Propina da Alstom: ex-genro de FH alega que não sabia e tucanos abafam
apuração
O
ex-secretário de Energia de São Paulo e ex-genro de Fernando Henrique
Cardoso, David Zylbersztajn, foi tomado de uma repentina amnésia na CPI da
Eletropaulo da Assembléia Legislativa, terça-feira, ao ser questionado sobre
os contratos apontados como irregulares feitos entre a Alstom e a então
estatal de energia, subordinada à sua secretaria. Ele disse que não se
lembrava desses contratos e que apenas soube do caso Alstom pelos jornais.
Não respondeu mais nada porque os deputados do
PSDB, que são maioria na Comissão, barraram qualquer pergunta sobre o
assunto alegando que o objetivo da comissão é apenas o processo de
privatização da empresa e não os contratos suspeitos assinados pela então
estatal com a multinacional.
O presidente da CPI, Antônio Mentor (PT), também
tentou aprofundar o interrogatório e aprovar os requerimentos para ampliar
as investigações, mas foi em vão. “A CPI não cumpriu sua obrigação
constitucional que é de investigar. Lamentavelmente, a base do governo ou
derruba pelo quórum, como aconteceu na semana passada, ou vota
contrariamente a todos os requerimentos, alegando falta de tempo”, afirmou.
Na sessão da segunda-feira, seis requerimentos
apresentados pelo deputado Ênio Tato (PT) foram rejeitados pela maioria
tucana, sendo que três deles tratava da convocação de pessoas ligadas ao
escândalo das propinas pagas pela Alstom a tucanos paulistas.
Zylbersztajn foi secretário de Energia no
governo Covas, e presidente do conselho de administração da Eletropaulo, na
época em que ocorreram as propinas. Na impossibilidade de criar uma CPI
exclusiva sobre a Alstom, por causa da operação abafa dos tucanos, a
oposição tentou apurar o escândalo através da CPI da Eletropaulo inquirindo
Zylbersztajn sobre a corrupção da Alastom.
Denúncias de autoridades suíças revelam que a
Alstom pagou comissão de 15% para obter contratos com Eletropaulo. O
Ministério Público da Suíça denunciou que foi assinado contrato entre a
Alstom e a offshore MCA Uruguay Ltda. Com sede nas Ilhas Virgens Britânicas,
a MCA era administrada pelo brasileiro Romeu Pinto Júnior, lobista tucano
muito amigo do falecido Sérgio Motta, ex-ministro de FHC. A MCA recebeu o
equivalente a 18,9 milhões de francos franceses ou R$ 7,3 milhões referentes
às propinas dos contratos com a Eletropaulo. A quantia foi depositada
diretamente pela Alstom em contas da MCA na Suíça e em Luxemburgo. A maioria
dos contratos irregulares e o pagamento de propinas se encontram nos
governos de Covas e Geraldo Alckmin, e parte no de Serra.
A Comissão de Desenvolvimento Econômico,
Indústria e Comércio da Câmara dos Deputados cancelou a audiência pública,
marcada para quarta-feira, que iria discutir as irregularidades nos
contratos entre a Alstom e o Metrô de São Paulo. O deputado João Bacelar
(PR-BA) afirmou que vai insistir na instalação de uma CPI para apurar o
caso. “Fica cada vez mais irreversível a possibilidade de uma CPI”, disse.