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Ata do Copom promete aumentar juros e impedir o país de crescer
Meirelles omite
expansão da oferta e diz que o problema é a “expansão da demanda doméstica
De repente, como se saíssem de bueiros
destampados, alguns cavalheiros e damas puseram-se a invectivar furiosamente o
responsável por nossos males. Não se trata mais da inflação, que se recusa,
apesar de suas gestões, a ficar descontrolada. Nem mesmo da corrupção, no
momento muito ocupada com os governos que eles apóiam, mormente os do Rio Grande
do Sul e de São Paulo.
Não, dizem eles, o verdadeiro culpado é o
crescimento. O crescimento? Pois é, o crescimento, esse resultado do esforço do
presidente Lula e da sociedade brasileira. No fundo, a culpa é do Lula, que veio
com essa idéia incendiária de que o país deve crescer, criar empregos, produzir
e desenvolver tecnologia.
Assim, da senhorita Leitão até o exumado Gustavo
Franco, o que é uma curta distância, todos eles se puseram a berrar contra o
crescimento. Aliás, se precisássemos de uma prova das intenções dessa malta,
bastaria a participação especial do precocemente mumificado Franco, um elemento
que afundou o país com seu câmbio engessado, e que até Fernando Henrique teve
que demitir, para que a subserviência aos bancos externos fosse dotada do mínimo
de bom senso que lhe permitisse terminar o mandato...
Se dependesse deles, naturalmente, o Brasil
estaria parado – ou, mais precisamente, em marcha acelerada para antes do século
XVIII, pois, a idéia de que um dos maiores países do mundo não pode crescer mais
do que 4% ou 3,5% (ou menos, porque essas cifras só existem para que o país seja
empurrado abaixo delas) já era caduca na época de Dª Maria, a Louca.
Tudo seria apenas agitação inútil de baratas em
polvorosa, se algumas delas não estivessem no Banco Central (BC). Em discurso na
Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), na
segunda-feira, o presidente do BC, Henrique Meirelles, disse que os aumentos de
juros são um “remédio antecipado” contra a inflação. Ou seja, não têm como
objetivo, como pregava antes, controlar uma inflação atual, à beira do
descontrole (cf. Meirelles à Agência Brasil, 24/05).
BOBAGENS
Passados menos de um mês, onde foi que Meirelles
enfiou essa inflação? Não sabemos, leitor. Aliás, nem queremos saber. O fato é
que ficou claro que a inflação não estava à beira do descontrole. Daí, a nova
versão, a do “remédio antecipado”, mais ou menos como se um médico, diante da
possibilidade (que sempre existe) de alguém contrair pneumonia, enchesse o
infeliz de penicilina por antecipação, apesar do sujeito estar bastante bem de
saúde antes de ser entupido de remédio.
Meirelles sabe que isso é uma bobagem. Tanto
assim que, algumas horas depois, mudou a versão. Segundo disse no programa “Roda
Viva”, “num regime de metas de inflação, o que define que a taxa de juros
está alta ou está baixa é o comportamento da inflação. Se as taxas [de
inflação] estão consistentemente acima do intervalo de tolerância, significa
que a taxa de juros está muito baixa”.
Se é assim, não teria sentido o aumento dos
juros quando a inflação está na meta (ou seja, dentro do “intervalo de
tolerância”), como é o nosso caso. E, realmente, não tem sentido, pelo menos não
para combater a inflação, mesmo segundo a fraudulenta doutrina econômica da qual
Meirelles é serventuário.
Vamos, aqui, fingir que não sabemos que a
avaliação do “comportamento da inflação”, nesse “regime”, é determinado por uma
meta que é estabelecida, com dois anos de antecedência, por aqueles cuja
intenção é manter os juros altos. Portanto, é um critério mais viciado do que as
roletas da Máfia.
Apesar disso, como no Brasil as taxas de
inflação estão há alguns anos dentro do “intervalo de tolerância” (atualmente,
2,5 a 6,5%), Meirelles inventou outra: segundo ele, nesse caso não há “condições
técnicas” de determinar se as taxas de juros estão altas ou baixas.
Então, por que ele aumentou os juros, e promete
aumentá-los mais ainda, se não há “condições técnicas” de saber se a taxa de
juros é alta ou baixa em relação à inflação? Pelo jeito, ele resolveu
aumentá-las porque estava com dúvida.
Meirelles não é um herói sem nenhum caráter, porque não é nem mesmo um herói
vagabundo como Macunaíma. No resto, é igual. Pode dizer qualquer coisa, não
importa que não tenha lógica ou que seja o oposto do que disse horas antes.
Desde que acoite os interesses a que serve, o resto que se dane.
No “Roda Viva”, ele esclareceu que quando a
inflação ficar na meta, os juros vão baixar. Tentava passar, outra vez, que
somente o “centro” da meta (4,5%) é que importa, mas, então, por que mencionou o
“intervalo de tolerância” (a banda de 2,5 a 6,5%), como referencial para a taxa
de juros?
A falta de coerência de toda essa algaravia,
significa apenas que não é a inflação o problema deles, até porque os preços que
estão aumentando não são determinados pela economia brasileira, mas pela
especulação externa. Não é para combater um aumento de preços nas mercadorias
negociadas na Bolsa de Chicago que os juros são aumentados. O que vêm como um
mal em si é o crescimento. O que, aliás, foi escancarado pelos corifeus da banca
desde a divulgação do crescimento de 5,8% no primeiro trimestre.
CRESCIMENTO
Quanto a isso, a ata da última reunião do Copom
é uma coleção de ataques ao crescimento, ainda que daquela forma muito própria a
certos vigaristas. Nela, pode-se ler: “o ritmo de expansão da demanda
doméstica (....) continua colocando riscos importantes para a dinâmica
inflacionária”.
O problema, portanto, é a “expansão da demanda
doméstica”. O Copom omite que há também uma expansão da oferta doméstica e que
não há sinal de esgotamento da capacidade ociosa da indústria. Mas o sintomático
é que a palavra “inflação” foi substituída por algo chamado “riscos para a
dinâmica inflacionária”. A inflação não saiu da meta que eles mesmos definiram,
mas não estão combatendo a inflação, e sim “riscos para a dinâmica
inflacionária”, expressão que parece ter sido cunhada pelo grande economista
Rolando Lero, pois, o que significa “riscos para a dinâmica inflacionária”,
senão que não há uma “dinâmica inflacionária”?
Mas, quem é o culpado por esses espectrais
“riscos”? O crescimento – ou, na expressão castrada do BC, a “expansão da
demanda”. Aqui, eis outra jóia encontrada da ata do Copom: “existe o risco de
que os agentes econômicos passem a atribuir maior probabilidade a que elevações
da inflação sejam persistentes”.
A palavra “inflação” aparece apenas para se
dizer que o problema é o “risco” (sempre o “risco”) dos “agentes econômicos”
acreditarem na “probabilidade” da sua futura existência. Tenta-se passar que a
inflação é um risco real, mas, quando traduzida para língua de gente, a frase
quer dizer apenas que essa inflação é uma probabilidade religiosa, uma questão
de fé (e, mesmo assim, fé numa “probabilidade”). Se você, leitor, achou que a
linguagem usada pelo Copom tem o propósito de tapeá-lo, acertou.
Fora isso, a ata do Copom garante que, se
depender de Meirelles & cia., os juros vão continuar aumentando: “a atual
postura de política monetária, a ser mantida enquanto for necessário, irá
assegurar a convergência da inflação para a trajetória das metas”.
O fato de não existir divergência entre a
inflação e a meta que eles próprios estabeleceram, não tem a menor importância.
Porque o que eles querem combater não é a inflação.
CARLOS LOPES |