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General Marco Aurélio Costa
Vieira, ex-comandante da Brigada de Operações Especiais do Exército:
Defesa da nossa soberania se dá com forte presença do Estado na Amazônia
Publicamos
hoje os principais trechos de “A defesa de nossa soberania”, palestra do general
Marco Aurélio Costa Vieira, então comandante da Brigada de Operações Especiais e
atualmente chefe de gabinete do Estado Maior do Exército Brasileiro, proferida
na Assembléia de Deus de Campinas, Goiânia, a convite do diácono João Carlos
Barreto. A palestra foi realizada em maio de 2005. No entanto, as questões
abordadas por ela são ainda mais candentes nos dias de hoje do que há três anos.
Por essa razão, a oferecemos para apreciação dos nossos leitores
Euclides da Cunha já dizia: “A
imensidão da Amazônia é tão majestosa que de súbita inteligência humana não lhe
suporta o peso”. 56% do território nacional, cerca de 5 milhões e 100 mil km².
Aí dentro nós temos 15 países da Europa. Apenas a Ilha de Marajó é maior que a
Bélgica. Nove soberanias compõem a Amazônia, o Brasil e os vizinhos, 7 milhões
de km² a Amazônia completa. São 5 milhões e 100 mil km² no Brasil, 1/20 da
superfície terrestre, dois quintos da América do Sul, 1/5 da água doce do mundo,
1/3 das florestas tropicais do mundo - mais de 1/3 -, 3 fusos horários,
distribuindo-se em dois hemisférios, com o maior banco genético do planeta.
A vegetação é fundamentalmente de
floresta equatorial úmida, seu maior ecossistema. Entretanto, temos campos como
se fosse o pampa gaúcho, em Roraima e Rondônia, principalmente. O clima é
quente, e a temperatura varia entre 27ºC e 35ºC, com forte umidade. Temos ouro,
estanho, nióbio - 92% do nióbio do mundo se encontra aqui na região de Seis
Lagos, ou seja, todo o nióbio do mundo é brasileiro.
Uma observação do famoso barão Von
Bismarck, “Recursos naturais nas mãos de nações que não querem ou não podem
explorar deixam de se constituir em bens e passam a ser ameaças aos povos que os
possuem”, é uma advertência.
Temos cinco milhões e 100 mil
quilômetros quadrados e 12% da representação da população, cerca de apenas 2 mil
dólares de renda per capita, enquanto no Sul do País a média é quase cinco mil
dólares e 40 habitantes por km².
É necessário lembrar que depois do
término da Guerra Fria - onde havia uma bipolaridade entre os países chamados
aliados da OTAN e os países do pacto de Varsóvia -, com o fim da bipolaridade
instituiu-se uma chamada globalização. Esta globalização desviou o eixo de
confrontação estratégico que era basicamente Leste-Oeste e passou a acontecer
uma confrontação Norte-Sul, fundamentalmente pobres versus ricos, primeiro x
terceiros mundos.
ONGs
Essa confrontação trouxe uma
tendência: primeiro o enfraquecimento do chamado Estado-Nação. Então, não
interessa mais aos países do primeiro mundo uma nação forte. Quanto mais as
fronteiras estiverem dissolvidas, mais fácil entram e saem a moeda, o dinheiro e
o poder. Portanto, a noção de soberania foi deteriorada. Passou-se a ouvir
muito falar em curdos, yanomamis, e aparecem as ONGs (Organizações
Não-Governamentais) que são atores bastante eficientes nessa nova estratégia.
Além disso, a nova ordem mundial
determina que a soberania deve ser limitada e assim é na Europa de hoje, em que
a defesa não é mais de um país. A defesa deve ser compartilhada. Se atacarmos um
país da Europa todos os outros defenderão a Europa, e assim é com os signatários
da OTAN.
A tendência da nossa década é:
intervenções armadas, persistem as possibilidades de guerras, com ou sem o
patrocínio da ONU, notadamente a serviço dos interesses das grandes potências, e
não se cumpre resolução da ONU a não ser que interesse para o próprio país. Para
se ter uma idéia, Israel tem 33, 34 resoluções da ONU nas costas e não cumpre
nenhuma. Por que Israel não cumpre e os Estados Unidos não fazem nada? Agora,
imaginemos, por exemplo, se a Coréia não cumprir, ou o Irã não cumprir uma
resolução da ONU.
Desta nova globalização, temos a
chamada unipolaridade, ou seja, o único país xerife do mundo é os Estados
Unidos, e existe uma tendência para uma tripolaridade, difícil de acontecer
porque a Europa carrega às costas a África e a Ásia ainda está muito dividida -
mas a princípio é um futuro que se pode vislumbrar, ou seja, três grandes pólos
de poder no mundo.
Entretanto, o espaço vital
americano vai ser sempre esse aqui. O americano raciocina com a América, com
todo o espaço vital da América, e como é que se desenvolve esse espaço
geopoliticamente. Vamos raciocinar macro, pensando enorme: o espaço
geoestratégico do Atlântico Sul é a África e, praticamente, o Brasil. No
Atlântico Sul, a não ser a Argentina, é do Brasil praticamente toda a costa face
à África. Neste espaço marítimo temos todas as ilhas, e daí são plataformas para
qualquer tipo de invasão, ataque, qualquer tipo de ameaça militar. Temos aqui
pistas de pouso, pistas, por exemplo, aqui no Suriname, de cinco mil metros, na
Guiana, de três mil metros. Eu visitei essas pistas, estão no meio da floresta,
quem as construiu foram os americanos - ofereceu-se gratuitamente ao país e o
país aceitou, uma pista de três mil metros, por exemplo, aqui em Porto
Esperança. Para que serve uma pista de três mil metros no meio da selva? Para
uso da Varig, é que não é.
A isso chama-se aprestamento
estratégico. Ali descem aviões militares, e uma pista de dois, três mil metros,
é capaz de receber uma, duas brigadas rapidamente, então. Por isso, os
americanos dizem hoje que podem atuar em qualquer parte do mundo em menos de 24
horas, porque eles têm uma divisão leve, situada no Sul dos Estados Unidos.
Profissionalmente, eu digo, qual é
a principal ameaça à nossa Amazônia? Principalmente a ausência do Estado. Lá, é
pequena ou nenhuma a presença do Estado. Assim como a possibilidade de que as
ONGs atuem livremente no nosso território é o que se chama de satanização do
Brasil. O Brasil está errado sempre. Errado porque não consegue controlar o
contrabando, os incêndios, porque não consegue desenvolver sustentavelmente a
região, ou seja, não há como não satanizar o país que não cuida dessa riqueza
enorme que é a Amazônia. A satanização promove um ambiente propício à
intervenção futura.
A intervenção pode ser direta ou
indireta. Eu diria que a indireta já acontece, principalmente por alegações
ambientais, indígenas, ilícitas, ou por causa do terrorismo. Será que estou
forçando a situação, ou a ameaça da cobiça sobre a Amazônia é verdadeira? Será
retórica ou realidade? Busquemos um pouco o passado: em 1750, com o tratado de
Madri, o rio Amazonas já tinha uma internacionalização reivindicada; em 1817, um
capitão chamado Mathew Perry, que era geógrafo, apresentou um documento ao
Congresso dos EUA, relatando que a Amazônia podia receber 600 milhões de
habitantes; em 1862, o general Watson, ministro dos EUA, em nome do governo
americano sugeriu ao imperador Dom Pedro II, mediante memorial, a destinação da
Amazônia aos negros americanos. Em 7 de dezembro de 1866, o Brasil teve que
abrir o Rio Amazonas à navegação internacional porque precisava da navegação
internacional no Rio da Prata durante a guerra do Paraguai. Em 1948, agora já
estamos na ONU, a Amazônia foi cogitada para abrigar o país palestino: eles
acabaram com a Palestina e queriam botar os palestinos aqui. O presidente Dutra
também recebeu proposta dos americanos para que se inserisse na Amazônia o
excedente populacional de Porto Rico. Eles querem porque querem colocar uma
população aqui que não é daqui. Aí apareceu o famoso plano Hudson para a
construção de um imenso lago artificial que submergiria cerca de 1/3 da Amazônia
Ocidental até o chamado Projeto Jari, em 1971. A senhora Margareth Thatcher, já
agora em 1983, quando era primeira-ministra da Inglaterra, declarou: “Se os
países subdesenvolvidos não conseguem pagar as suas dívidas externas, que vendam
suas riquezas, seus territórios e suas fábricas”. O senhor Al Gore, então
vice-presidente americano, disse o seguinte: “Ao contrário do que os brasileiros
pensam, a Amazônia não é deles, mas de todos nós”. O senhor Valery,
primeiro-ministro da França, em 1989, disse: “O Brasil precisa aceitar uma
soberania relativa”. E o senhor John Major também primeiro-ministro da
Inglaterra (estamos em 1992), disse: “As nações desenvolvidas devem estender o
domínio da lei ao que é comum de todos no mundo”. O Japão, agora em 2005,
apresenta um plano de redistribuição mundial no qual a Amazônia deveria receber
os excedentes populacionais do mundo.
Eles estão ensinando isso para as
crianças: podem ficar certos de que os Estados Unidos não deixarão os países da
América Latina explorarem e destruírem esse imenso patrimônio da humanidade.
Está aqui o patrimônio da humanidade, delimitado: isto é um outdoor, um tenente
nosso tirou essa foto em Nova York, na Broadway, na Times Square. O cartaz
eletrônico é uma fotografia do arquipélago das Anavilhanas, no Rio Negro, e está
escrito: “Share” (“compartilhe”). Passam várias fotografias do Rio Amazonas, e o
tempo todo: “compartilhe”, “divida”, “use conosco”, “isso também é nosso”. Na
Broadway, sem voz, sem som, só foto e letreiro. Isto aqui é uma criança yanomami
hasteando a bandeira na área indígena Raposa Serra do Sol, no ano de 2004. Vejam
que não é uma bandeira brasileira, é a bandeira yanomami, com a área da Raposa
do Sol. Os índios yanomami têm um escritório que é um consulado em Paris –
então, eles já têm a língua própria, têm território, já têm a bandeira, já têm
consulado, o que falta para os yanomamis se tornarem um país yanomami?
Vejamos a questão indígena:
devemos integrar ou segregar o índio? Demarcar reservas contínuas ou não? E a
exploração? Quem explora o que está na terra indígena? Eu não vou entrar nesses
aspectos, isso é papo para muita conversa. Mas, existem várias justificativas
antropológicas. Cito as razões humanitárias: temos populações indígenas morrendo
de fome, morrendo à míngua, e sem remédios. Será que é interessante deixar essa
população brasileira sem a atenção humanitária por razões práticas? É
praticamente impossível impedir que uma população indígena não se aculture. Hoje
temos índios que são considerados não-aculturados, mas que já usam telefone
celular e têm D-20. Como vamos mantê-los sem aculturação? 11% do nosso
território é terra indígena, cerca de 60% em Roraima. Se somarmos todos os
territórios indígenas, vamos ter uma Bélgica, uma Alemanha, um Portugal, uma
Espanha. A maior reserva indígena canadense atribui a cada índio cerca de 12
hectares. A maior reserva indígena americana atribui a cada índio cerca de 18
hectares, que é muita terra. As reservas brasileiras atribuem em média a cada
índio cerca de 450 a 500 hectares.
Quanto às organizações não
governamentais, nós podemos dizer o seguinte: são cerca de cinco mil e
seiscentas, atuando nelas 10 mil estrangeiros, sempre com caráter
pressupostamente humanitário. Entram na lacuna deixada pelo Estado. Se não tenho
comida, roupas, educação, não posso tratar mal uma organização
não-governamental.
Um elemento entra aqui do Peru a
pé, com GPS, que é um aparelhinho que dá as coordenadas, até achar uma árvore de
mogno. Achou, ele pinta de amarelo, registra num caderno, depois volta para o
Peru. Em lá chegando, entrega para um sujeito, vende a listinha dele, ganha uma
grana, e aí um cara entra com um tratorzinho e vai direto ao mogno, corta,
grampeia, arrasta e leva para o Peru. Hoje estamos sendo roubados em mogno em
toda aquela extensão de fronteira do Acre.
O comando militar da Amazônia
engloba o Amapá, Pará, Amazonas, Roraima e Acre. Aí está hoje o que chamamos de
ordem de batalha. Hoje nós temos mais de 23 mil homens, vamos chegar a 25 mil
até 2006. Nós tínhamos em 1950 apenas mil homens. As únicas estradas existentes
na Amazônia são construídas pelo exército, pelos batalhões de engenharia. As
únicas!
RESISTÊNCIA
Nós temos que ter presença, ou
ofensiva, ou, se nós encontrarmos alguém muito superior, uma resistência. Temos
ameaças com poder muito superior. Nesse caso, nós desenvolvemos o que se chama
resistência, quem tiver dúvida do que é resistência lembre-se que o Iraque está
fazendo uma resistência padrão. A guarda de Sadam Hussein tinha 30 mil homens
que se prepararam para a resistência durante quase 3 anos. Os americanos
pegaram, da guarda de Sadam, quase 1.000 homens. Então, 29 mil estão lá fazendo
a resistência - e a lei da resistência é: todo dia, matar um, nem um dia sem que
se mate um. Eles estão cumprindo à risca, basta um, mas tem que matar um todo
dia, e estão matando. Isso é resistência. Os americanos perderam a guerra do
Vietnã assim. Isso promove o que se chama de dissuasão, ou seja, é muito
arriscado para qualquer inimigo, ele tem respeito por quem está lá, qualquer
ameaça custa muito caro, então ele é dissuadido. Resistência de longo prazo, e
para terminar vamos falar rapidamente sobre a Brigada de Operações Especiais,
que é o mais novo grande comando operacional do exército.
Por que nós escolhemos Goiânia
para sediar a Brigada? Primeiro, porque é uma capital central em relação ao
País. Se fixarmos uma ponta seca do compasso e girarmos mil quilômetros, temos
cerca de 63% da população brasileira englobada neste círculo. Se aumentarmos o
raio para 1.500 km, nós passamos para 92% da população. Goiânia é uma cidade
estratégica, está perto de Brasília, permite a chamada concentração estratégica,
temos dois aeroportos – Anápolis e Santa Genoveva – e ainda temos outros
aeroportos menores, que podem auxiliar no desdobramento de tropas. Nós temos uma
terceira companhia de forças especiais em Manaus, o centro de instrução e
operações especiais no RJ e a brigada como um todo se encontra em Goiânia.
O que são Tropas de Operações
Especiais? São aquelas que estão prontas para cumprir uma grande variedade de
missões, em qualquer parte do País. Conclusão: é preciso uma estratégia de
defesa para a Amazônia, que ações governamentais promovam a integração ao
restante do País, conferir a Amazônia status distinto do restante do País, e
incisiva oposição diplomática a qualquer intenção internaci-onalista. Por
último, e não menos importante, manter força militar com aquele poder de
dissuasão - porque, sim, a Amazônia desperta cobiça internacional. A
globalização alterou as relações internacionais, o que torna mais fácil
vislumbrar a Amazônia como internacional, pois inúmeras ONGs atuam
descontroladamente, praticando atitudes contrárias aos interesses nacionais da
Amazônia. |