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João Felício: Os
professores e as podres e pobres mentiras da mídia
João
Felício *
Cada
vez mais execrado, com seu nome transformado em símbolo do caos que desgovernou
boa parte do Continente nas últimas décadas, o neoliberalismo vai se
transformando numa religião sem seguidores, como bem o demonstra o recente
resultado das eleições no Paraguai, que se soma à decisão soberana reafirmada
nas ruas e nas urnas de vários países deste Sul da nossa América.
O
que resta é o altar do sacrifício e as marcas de sangue e dor deixadas pelas
privatizações, desregulamentações e flexibilizações que, desossando o filé do
patrimônio nacional para engordar meia dúzia de cartéis e monopólios, em sua
quase totalidade estrangeiros, multiplicaram a fome, a miséria e a violência.
Felizmente, na atualidade, afora alguns poucos apóstolos desastrados do Deus
mercado, como o governador José Serra, que ainda a pouco tentou sem sucesso
entregar a Companhia Energética de São Paulo (CESP), encontram-se em extinção
figuras dispostas a bater numa tecla de sons cada vez mais ridículos e
constrangedores. Mesmo o governo norte-americano, que tantas loas teceu à
capacidade de auto-regulamentação do mercado, diante da crise que bate à sua
porta apelou para os cofres públicos, com centenas de bilhões de dólares, na
tentativa desesperada de evitar a quebra da economia. A discurseira era pura
propaganda, evidentemente, sempre foi da boca pra fora. O argumento servia para
enganar incautos, enquanto as empresas dos países centrais abocanhavam parcelas
expressivas das riquezas do, chamado por eles, Terceiro Mundo, sem qualquer
reação dos Estados nacionais que deveriam agir para preservá-las. No caso do
Brasil de FHC, a situação foi ainda pior, com o maior banco público de fomento
do mundo, o BNDES, sendo desvirtuado para investir na desnacionalização da
economia e financiar o criminoso processo de privatização. Um assalto de grandes
proporções e trágicas conseqüências, que só agora, à medida que o país vai
tomando consciência, começa a ser revertido com a retomada do papel indutor do
Estado, por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
VENTRÍLOQUOS DOS DONOS
Mas
diante de tais fatos e tamanhas desgraças para a vida de milhões de pessoas e,
particularmente, para o povo brasileiro, onde estavam Alexandre Garcia, Diogo
Mainardi e Arnaldo Jabor, para citar apenas três dos articulistas da chamada
“grande” mídia? Servindo de ventríloquos para os donos dos veículos onde
trabalham, cultuando a liberdade de empresa em contraposição à liberdade de
imprensa, venerando a manipulação como um fim prático, razão suprema dos meios a
quem servem.
Na
semana passada, Alexandre Garcia voltou à carga contra os professores e a
Apeoesp. Sobre o desmanche do ensino público no Estado mais rico da Federação, o
mesmo silêncio sepulcral, a mesma canalhice em forma de notícia. Nada sobre o
fechamento de escolas, o corte de disciplinas, a superlotação de classes, os
salários aviltados, o desaparecimento das bibliotecas, a dilapidação dos
laboratórios, a violência e a insegurança... Nada que pudesse macular o tucanato.
Nada de fatos. Já quando o assunto é boato e o sujeito na linha do tiro é a
organização sindical dos professores, quando o alvo é a Apeoesp, as mentes
outrora cativas das trevas ganham ares de soberba e luminosidade, e passam a
produzir em escala industrial tudo o que é tipo de desinformação, calúnia e
fantasia. Uma destas diz que professores foram até a Secretaria Estadual de
Educação para atear fogo nas apostilas distribuídas pelo governo. Sem entrar no
mérito da qualidade melancólica de tais materiais “pedagógicos”, que mais
atrapalham do que auxiliam professores e alunos devido à precariedade de seus
conteúdos - como a do rio Xingu estar localizado em São Paulo - setores da
grande mídia tentaram comprometer a direção da Apeoesp com tal ato, na ânsia de
vinculá-lo à prática de queima de livros, tão ao gosto dos fascistas.
GROSSEIRA MANIPULAÇÃO
Evidentemente que o dito protesto de meia dúzia de professores, com a
improvisada fogueira, não contou com a aval da sua entidade, por ser, acima de
tudo, uma reação histérica, de pessoas impotentes. Mas por que falar da reação e
calar sobre a ação que a originou? Por que falar da forma atabalhoada de
protesto, sem entrar no mérito do seu conteúdo? Porque se prendem pela aparência
para esconder a essência, porque tem o rabo preso. E não é com o leitor.
Caluniam, ofendem e agridem pessoas, dirigentes sindicais, Sindicatos e
movimentos sociais sem dar direito de defesa. A chamada “lei de imprensa” os
protege para que continuem nesta prática: poupam os ricos, os que levaram a
escola pública a esta situação, e atacam aqueles que se opõem às suas idéias e
concepções de mundo.
Definitivamente, está difícil ler, ouvir e assistir a maioria dos meios de
comunicação deste país. É melhor ouvir música.
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Membro da executiva nacional da Central Única dos Trabalhadores |