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O
caráter do riograndense
A configuração da nossa terra é o
perfeito espelho do caráter gaúcho. Foi ela que determinou, que plasmou e
afeiçoou a “gens” riograndense. Ao revés dos paredões graníticos da Serra e do
Mar, das longas cortinas florestais e das praias que, das costas catarinenses
até a foz do Amazonas, se recortam em baías, angras e ancoradouros fáceis, o
nosso torrão não deslumbra, pela imponência dos relevos. Alongando-se o nosso
litoral em vasta faixa luminosa de planície rasa, mal vislumbrada por entre a
oscilação das vagas, conservou-se, durante muito tempo, quase inabordável pelo
lado do Oceano. Só recentemente grandes e custosas obras de engenharia nos deram
um porto, no extremo sul do território.
A nossa civilização não se fez do
litoral para o interior como no resto do país. Insulado entre a serra e o mar, o
gaúcho formou-se, antes, no interior, nas lides da vida rural, nas lutas para a
conquista e conservação do território. Apartado, assim, do mar, limitado, na
divisa norte, por serranias e, nas ocidentais e sulinas, por grandes caudais,
campinas e lagoas, teve ele, ainda, para concentrar-se, para volver-se sobre si
mesmo, outro fator de ordem psicológica de suma importância: a fronteira
espanhola. Foi essa vizinhança permanente que, desde o século XVIII, fixou ao
solo, com todas as suas idiossincrasias, a raça gerada nos rincões do Sul. Nosso
particularismo social proveio, justamente, da missão política, da missão de
vigilância que, numa era remota, hoje, felizmente, desaparecida, os governos da
Metrópole, do Reino e do Império atribuíram aos nossos maiores.
Raça de soldados e cavaleiros,
acostumaram-se os gaúchos a olhar o perigo rosto a rosto. Não chegavam aqui
senão amortecidos os raios brilhantes da corte de São Cristóvão. A inexistência
de riquezas auríferas, de jazidas preciosas, de pedrarias de fino quilate, não
permitiu que se levantassem nestes confins cidades opulentas, núcleos de
requintada sociabilidade. O salão do gaúcho é a planura extensa; a sua prenda
mais rara é o laço; as suas vestes mais luzidas são o poncho de cores flamantes,
as botas de couro cozido, o chapeirão de barbicacho; a sua sege é o cavalo; a
sua companheira inseparável é a impetuosa coragem.
Enquanto, nas salas douradas de
Ouro Preto, da Bahia, do Rio de Janeiro e de São Paulo, nascia, para a honra da
nossa cultura, uma delicada aristocracia de parlamentares e pensadores, de
juristas e poetas, surgia, entre nós, o tipo de gentilhomem da campanha, do
senhor rural violento mas franco, desprovido de qualquer preconceito de casta,
amigo dos seus servidores mais modestos, repartindo com eles todas as
vicissitudes dos trabalhos da guerra e da paz.
Ao contrário do minerador,
auxiliado por enorme escravaria, o estancieiro labuta com os peões, corre com
eles nos rodeios, carneia a rês, nos churrascos, em sua companhia e, na peleja,
morre ao seu lado, brandindo a mesma lança indômita. Sua vida, como a do gaúcho
mais humilde, está sujeita a um ritmo paralelo: o entrevero, as longas marchas
dos combates, os misteres, penosos mas salutares, do pastoreio e da agricultura.
Nessas alternativas de inquietude e tranqüilidade, flui a sua existência.
A raiz do particularismo gaúcho
encontra-se no amor da liberdade. Nenhuma noção está mais presente, mais viva,
no seu inconsciente.
Para que a Pátria fosse sempre
livre, o gaúcho escravizou-se ao torrão natal, plantou-se nele, como os umbus
solitários, afim de ser o ponto de referência, a primeira atalaia para atrair o
raio das procelas. Nunca recusamos esse posto, nunca o regateamos e nunca
permitiremos que ninguém o ocupe. A marca do sangue riograndense é o seu índice
de posse incontestável.
Foi o amor da liberdade que
suscitou as legiões farroupilhas. Foi para sustentar essa liberdade, cuja
supressão quebraria os elos da unidade nacional, que o Rio Grande chamou a
rebate o Brasil inteiro, em 1930. Guarda fiel dessa unidade, que é o testemunho
maior da nossa grandeza, o gaúcho não poderia refugir aos seus compromissos, nem
procrastiná-los, sem faltar ao primacial dever que sempre lhe dirigiu as ações.
Quiseram os fados que fosse um
gaúcho o condutor da Revolução. Daqui saiu ele, vestido de simples soldado, para
a refrega. Num movimento comovedor e generoso, deram-lhe a chefia da Revolução.
Nortistas, nordestinos, praieiros, montanheses, todos cerraram fileiras em torno
da bandeira que, então, se desfraldou. Durante mais de três anos, o chefe
revolucionário governou ditatorialmente. Hoje, apresenta-se diante de vós,
eleito, livremente, pela maioria do povo, Presidente da República.
Não me cumpre dizer-vos os óbices
que se avolumaram no seu caminho, as dificuldades que lhe foram criadas desde o
início. Vós os conheceis de sobejo. Cabe-me, neste momento, que não é de
retaliações nem de revides, mostrar-vos, em linhas gerais, a obra da Revolução,
de que sois e tendes sabido ser fiadores, nenhuma justificação prova mais que os
atos. É com eles e não com palavras que a História se faz. No sumário dos
quadros que, adiante, vos exporei com a maior isenção, tereis compendiada a obra
política, administrativa, econômica e financeira da Revolução.
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