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O Rio de Irapuan
O manifesto “Rio Coração do
Brasil” foi escrito e lido pelo diretor da Hora
do Povo, Irapuan Ramos, durante o Seminário “A Hora e a Vez do Rio”, que reuniu
dezenas de pessoas entre lideranças políticas, sindicais, estudantis e
representantes de entidades populares no Colégio 1º de Maio, no Maracanã, com o
objetivo de debater propostas e alternativas para o desenvolvimento da cidade.
Por sua beleza, condensando em precisas e líricas palavras a identidade carioca,
expressão do sentimento de brasilidade, oferecemos hoje o texto aos nossos
leitores de todo o país, que certamente saberão apreciá-lo
IRAPUAN RAMOS
Se
um dia houvesse um concurso para escolha da Capital do Mundo, seguramente nossa
Cidade Maravilhosa entraria bem cotada na disputa.
Situada num País que irradia
simpatia e transmite alto astral para todos, o Rio de Janeiro é a cidade
brasileira mais conhecida em todo o mundo e, sem dúvida, não há habitante do
planeta que sonhe em viajar, que não tenha em algum momento da sua vida pensado
em conhecer a Cidade Maravilhosa.
Internamente, para nossos
compatriotas, somos aquele vizinho gente boa, que todos gostam de visitar.
Solidário, atencioso, alegre, despreconceituoso, que mora numa bela e arejada
casa cercada de mar, montanha, muito sol e gosta da companhia dos visitantes.
Tanto é verdade que muitos dos que vieram nos visitar por aqui acabaram ficando,
os irmãos do Nordeste, do Norte, do Sul, do Sudeste, do Centro-Oeste, sem falar
dos que chegaram de outros países e por aqui sentaram praça.
Muitas coisas se somaram neste
pedacinho de Brasil. A cidade nasceu à beira-mar e já nos tempos em que a
navegação era meio de transporte que nos conectava ao mundo e o porto era o
centro da vida econômica, cultural e social, foi adquirindo ares cosmopolitas
sem, até hoje, perder sua identidade nacional. Pelo contrário, o amálgama das
diversas influências plasmou um brasileiro típico, que sem dúvida é o bem maior
da Cidade do Rio de Janeiro – o carioca.
Durante 197 anos foi Capital do
Brasil, tendo sido Capital da Colônia, Capital do Reino de Portugal e Algarves
(aliás, a única cidade fora da Europa a sediar um reino europeu), Capital do
Império e Capital da República. Por este motivo esteve no epicentro de todos os
momentos da história do nosso País.
Andar pelas ruas do Rio e
mergulhar no passado de seus prédios, praças e logradouros é como ver desfilar
aos olhos os diversos capítulos da vida do País. Aqui até as calçadas contam
histórias: as onduladas de Copacabana, as musicais de Vila Isabel, a calçada da
fama no Maracanã , a de gente humilde com cadeiras na varanda e as dos poetas da
calçada.
Na Rua Camerino, ao pé do Morro da
Conceição, encontramos os Jardins Suspensos do Valongo. No alto de suas paredes
de pedra, funcionou o mercado de compra e venda de escravos na colônia. Indo
para a Gamboa ou Saúde ainda vemos as velhas casas e becos em que os escravos
libertos vieram se encarapitar, vindos da Bahia para serem trabalhadores braçais
no Porto.
Se andamos até o Largo de São
Francisco, assistimos Castro Alves incendiando os estudantes com seus poemas em
defesa da Abolição e recordamos os trilhos arrancados pela Revolta do Vintém,
quando o bonde aumentou 1 vintém em 1879. No lugar da atual Assembléia
Legislativa, que já foi Câmara Federal, existiu a cadeia pública, onde
Tiradentes combateu até os últimos momentos antes ser sacrificado no local onde
existe, hoje, uma escola pública com seu nome, na Rua Gomes Freire, atrás da
Praça Tiradentes.
Um pouco mais à frente, o Campo de
Santana. Lá o Marechal Deodoro proclamou a República e a Lei Áurea foi assinada.
Indo em direção ao Estácio, passamos pela Praça 11. Ali, Tia Ciata organizava
seus famosos festejos de choro na sala e samba no quintal e, naturalmente, no
mesmo lugar, aconteceriam os primeiros desfiles das Escolas de Samba, reunindo
Mangueira, Madureira, Estácio e Providência.
Voltando pela Avenida Presidente
Vargas, passamos em frente ao prédio da Central do Brasil do comício pelas
reformas de base em 1964. Ao lado está o Pantheon de Caxias. Temos ao fundo a
Igreja da Candelária, palco do Comício pelas Diretas Já em 1984, à sua frente
cruza a Avenida Rio Branco, caminho percorrido pela passeata dos 100 mil, em
1968. Olhando à esquerda da Avenida Rio Branco, o velho cais da Praça XV remete
à memória dos Revoltosos da Chibata, que, liderados pelo Almirante Negro,
bombardearam a ilha das Cobras em 1910. Caminhando à direita, temos o antigo
Tabuleiro da Baiana, que inspirou o primeiro samba gravado. Mais adiante, o
imponente prédio da Petrobrás transmite a força da pesquisa nacional, que
desenvolveu o CENPES, fez jorrar petróleo das águas profundas e a transformou na
maior empresa brasileira. Glória à luta do Petróleo é Nosso!
A Avenida Rio Branco é filha da
revolução sanitária de Oswaldo Cruz, que dedicou a vida à medicina preventiva em
contraposição à política necrófila dos monopólios que se cevam da doença humana.
Muito justamente o maior centro de pesquisa da saúde da América do Sul e Central
leva o seu nome – Fundação Oswaldo Cruz – e reúne milhares de pesquisadores aqui
e no País. Integram o complexo, dentre outros, a Biomanguinhos, produtora de
vacinas em escala, e a Farmanguinhos, que um dia pode ser a nossa Petrobrás dos
Medicamentos, alavancada pelo desenvolvimento do setor de fármacos e química
fina.
A Avenida Rio Branco começa no
prédio da portentosa Rádio Nacional, da época de ouro do rádio e da música
brasileira, e termina onde começa a Cinelândia, palco de memoráveis
manifestações. A praça é cercada por belas construções de época, onde se
destacam o Palácio Pedro Ernesto - a Câmara de Vereadores - onde os comunistas
fizeram maioria, elegendo 18 vereadores em 1947. A Câmara do Rio esteve ao lado
do povo na luta contra a ditadura nos anos 70. O símbolo maior foi o Vereador
Antonio Carlos de Carvalho, que hoje dá seu nome ao salão nobre da casa, por
decisão unânime.
Na mesma Cinelândia fica o Teatro
Municipal, que em 1956 abriu seu palco para a peça Orfeu da Conceição, que
projetou para a posteridade a música de Tom Jobim e Vinicius de Morais, com
cenários de Oscar Niemeyer. Caminhando em direção ao mar, uma aula de
arquitetura com o Palácio Capanema e seus painéis de Portinari e Djanira, os
prédios dos antigos Ministério da Fazenda, do Trabalho, o da Academia Brasileira
de Letras de Machado de Assis e o da centenária ABI, de onde Barbosa Lima
Sobrinho ensinava que ‘o capital se faz em casa”.
Chegando ao mar a vista não
alcança um conjunto de belas e estratégicas ilhas como a de Villegagnon - da
Escola Naval -, a Ilha das Cobras - do Arsenal de Marinha -, a Ilha Fiscal -
palco do último baile do Império -, a Ilha das Enxadas, a Ilha do Governador, a
Ilha do Fundão - da Cidade Universitária -, a Ilha do Sol, a Ilha de Paquetá -
da Praia da Moreninha -, e o paraíso ecológico do Arquipélago das Cagarras.
Como se a beleza da cidade fosse
pequena, Lúcio Costa projetou o Aterro do Flamengo e Burle Marx cobriu-o com o
mais belo jardim urbano que se conhece. Ali conviveram o Restaurante do
Calabouço, onde morreu Edson Luiz, e permanece incólume o Túmulo do Soldado
Desconhecido, tributo ao sangue brasileiro derramado nos campos da Itália para a
derrota do nazi-fascismo na II Guerra Mundial. Mais ao fundo a Floresta da
Tijuca, a Pedra da Gávea, Dois Irmãos, o Corcovado e as curvas do relevo que
inspirariam o jovem arquiteto Oscar Niemeyer em sua obra.
Voltamos até Copacabana para nos
deparar com o Forte, onde os 18 assombraram os adversários pela determinação de
lutar até o fim pelo progresso do País. Passamos pela Fortaleza de São João, na
Urca, local de fundação da cidade, por Estácio de Sá, em 1º de março de 1565,
entre os Morros Cara de Cão e Pão de Açúcar, em cuja área se estruturou a Escola
Superior de Guerra. Logo estamos na Praia do Flamengo e recordamos “alunos e
professores” como no samba de Silas de Oliveira, resistindo bravamente à
derrubada do prédio da UNE.
Se é para falar de heroísmo,
estamos no Palácio do Catete. Dali Getúlio Vargas comandou a revolução do
Brasil. Arrancou-o das garras das velhas oligarquias que viam nele apenas uma
imensa fazenda produtora de café, para dar-lhe uma face industrial,
progressista, socialmente avançada. Zumbi resistiu, Tiradentes libertou, Getúlio
construiu o Brasil tal qual o vemos hoje, até pagar com a própria vida.
Esta é a Cidade do Rio de Janeiro.
Cidade de engenho e arte, como diria Camões. Cidade de beleza vegetal (haja
verde), riqueza mineral (haja tanto mar e tanta água) e transbordante de
sentimento humano (êta povo bom!).
Pois é, foi esta cidade-coração do
Brasil que os anos de neoliberalismo tentaram asfixiar. Destruindo o Estado,
sucateando nossas universidades públicas, nossos centros de ciência e
tecnologia. Entregaram nosso patrimônio. Encareceram a vida. Destruíram a
indústria e semearam o desemprego. Veio junto a crise social, o tráfico, a
desagregação familiar e passaram a dizer que nossa cidade estava doente, como se
eles não tivessem culpa no cartório. Foram os anos de cinismo característico do
FHC. No entanto, com a força do povo, mudamos o Brasil. Elegemos um presidente
que aprendeu na linha de produção e na vida dura de operário a importância de
ter uma Nação unida e caminhando para o progresso. O Brasil está se encontrando
consigo mesmo e o Estado do Rio de Janeiro está trilhando o mesmo caminho.
Agora é a vez do Rio. Se o Rio
estivesse doente, o Brasil também estaria - e não está, nosso País tem saúde
para dar e vender. Os novos tempos apontam para uma vasta e larga avenida de
esperança. Vamos colocar o Rio de Janeiro no lugar de destaque que ele merece:
reindustrializado, com tecnologia de ponta, a pleno emprego, dotado de
infra-estrutura forte para atrair mais e mais investimentos, criando as
condições para que seus milhares de técnicos, especialistas, cientistas possam
desenvolver novos conhecimentos; fortalecer a escola pública como porta de
entrada dos nossos filhos no mundo da ciência e do patriotismo, acabar com o
analfabetismo; melhorar a saúde e a habitação; estimular a luta das mulheres;
criar todas as condições para que a nossa rica e ampla cultura possa florescer,
defender o meio ambiente e as nossas imensas reservas naturais, investir no
turismo sadio. O coração do Brasil bate forte. Virar o Rio é decisivo para
colocar o Brasil definitivamente no rumo do desenvolvimento.
Rio de Janeiro, 26 de abril de 2008.
IRAPUAN |