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O 13 de Maio foi a
vitória da luta de Zumbi dos Palmares
O texto que
republicamos nesta página foi escrito há oito anos. Na época, predominavam
concepções sobre a nossa História, em especial sobre a Abolição, que nos
pareciam não somente equivocadas, como de conseqüências políticas trágicas para
o povo brasileiro e, em especial, para o seu segmento mais legítimo e oprimido:
os negros. A indigente idéia de que a Lei Áurea havia sido uma dádiva dos
senhores brancos – e não o resultado de uma longa luta que forjou a nossa
nacionalidade – somente poderia ter como decorrência o afastamento dos negros de
assumir plenamente a sua obra: o Brasil.
Passado esse tempo
– quase uma década – nada temos a retificar do que foi dito naquela época.
Portanto, para esta edição, foram feitas apenas (poucas) correções de estilo.
Nenhuma quanto ao conteúdo. Não pretendíamos republicá-lo. Estávamos planejando
um outro texto sobre a questão negra, tendo em vista o centenário da morte de
Machado de Assis. Nos parece uma peculiaridade digna de ser estudada o fenômeno
que fez de um negro – ou, se quiserem, um mulato – o maior escritor de nossa
literatura, em meio a uma sociedade escravista. É verdade que não se trata de um
caso único: Pushkin, o fundador da literatura russa, também era mulato, bisneto
do africano Aníbal (Hannibal, ou, na pronúncia russa, Gannibal), escravo
presenteado pelo sultão da Turquia ao czar Pedro, o Grande. Aníbal, por sinal,
foi um dos mais ilustres homens de sua época, major-general do exército russo,
amigo, quando viveu em Paris, de Diderot, Montesquieu e Voltaire, que o chamou
“a estrela negra do Iluminismo”. Pushkin, portanto, encontrou seu caminho
desbravado.
Outra foi a
situação de Machado. E a Rússia, diferente do Brasil do século XIX, não era uma
sociedade escravagista, e sim uma sociedade feudal.
Portanto, mais
ainda brilha a luz de Machado em sua época e nas épocas posteriores.
O fato é que
pedidos tão insistentes quanto amistosos – e honrosos – nos fazem hoje
republicar este texto. Que o leitor julgue por si mesmo a sua atualidade.
C.L.
CARLOS LOPES*

O 13 de maio
foi sempre uma das datas mais estimadas pelo povo brasileiro, somente comparável
em popularidade à da própria Independência. Certamente, nós, brasileiros, temos
toda razão em ter em tão alta conta a Abolição. O Brasil é, antes de tudo, um
país e uma Nação construída pelos negros. Esta foi a base de toda a luta
abolicionista, tal como observou, cinco anos antes do 13 de maio de 1888,
Joaquim Nabuco: “a raça negra nos deu um povo. O que existe até hoje sobre o
vasto território que se chama Brasil foi levantado ou cultivado por aquela raça;
ela construiu o nosso país. Tudo o que significa luta do homem com a natureza,
conquista do solo para a habitação e cultura, estradas e edifícios, canaviais e
cafezais, a casa do senhor e a senzala dos escravos, igrejas e escolas,
alfândegas e correios, telégrafos e caminhos de ferro, academias e hospitais,
tudo, absolutamente tudo que existe no país, como resultado do trabalho manual,
como emprego de capital, como acumulação de riqueza, não passa de uma doação
gratuita da raça que trabalha à que faz trabalhar... a raça negra fundou, para
outros, uma pátria que ela pode, como muito mais direito, chamar sua”
(Nabuco, “O Abolicionismo”).
O 13 de maio
foi a vitória da luta da qual Zumbi dos Palmares (assim como Tiradentes em
relação à Independência) foi o protomártir. Nenhuma parte, nenhum setor da
sociedade ficou fora dela – a cultura brasileira teve em Castro Alves o seu
expoente máximo; os militares afirmaram a consciência nacional ao recusar-se a
perseguir os escravos, declarando: “não somos capitães do mato”; a Abolição
superou todas as divisões partidárias e, até mesmo, étnicas, de Luiz Gama e José
do Patrocínio, negros e republicanos, a André Rebouças, negro e monarquista, a
Silva Jardim, branco e republicano, até Joaquim Nabuco, branco, monarquista e
filho de um senhor de engenho.
Em suma, a
revolução abolicionista-republicana foi o movimento que constituiu,
definitivamente, o povo brasileiro. Nenhum outro foi tão importante para definir
a fisionomia da nacionalidade. Neste sentido, a Revolução de 30 é um
desenvolvimento de 1888 e 1889, de certa forma a retomada da revolução
abolicionista após a derrubada da república oligárquica, aspecto presente até
mesmo na formação de seu líder, Getúlio, filho direto do abolicionismo
republicano.
Mas é certo
que Abolição e República não foram bandeiras que caminharam sempre juntas,
apesar de, já no século XVIII, Tiradentes as ter vinculado. Somente em 1887 o
Partido Republicano iria assumir oficialmente a Abolição, com a adesão da última
seção que ainda resistia, o Partido Republicano Paulista, que futuramente iria
dominar a República Velha. Mas os principais propagandistas republicanos – como
Silva Jardim – cresceram junto ao povo por serem os mais firmes agitadores da
Abolição. Foi o abolicionismo que forjou a unidade nacional. Abolição e
República tornaram-se, cada vez mais, convergentes. O primeiro a novamente
vinculá-las foi um negro, Luiz Gama, na Convenção republicana de Itu.
Luiz
Gama sabia, por experiência própria, do que falava quando denunciou: “Em nós,
até a cor é um defeito. Um imperdoável mal de nascença, o estigma de um crime.
Mas nossos críticos se esquecem que essa cor é a origem da riqueza de milhares
de ladrões que nos insultam; que essa cor convencional da escravidão tão
semelhante à da terra, abriga sob sua superfície escura, vulcões, onde arde o
fogo sagrado da liberdade”.
Nascido livre
há exatos 170 anos, Luiz Gama foi separado aos sete anos da mãe, Luiza Mahin,
líder da revolta dos malês, deportada para a África. Aos 10 anos foi vendido
como escravo pelo próprio pai, um fidalgo português arruinado por dívidas de
jogo. Revendido a um contrabandista, percorreu a pé, num grupo de cem outros
negros, o caminho da Serra do Mar entre Santos e Campinas, para ser entregue ao
novo “senhor”. Segundo seu próprio relato, enfrentou em São Paulo outro
preconceito, por ser baiano – os escravos nascidos na Bahia eram então
considerados os mais rebeldes, a ponto da palavra “baiano” ter-se tornado
pejorativa para os escravocratas.
Aos 18 anos,
Luiz Gama fugiu de seu último “senhor” e entrou no Exército. Advogado, foi
defendendo um escravo diante do Tribunal do Júri que pronunciou a sentença de
morte da escravidão: “aquele negro que mata alguém que deseja mantê-lo
escravo, seja em qualquer circunstância for, mata em legítima defesa”. Não
dizia isso por ódio, mas porque era verdade. Amigo – e colega na redação de um
jornal – de Rui Barbosa, de Joaquim Nabuco e outras grandes personalidades da
época, Luiz Gama foi a figura mais avançada da luta abolicionista.
No entanto,
desde Tiradentes a Abolição já era a questão fundamental da luta pelo
desenvolvimento, industrialização e emancipação do Brasil. A Independência, que
se consolidou tendo como classe dominante os senhores de escravos e o Estado que
os representava – a monarquia – a tinha colocado em questão na palavra de seu
próprio Patriarca, José Bonifácio, dirigindo-se à Assembléia Constituinte, em
1823, na apresentação de seu maior projeto.
Para José
Bonifácio, a escravidão era uma herança insuportável da colonização, a
comprometer a unidade e a própria existência da nova Nação: “Se o antigo
despotismo foi insensível a tudo, assim lhe convinha ser por utilidade própria:
queria que fôssemos um povo mesclado e heterogêneo, sem nacionalidade, e sem
irmandade, para melhor nos escravizar” (J. Bonifácio, “A Escravidão e a
Formação Nacional” - discurso à Constituinte).
Assim, a
Abolição era absolutamente imprescindível para que o novo país, então com apenas
um ano de idade, se consolidasse e o povo brasileiro completasse a sua formação:
“... é tempo que vamos acabando até os últimos vestígios da escravidão entre
nós, para que venhamos a formar uma nação homogênea, sem o que nunca seremos
verdadeiramente livres, respeitáveis e felizes... cuidemos, pois, desde já em
combinar sabiamente tantos elementos discordes e contrários, e sem amalgamar
tantos metais diversos, para que saia um todo homogêneo e compacto” (idem).
Respondendo ao
cretino “argumento” dos escravagistas, segundo o qual a Abolição seria um
atentado ao seu “direito de propriedade”, José Bonifácio fez, então, a maior
denúncia de escravidão em sua época, colocando a propriedade no devido lugar,
subordinada aos interesses sociais e nacionais: “Não vos iludais, senhores, a
propriedade foi sancionada para o bem de todos, e qual é o bem que tira o
escravo de perder todos os seus direitos naturais, e se tornar de pessoa a
coisa, na frase dos jurisconsultos? Não é pois, o direito de propriedade, que
querem defender, é o direito da força, pois que o homem, não podendo ser coisa,
não pode ser objeto de propriedade. Se a lei deve defender a propriedade, muito
mais deve defender a liberdade pessoal dos homens, que não pode ser propriedade
de ninguém sem atacar os direitos da providência, que fez os homens livres, e
não escravos... Este comércio de carne humana é pois um cancro que rói as
entranhas do Brasil” (idem).
Antes de tudo,
a Abolição correspondia aos interesses nacionais – a rigor, ela era o interesse
nacional, não só o interesse da justiça, mas o interesse do país pelo progresso
econômico e pelo avanço da industrialização, impossível com a escravidão que “só
serve”, ressalta José Bonifácio, “para obstar a nossa indústria... basta
lembrar que os senhores que possuem escravos vivem, em grandíssima parte, na
inércia... as máquinas que poupam braços, pela abundância extrema de escravos
nas povoações grandes, são desprezadas”.
O
abolicionismo era, portanto, a luta contra o atraso, a estagnação e a
ignorância. O combate foi extremamente árduo. Não teve, nem de perto, um único
traço de concessão, até porque é uma idéia ridícula a de conceber uma classe
inteira de senhores de escravos dando a estes, como concessão, a liberdade.
As leis
antiescravagistas foram sistematicamente desrespeitadas – como denunciaram os
abolicionistas, a maior parte delas era pura encenação: proibiu-se o tráfico de
escravos, mas não a propriedade de escravos contrabandeados; a lei dos
sexagenários concedia liberdade aos escravos que completassem 62 anos, isto é,
aos mortos; a lei do ventre livre concedia liberdade à criança, mas não à mãe
nem ao pai: onde iria viver essa criança “livre” senão na senzala, como escrava?
Os negros, os
continuadores de Zumbi, estiveram todo o tempo, a exemplo de Luiz Gama, à frente
desse movimento. Mais do que isso, manifestaram-se em massa. A própria
declaração dos militares recusando-se a persegui-los foi uma resposta à
tentativa do governo de usar o Exército para reprimir os quilombos formados
pelos negros que saiam das fazendas. A tal ponto foram isolados os escravagistas
que o próprio Estado que os representara desde a Independência foi obrigado a
decretar a Abolição – e, com isso, como disse o inconformado Barão de Cotegipe,
escravagista renitente, decretou também seu próprio fim.
É verdade que
os vencedores do 13 de maio foram marginalizados durante a República Velha –
exatamente porque a oligarquia, com seu servilismo aos banqueiros e
especuladores ingleses, bloqueou o desenvolvimento e a industrialização do país,
continuação natural da Abolição. Foi necessária a Revolução de 30 para que os
negros e todo o povo brasileiro conquistassem outra vez o lugar que lhes cabe.
Quando Getúlio decretou, entre outras inúmeras medidas, a lei estipulando que
pelo menos dois terços dos trabalhadores das empresas teriam que ser
brasileiros, começou a ser quebrada essa marginalização. Durante o período de
Getúlio, o 13 de maio tornou-se festa nacional; o samba tornou-se a mais
universal expressão cultural brasileira; as escolas de samba e seus enredos
nacionais tornaram-se o ponto culminante do carnaval; e foram proscritas uma
série de perseguições e discriminações contra os negros – entre elas, a que
proibia a capoeira: a licença que Getúlio assinou para que o famoso mestre Bimba
abrisse a primeira academia de capoeira do país é um símbolo imperecível dos
ideais e da luta que o 13 de maio representa na consciência nacional.
Hoje, esse é o
caminho que retomaremos – e já retomamos – para construir um Brasil livre e
justo.
*Carlos Lopes é diretor de redação da Hora do Povo, médico psiquiatra e escritor |