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Algumas reflexões sobre os idiotas e a morte da música
O capitalismo, ao avançar sobre a
arte e tentar transformá-la em mercadoria, tenta assassiná-la. Como expressão da
consciência humana, a arte é libertadora; como produto de um processo fetichizado, a mercadoria é alienante. A “industrialização” proposta pelos
oligopólios do entretenimento é, na verdade, a antítese da arte
VALÉRIO BEMFICA
A morte da arte tornou-se, no
século XX, tema de muitos pensadores. Os mais bem intencionados, porém
pessimistas, premidos pelo crescimento da indústria cultural, não acreditavam
que a humanidade pudesse continuar criando objetos dignos de reflexão estética:
eles seriam gradualmente substituídos por produtos industrializados, capazes
apenas de expressar sentimentos “prêt-à-porter”, descartáveis, pasteurizados.
Anunciavam a morte da arte, mas como lamentação. Nunca fomos adeptos de tais
posições, mas reconhecemos que elas expressam uma tensão real. O capitalismo, ao
avançar sobre a arte e tentar transformá-la em mercadoria, tenta assassiná-la.
Como expressão da consciência humana, a arte é libertadora; como produto de um
processo fetichizado, a mercadoria é alienante. A “industrialização” proposta
pelos oligopólios do entretenimento é, na verdade, a antítese da arte.
Mas as premissas das quais
partimos são diferentes. Ainda que conscientes do poderio deletério das grandes
corporações na área da cultura, sempre consideramos que um dia elas serão
derrotadas. A não ser que a barbárie destrua a humanidade, o que consideramos
pouco provável, a arte continuará existindo, com seus condicionamentos
históricos. E a sociedade do futuro, sem classes nem exploração, será uma
sociedade de artistas. Mas tampouco consideramos tais pensadores como inimigos:
estão equivocados em sua visão catastrofista, mas gostariam que a arte
continuasse viva. O conforto de suas cátedras talvez tenha embaçado a visão
deles sobre a realidade e dificultado a decisão de trabalhar pela derrocada do
sistema imperialista, ao invés de apenas observá-lo com horror.
Mas não foram apenas os filósofos
que anunciaram o falecimento da arte. Alguns artistas também o fizeram. Em geral
aqueles que estavam dentro do campo da indústria cultural, seja no centro ou em
sua periferia. A estes nós chamamos de idiotas. Mas vale uma ressalva:
empregamos o termo aqui não no sentido atual, mas no arcaico. Reza a lenda que
os antigos gregos, antes das reuniões na ágora onde os grandes temas de
interesse coletivo seriam discutidos, cercavam a área da praça com cordas
banhadas em betume. A medida visava marcar as túnicas daqueles que fugissem
durante as reuniões e trocassem o dever de homens públicos por seus assuntos
privados. Os que andassem com as roupas marcadas pelas ruas da antiga Atenas
eram chamados de “idiotes”. Ou seja, aqueles que não se importavam em nada com o
coletivo, mas apenas consigo mesmos.
Em geral é assim que se comportam
tais “artistas”: anunciam a morte da arte não por alguma convicção ideológica,
mas em benefício próprio e da indústria cultural. No campo das artes plásticas é
fácil verificar este processo, principalmente entre as vanguardas
norte-americanas e européias do século XX, em especial no pós-guerra. Esgrimiam
discursos libertários, praguejavam contra as academias e as regras e garantiam
que qualquer coisa (de latas de sopa a urinóis) tinha virado arte e, portanto, a
arte mesma não existia mais. O que determinava o valor estético de um objeto
deixava de ser aquilo que é expresso pela sua forma e conteúdo. Na prática, o
valor estético passou a corresponder ao valor de mercado. Sendo assim, o
“artista” não precisa mais esforçar-se para produzir algo importante para a
humanidade, mas sim algo que agrade ao mercado (e renda um dinheirinho). E,
neste sentido, ajudaram o mercado em seu intento de matar a arte, substituindo
obras por mercadorias.
Mas não são as artes plásticas a
motivação central da nossa reflexão. Elas surgem a partir de algumas matérias
publicadas recentemente em um suplemento dito ilustrado de um jornalão paulista,
especializado em mostrar o que há de mais podre e carcomido como sendo o último
grito da moda. A primeira delas traz notícias da Suécia, onde alguns selos
musicais independentes estão supostamente “importunando as grandes gravadoras”.
Nada temos contra o país nórdico, que já deu ao mundo Greta Garbo, Anita Ekberg
e a família Bergman. Mas, no campo da música, só conseguimos lembrar do
breguíssimo conjunto ABBA. O que será que os tais selos fizeram para, agindo em
um país menor e menos populoso - e com muito menos importância musical - do que
a Bahia incomodar tanto as poderosas majors? Segundo o jornal, descobriram que
“a indústria da música morreu” e resolveram dar os CD’s de suas bandas como
brinde para quem compra uma camiseta ou um ingresso para um show ou uma festa.
MERCADORIA
De imediato lembramos do filósofo
iluminista alemão G. E. Lessing. Certa ocasião teve de responder a alguns
críticos que não entendiam o porquê de os escultores que fizeram o grupo
escultórico do Laocoonte terem retratado o sacerdote nu, e não vestido, como
descrevera Virgílio na Eneida. Responde Lessing: “Um tecido, obra de mãos
escravas, tem a mesma beleza que um corpo organizado, obra da eterna sabedoria”?
Podemos parafraseá-lo e perguntar: um pedaço de tecido com uma estampa qualquer,
produzido em série por uma máquina, vale a mesma coisa do que uma obra de arte,
obra da mais elevada consciência humana? No entendimento das bandas de garagem
suecas, vale mais, pois vendem a camiseta e dão a música de graça! É grande a
tentação de afirmar que a música deve ser tão ruim que ninguém se dispõe a pagar
por ela. Pode até ser, mas os supostos artistas logo revelam que a sua posição
não é muito diferente dos vanguardistas aos quais nos referíamos antes:
“precisamos fazer alguma coisa para conseguir dinheiro de algum lugar, para
pagar nossos aluguéis.”, afirmam eles. Ou seja, por trinta dinheiros, vale
qualquer coisa, seja vender camisetas, seja vender CD’s: são só produtos,
mercadorias, que pagam as contas e, eventualmente, rendem “quinze minutos de
fama”.
NEGÓCIO
Se o jornalão só falasse da
experiência sueca acreditaríamos que era apenas mais uma das inúmeras bobagens
vendidas como novidade em suas páginas. Mas eis que, no dia seguinte, no mesmo
jornal, surge outra idéia “brilhante”, desta vez de uma gravadora brasileira que
se assume como independente: o download patrocinado. O genial mecanismo também
prevê música grátis, em troca da exposição a um patrocinador. O que vale é o
marketing, a obra de arte, mais uma vez, é brinde. Nem uma palavra sobre os
reais motivos que levaram o mercado brasileiro do disco cair da 6ª para a 13ª
posição mundial, a encolher 75% em dez anos. Apenas a cômoda conclusão de que
não é possível mais ganhar dinheiro vendendo discos e que precisamos vender
outra coisa...
Para os desavisados pode parecer
que estes gênios do capitalismo da nova geração, propondo “novos modelos de
negócio”, estejam bombardeando a indústria cultural. Mas é justamente o
contrário. No mundo ideal dos oligopólios do entretenimento, já dissemos, não há
arte, apenas mercadorias. No que depender deles a música, o cinema, a pintura, a
escultura, enfim, toda e qualquer obra de arte será transformada em “commoditie”,
ou seja, em produto estandartizado com preço definido em bolsa de valores. Nada
mais de autores, estilos, originalidade. Apenas bit’s, bites, títulos,
conteúdos. Você compra um celular e já ganha 10 MB de música! Assine tal
provedor de internet e ganhe 5 “gigas” de filmes. Qualquer bugiganga de camelô
tendo como brinde música e imagem... Longe de combater as majors, estes
arremedos de capitalistas agem como a sua vanguarda. Criam o caldo de cultura
para o assassínio da arte que os monopólios pretendem cometer. São, neste caso,
perfeitos idiotas (no sentido acima): tentam garantir migalhas em detrimento dos
interesses mais elevados, não apenas de seus pares, mas de todos os seres
humanos.
Mas a humanidade já passou por
períodos até mais complicados do que o atual, e a arte sobreviveu. Não seria
agora, em um período em que o capitalismo caminha celeremente para a decadência,
que ela iria perecer. O fato de a indústria cultural lutar com tanto afinco para
acabar com ela é só um sintoma de sua degenerescência, na qual, certamente,
arrastará junto os mercadores instalados em sua periferia. O futuro pertence à
arte, não à barbárie. |