engenheiros do Via
Amarela decidiram que era preciso colocar
tirantes (pinos de sustentação) ao longo da
obra. Seriam colocados 174 tirantes no túnel sob
a rua Capri e a mesma quantidade no trecho sob o
Rio Pinheiros, que também ameaçava ruir. Ao
invés de suspender os trabalhos para a colocação
dos pinos de sustentação, o Via Amarela
prosseguiu com as detonações, fator que
colaborou para o desabamento. Algumas dessas
explosões, relatadas por testemunhas, não
constam nos diários de obra que foram
apresentados pelo consórcio
Mudanças no projeto da obra sem
os devidos estudos acerca dos riscos envolvidos
também colaboraram para a abertura da cratera. A
inversão no sentido de escavação do túnel sem a
análise adequada contribuiu para a tragédia. A
obra também não contava com um procedimento
formal “para gestão de risco, plano de
contingência e plano de emergência”, o que “fez
com que a possibilidade de um colapso de grandes
proporções não fosse identificada como perigo
plausível”, conforme afirma o relatório.
A forma com que a gestão atual do
Metrô levou a fiscalização da obra também é
condenada pelo laudo do IPT. Segundo o
instituto, a fiscalização foi “deficiente”. O
secretário dos Transportes Metropolitanos da
atual gestão do governo de São Paulo, Luiz
Portella, admitiu que o Metrô optou por fazer
uma “fiscalização mais distante” da construção
da linha 4. O modelo adotado pelo Metrô no
momento da privatização da obra de construção
para o Consórcio Via Amarela é do tipo “preço
fechado”, mais eficaz no controle dos gastos e
menos aberto a interferências por parte do
contratante.
O promotor Arnaldo Hossepian
Júnior declarou já esperar por uma contestação
judicial do Consórcio Via Amarela para o laudo
do IPT. “Vai Ter. Você tem alguma dúvida que vai
ter?”, questionou o promotor. “O Ministério
Público entende que o IPT, é um órgão público.
Então o relatório técnico tem fé pública. São
todos lá servidores do Estado. O nosso sentir é
que impugnações sem dúvida nenhuma virão, aí os
tribunais se manifestarão a esse respeito”,
afirmou ele. “O questionamento será feito e será
rebatido por nós”, completou.
O Consórcio Via Amarela divulgou
no final de Março deste ano, um relatório de
autoria de um especialista britânico contratado
e pago pelo próprio consórcio. Na avaliação
desse especialista, o acidente tinha sido
causado por uma “fatalidade” que decorria de uma
“anomalia geológica”, uma rocha gigante não
detectada nos estudos do terreno. |