ARIOVALDO IZAC*
Lapidar garotos no futebol é uma
questão vocacional. E o técnico Adaílton Ladeira tem feito esse trabalho há
mais de 30 anos, com histórico quantitativo de atletas revelados. Os mais
relevantes foram os atacantes Careca, João Paulo e Renato, e o zagueiro
Júlio César, no Guarani; já no Corinthians descobriu o lateral-esquerdo
Kléber, meio-campista Edu e atacante Gil, entre outros.
Pode-se dizer que Ladeira nasceu para
treinar garotos de categorias de base. Nas poucas vezes que comandou equipes
profissionais, como o XV de Jaú – interior de São Paulo – os resultados não
passaram de mediano. Na época, simplesmente se nivelou a dezenas de
treinadores que não conseguem sair do anonimato no futebol.
Esse Ladeira com hábito de falar alto
tem todo jeito de comandante com ascendência sobre o grupo, conhece o
"riscado" e tinha tudo para dar certo em time profissional, mas não deu. O
acaso do futebol reservou-lhe unicamente a missão de trabalhar com juniores.
Atualmente está vinculado ao Corinthians.
Saibam, entretanto, que Ladeira foi um
ponta-de-lança de qualidade técnica indiscutível até a década de 70. Na
época, um dos requisitos para vestir a camisa 8 era habilidade e boa visão
para colocar o centroavante na "cara"do gol. No seu tempo, os clubes optavam
por dois atacantes enfiados, abastecidos por lançamentos de meia de armação
e cruzamentos de ponteiros, quer pela direita, quer pela esquerda.
Paradoxalmente essa função está
praticamente extinta no futebol brasileiro, salvo raras exceções. Uma delas
foi Edmundo, e nos bons tempos de Palmeiras, patrocinado pela Parmalat.
Ladeira protegia bem a bola e era atrevido para tentar jogadas. Quando
"limpava" o lance, na maioria das vezes preferia acionar o centroavante para
complemento de jogada a arriscar finalizações. Trocado em miúdos, não era
fominha. Evidente que tinha discernimento para arrematar de média distância
quando o centroavante estava bem marcado.
Naquele tempo, os pontas-de-lança não
tinham hábito de buscar a bola. Posicionavam-se perto do centroavante e
também eram cabeceadores. E Ladeira, apesar da estatura mediana, tinha bom
aproveitamento pelo alto, principalmente antecipando-se ao zagueiro.
Pena que ficou escondido no América de
Rio Preto (SP) no início da década de 60, num time que tinha como destaques
o zagueiro Nelson Coruja (ex-Palmeiras), lateral-esquerdo Ambrósio e o
ponteiro-direito J. Alves. Ele teve passagem discreta pelo São Paulo e
explodiu no Bangu, do Rio de Janeiro, no inesquecível time campeão carioca
de 1966, formado por Ubirajara; Fidélis, Mário Tito, Luís Alberto e Ari
Clemente; Jaime e Cabralzinho; Paulo Borges, Ladeira, Ocimar e Aladim,
comandado pelo técnico Alfredo Gonzales.
Naquela final com o Flamengo, o Bangu
goleou por 3 a 0, o adversário apelou, e o jogo não chegou ao final. Na "brigaida"
dos boleiros, Ladeira levou a pior. Levou uma rasteira de Almir
Pernambu-quinho e, no chão, o malvado flamenguista ainda deixou as travas da
chuteira em suas costas, resultando em fratura de três costelas.
Um dia depois da partida, com Ladeira
convalescendo em hospital do Rio de Janeiro, eis que Almir aparece no
horário de visita e, arrependido, pede desculpas. Almir foi tão sincero que
chorou. Depois disso, ambos se tornaram amigos.
*É jornalista em Campinas e colaborador
do HP