Alta do preço dos alimentos é pura especulação externa

 A alta nos preços dos alimentos e produtos agrícolas foi a justificativa apresentada para o último aumento de juros. Segundo alguns espécimens do charlatanismo econômico, entre os quais o sr. Meirelles, é preciso frear o consumo, pois, senão, a inflação se espalhará pela economia. Portanto, é preciso aumentar os juros para que a população compre menos, consuma menos – em suma, é preciso adequar a procura à oferta - para evitar inflação.

Esse suposto raciocínio tem vários problemas – mas aqui queremos nos deter num único aspecto: o preço atual dos alimentos nada tem a ver com a lei da oferta e da procura; nada tem a ver com excessiva procura (ou consumo) em relação à oferta (ou produção). Aumentar os juros para reduzir o consumo não tem efeito algum sobre o preço dos alimentos – que, desde o governo Fernando Henrique, estão “internacionalizados”, ou seja, não dependem do mercado interno até que sejam tomadas medidas que o protejam da especulação externa.

Vejamos um exemplo: o arroz. Há cinco anos, existia, realmente, um déficit na produção de arroz em relação ao consumo – o total produzido naquele ano estava 20 milhões de toneladas abaixo do que foi consumido. Mantida àquela situação, as reservas, isto é, os estoques, ameaçavam chegar a zero dentro em breve. Porém, de 2003 em diante houve um crescimento quase espetacular da produção: hoje, há uma sobra, um superávit de 1 milhão de toneladas. Ou seja, o estoque mundial aumentará em um milhão de toneladas em 2008 (mais ou menos a mesma quantidade de 2007), por estarem além da capacidade de consumir, enquanto, em 2003, consumiu-se 20 milhões de toneladas dos estoques por falta de produção.

Se a badalada lei da oferta e da procura valesse aqui para alguma coisa, os preços, evidentemente, teriam baixado entre 2003 e 2008, já que a oferta aumentou em relação à procura, e não foi pouco. No entanto, o preço da tonelada de arroz passou de US$ 200 (2003) para US$ 499 (abril de 2008). Os dados são da FAO e da Bolsa de Chicago. Note-se que no início desse aumento de produção do arroz, o preço chegou a baixar e depois aumentou por razões puramente especulativas, sem que oferta ou procura tivessem nada a ver com a questão.

O trigo é um caso bastante semelhante ao arroz. No caso do milho, os estoques, por déficit de produção, caíram 11% entre a colheita de 2003-2004 e a de 2007-2008. No entanto, o preço aumentou 125% no mesmo período, apesar dos estoques existentes estarem muito longe da penúria (equivalentes a mais de 10% do consumo mundial e acima de 90 milhões de toneladas).

O caso mais escandaloso é a soja: a produção cresceu 28% entre 2003-2004 e 2007-2008. Os estoques mundiais cresceram 40% e são hoje equivalentes a uma parcela maior do consumo do que antes. Mas a tonelada de soja aumentou de US$ 300 (2003) para US$ 500 (abril/2008).

Se tomarmos 2006 como referência, houve uma alta de 217% no preço do arroz, 136% no do trigo, 125% no do milho e 107% no da soja. Em todos esses casos, a oferta aumentou em relação à procura.

MONOPÓLIOS

O que isso mostra? O que está determinando a alta dos preços dos produtos agrícolas não é o aumento do consumo em relação à produção (ou da procura em relação à oferta). O que está determinando essa alta é a especulação cartelizada, ou seja, o monopólio da comercialização por alguns poucos grupos, norte-americanos e europeus. Há, além disso, e como conseqüência, a especulação delirante sobre o preço dos alimentos nas bolsas de “futuros”, onde aposta-se nos preços que vão existir meses depois – mas que serão impostos por meia-dúzia de monopólios, que ganham nessas bolsas o que quiserem, pois são eles, afinal, que determinam o resultado do jogo, ou seja, os preços. Em suma, uma roleta mais viciada do que jamais houve em qualquer cassino da Máfia.

A única solução, certamente, é não aceitar ser tapeado. Porque, se depender deles, estamos fritos. Numa audiência da Comissão de Commodities e Futuros dos EUA, um de seus integrantes, Bart Chilton, pronunciou a seguinte pérola: “Se não houver especuladores nos mercados, não há liquidez e não há mercado” (v. o artigo de Beat Balzli e Frank Hornig, na revista alemã Der Spiegel, “O papel dos especuladores na crise global de alimentos”).

Porém, como se chegou a essa situação? Através do fim de qualquer restrição à ação desses monopólios, em nome de um suposto e falso “livre mercado”. Enquanto acabavam todos os acordos internacionais de cotas e preços agrícolas, “os países do Norte, encabeçados pelos Estados Unidos, tomaram o controle mundial dos alimentos, graças aos bilhões de dólares diários de subsídios estatais que lhes permitem exportar seus excedentes a preços abaixo do custo e quebrar as produções domésticas do Sul, ao qual, para facilitar o assalto, se obrigou a eliminar ou reduzir as tarifas [sobre as importações]” (Aurelio Suárez Montoya, “La Bolsa de Valores y el control mundial de alimentos”).

Logo, sob a máscara de “subsídios”, fez-se um dumping para devastar a agricultura dos países periféricos, até então exportadores de alimentos, e obrigá-los a se tornar importadores. Como conseqüência, “entre 1994 e 2004, a produção de alimentos de todos os países em desenvolvimento caiu 10% em relação à década anterior, enquanto suas compras alimentícias externas cresceram 33%” (idem).

Esta é a situação. No entanto, temos na praça um novo tipo de alarmista: o alarmista inflacionário. Ou, talvez, o inflacionário alarmista. Apareceram alguns indivíduos propugnando que a inflação está em alta e se espalhando pelo conjunto da economia. Por isso, é preciso continuar aumentando os juros. O mais recente desses alarmistas foi um funcionário da Fundação Getúlio Vargas, que ocupou espaço na mídia para dizer que não são apenas os alimentos e produtos agrícolas que estão em alta. E deu um exemplo: o arroz em casca. Provavelmente, o arroz passou a ser produto mineral ou resultado de alguma síntese espiritual. Mas, em seguida, citou o preço do ferro-gusa - cujo preço é determinado por dois cartéis, que só existem no Brasil devido à privatização da Vale do Rio Doce e das siderúrgicas: o que monopoliza o minério de ferro e o que monopoliza a produção de aço.

Realmente, é necessária uma política que impeça esses cartéis de manipularem os preços, elevando-os aos píncaros do Himalaia. Porém, ainda que o problema seja semelhante, mais ridículo ainda é basear-se nos preços dos alimentos para dizer há excesso de consumo.

CARLOS LOPES


Primeira Página

 

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