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Resistência
boliviana enterra o “estatuto” dos separatistas
MARCOS DOMICH*
O desespero
sempre é mau conselheiro e isso está ocorrendo à direita. A questão é que
ela está perdendo importantes batalhas em sua sofreguidão de impor seus
pontos de vista e conseguir seus nefastos propósitos conspirativos e
separatistas do jeito que der.
O dia depois do
4 de maio - dia do referendo separatista - deve se constatar que para a
oligarquia, e para o imperialismo que está por trás dela, é um dia perdido.
O “estatuto”, mal chamado autonômico, não funcionará no âmbito nacional nem
terá reconhecimento internacional. Em primeiro lugar, não poderá ser
aplicado no país porque foi convocado de tal maneira que carece de qualquer
legalidade. O Parlamento que devia emitir uma lei de convocatória não o fez;
a Corte Nacional Eleitoral também não o aprovou; as Forças Armadas e a
Polícia Nacional não irão avalizar os comícios com a sua presença, apesar de
que Rubén Costas [governador de Santa Cruz] vocifere ordens de mobilização.
O chamado estatuto não tem seguido nenhum procedimento democrático na sua
elaboração. Como têm advertido os homens e mulheres simples do autêntico
povo camba [não indígena], não o conhecem nem pela aparência e se o conhecem
percebem, de imediato, que não reflete seus interesses. Pelo contrário,
ressalta que está dirigido a preservar os interesses da burguesia, dos
latifundiários e das transnacionais, em suma, os interesses dos ricos. Esse
último é, na realidade, a razão de fundo pela qual os “barões do oriente”
armaram essa comédia autonomista, ponta de lança do projeto separatista
denunciado oportunamente pelo nosso Partido.
A razão pela
qual o “estatuto” autonômico é uma espécie de aborto jurídico é que está em
franca contradição com a Constituição Política do Estado vigente. Um
avacalhação dessa natureza é inaplicável. Será uma ficção sem nenhuma
possibilidade de levar à prática seus “postulados”. E mais, algumas ofertas
como a de aumentar os salários até um mínimo de 1.500 bolivianos**, de
distribuir a terra “equitativamente”, ficarão desmascaradas de imediato como
pura demagogia social, o que é característico do fascismo. O fascismo não só
utiliza a força bruta para impor suas idéias, mas simultaneamente faz
promessas de todo tipo, que jamais cumpre.
No plano
internacional, a oligarquia não conseguirá absolutamente nenhum
reconhecimento. Nem a embaixada ianque se atreve a manifestar sua aprovação
ao “referendo”, apesar de sua franca simpatia pela direita e pela reação
separatista. É que o Sr. Goldberg, especialista em desarmar países, entende
que desta vez não está em Kosovo; que a Bolívia não é a Iugoslávia, que
conseguirão isolar e golpear criminosamente com a complacência da Europa
ocidental e a neutralidade de muita gente confundida pelo bombardeio
midiático.
A OEA, a União
Européia, a CAN, as Nações Unidas e quantos organismos internacionais houver
no mundo, se negaram a enviar observadores. Esses senhores, por mais
conservadores que sejam, têm que manter algumas aparências, algum respeito
pelos mecanismos internacionais. Mas isso não é o principal. O principal
está no respeito ao governo legalmente constituído da Bolívia que tem sido
manifestado por todos e por cada um dos países limítrofes. Não podem ir com
histórias ao Brasil, à Argentina e agora também não ao Paraguai, onde acaba
de haver o ressonante triunfo do sacerdote progressista Fernando Lugo, que
encabeça uma coalizão ampla.
Por último, sem
ser o último, porém o maior, está o expresso pronunciamento dos integrantes
da ALBA, reunidos de emergência em Caracas. Cuba, Venezuela e Nicarágua
brindaram todo seu apoio e solidariedade a Evo Morales e seu governo, e
advertiram que não reconhecerão nenhum engendro do imperialismo e da
oligarquia de Santa Cruz. Essa é a mais clara e rotunda expressão da
solidariedade lista latino-americana.
Em sua pobreza
mental e em meio à gritaria que levantou a direita contra a “ingerência
castro-chavo-comunista”, não entendem que não só é um direito expressar
solidariedade com o irmão ameaçado, como um alto dever de patriotismo
latino-americano. Acaso entendem os senhores “meio-lunáticos” o que é a
verdadeira irmandade latino-americana? Esquecem-se que na guerra da
independência estiveram os exércitos auxiliares do Sul. Esquecem-se de
Bolívar e Sucre. No plano mais universal, se esquecem ou ignoram as Brigadas
Internacionais na Espanha contra a agressão do Eixo nazi-fascista e o
franquismo totalitário.
O referendo há
de nascer morto, e não terá nenhuma aplicação porque cada dia é maior a
resistência do povo de Santa Cruz e de todo o povo oriental. O referendo do
governador de Pando, Leopoldo Fernández, acaba de ir para o espaço. Os
camponeses, as prefeituras e os patriotas pandinos acabam de jogar por terra
um “estatuto” redigido em um gabinete de advogadozinhos oportunistas.
Principalmente os indígenas, camponeses e entidades populares e sindicais de
Beni, reunidos em Trinidad, vão a caminho da impugnação regional organizada
e legítima.
O povo de Santa
Cruz, que se encontrava silenciado e amedrontado pelos esquadrões fascistas
da União Juvenil, se pronuncia contra os avessos planos dos separatistas. O
povo guarani se proclamou “autônomo”, como povo originário. Os povos de San
Julián, Cuatro Cañadas e outros do norte integrado, e com destacada presença
de migração de índios colla, não concorrerão ao referendo e na sua área não
se instalarão urnas. O Plano Três Mil e a Vila Primeiro de Maio, da capital
oriental, seguindo a tradição do socialista Andrés Ibáñez não votarão e não
haverá urnas em seus bairros, apesar dos capangas e a mobilização
reacionárias.
Que não se
enganem a reação, os ricos, os latifundiários e que não se atrevam a alçar a
mão contra o povo, contra o avanço no processo de mudança e o progresso
social. Vão cavar seu próprio túmulo.
*Secretário-geral
do Partido Comunista da Bolívia
**Equivalente a cerca de 203 dólares. O salário mínimo atual é de 577
bolivianos. |