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“Se
nós não ocuparmos a Amazônia, alguém a ocupará”,
diz coronel Gélio
A
entrevista que publicamos nesta página,
concedida pelo coronel Gélio Fregapani, até
recentemente no departamento amazônico da Abin,
foi concedida ao repórter Ray Cunha, da Agência
Amazônia de Notícias. Pela sua importância, e
pelo necessário debate sobre uma região que está
entrelaçada com o destino do país, julgamos que
nossos leitores gostariam de tomar conhecimento
dos pontos de vista do coronel Fregapani.
Resumimos, a seguir, a apresentação feita por
Ray Cunha deste militar brasileiro:
“Gélio
Fregapani, o mentor da Doutrina Brasileira de
Guerra na Selva, já esteve em muitos dos locais
habitados e dos desabitados da Amazônia,
inclusive a selva, aquela que poucos conhecem.
Fala também mais de uma língua indígena, já
conduziu geólogos a lugares ínvios, chefiou
expedições militares e coordenou expedições
científicas às serras do extremo Norte e onde
dormem as maiores jazidas minerais da Terra.
Desenvolveu métodos profiláticos para evitar
doenças tropicais, tendo saneado as minas do
Pitinga e a região da hidrelétrica de Cachoeira
Porteira. Coronel do Exército, serviu à força
durante quatro décadas, quase sempre ligado à
Amazônia, tendo fundado e comandado o Centro de
Instrução de Guerra na Selva. Há mais de três
décadas, vem observando a atuação estrangeira na
Amazônia, o que o levou a escrever ‘Amazônia - A
grande cobiça internacional’ (Thesaurus Editora,
Brasília, 2000, 166 páginas), apenas um título
de sua bibliografia. Ele me concedeu a
entrevista que se segue em um aprazível e
discreto restaurante de Brasília. Vamos à ela”
- Assassinatos no interior do Pará
tornaram-se banais. Por que a região está
convulsionada?
Gélio Fregapani - Vou me arriscar a fazer
um pequeno comentário sobre o Pará, mas friso
que não sou nenhum especialista na área, que não
é da minha especial atenção. Acontece que aquela
área é limite da expansão agrícola, que vai
continuar, primeiro, pela exploração madeireira;
depois, de gado; e depois, de agricultura. Os
Estados Unidos preocupam-se especialmente com a
tomada do mercado deles de soja. Nós produzimos
soja mais barata do que eles, pela nossa
quantidade de água, de terras baratas e de
insolação. Então, fazem todo o possível para
prejudicar-nos.
Pessoalmente, estou convencido de que eles
introduziram – não quero dizer o governo deles;
talvez as companhias deles – a ferrugem da soja
e usam o meio ambiente como uma forma de travar
o nosso progresso. Nesse uso do meio ambiente se
inclui a corrupção existente em alguns dos
nossos órgãos; o idealismo, tolo, de algumas das
nossas entidades, que querem deixar a mata
intocada, e o nosso povo sem emprego; e,
principalmente, a atuação, nefasta, de várias
Ongs, como a WWF (Wold Wildlife Found). Eu
acredito que nesse contexto muito desses
conflitos são provocados por interesses
externos. Se o Incra (Instituto Nacional de
Colonização e Reforma Agrária) fizesse
corretamente seu papel e se as reintegrações de
posse fossem cumpridas, certamente não haveria
muitos desses conflitos. É claro que pouca gente
vê perder-se o resultado do esforço de toda sua
vida sem reagir. E quando a Justiça não atende,
algumas pessoas farão justiça com as próprias
mãos.
- Qual é a maneira legítima de ocupação da
Amazônia?
G. F. - A Amazônia será ocupada. Por nós,
ou por outros. Numa humanidade em expansão, com
uma série de terras superpovoadas, uma terra
despovoada e habitável, ela será ocupada. Por
quem? Nós temos, legitimamente, a posse, mas
essa legitimidade não nos garante o futuro. Se
nós não ocuparmos a Amazônia, alguém a ocupará.
Se nós não a utilizarmos, alguém vai utilizá-la.
Portanto a questão é: devemos ocupá-la, ou não?
Nós somos brasileiros, então devemos ocupá-la.
Se nós nos achamos cidadãos do mundo, então
podemos permitir a ocupação por outros. Como
ocupar? Estávamos falando da área do Pará que é
a periferia da selva. Essa história de Amazônia
Legal é uma falácia, feita para incluir nos
benefícios da Amazônia algo que não tem nada a
ver com a Amazônia real, que é aquela selva que
nós todos conhecemos. Nessa periferia está a
agricultura. Então, ela será ocupada,
fatalmente, pela agricultura, até para alimentar
o mundo.
Os madeireiros não fazem o mal à selva que os
ambientalistas falam. Os madeireiros pegam
espécies selecionadas, que interessam ao
mercado. É claro que eles abrem picadas para
chegar até essas árvores, mas isso não faz dano
à floresta, porque há milhões de pequenas
árvores, chamadas de filhotes, que estão lá, há
muitos anos, esperando uma chance de chegar ao
sol para poder crescer. Quando uma árvore é
abatida, aqueles filhotes que estão em redor
crescem numa velocidade espantosa, na disputa
para ver qual dos indivíduos vai substituir a
árvore que foi abatida. Isso não altera em nada
a floresta. Mas a fronteira pioneira vai
avançando. Nessas trilhas, irão colonos, que
procurarão fazer um corte para colocar o gado.
Isso faz com que o Brasil tenha o maior rebanho
de gado fora da Índia, e que abastece o mundo de
carne. Há quem ache ruim. Há quem queira as
árvores e não o gado. Depois, pela valorização,
essas terras serão usadas pela agricultura. Essa
é a forma natural de ocupação, embora lenta,
pois precisamos ocupar a Amazônia de uma forma
mais veloz. Contudo, tanto o gado como a
agricultura, não poderão ficar na área de
floresta mesmo. Não porque os ambientalistas
querem. É porque a floresta não deixa.
Na floresta, fora dessa área de transição, de
periferia, na floresta úmida, real, as árvores
crescem com uma rapidez incrível. Primeiro vem
uma árvore pioneira, a imbaúba, e sob a sombra
da imbaúba cresce a verdadeira floresta. Em dois
anos, as imbaúbas já estão com mais de 40
metros. Então, não é possível uma agricultura,
como nós a concebemos no Sul, ou no Hemisfério
Norte, porque a floresta não deixa. O correto
seria a silvicultura, ou seja, a substituição de
árvores por outras árvores. Muitas outras
árvores são interessantes para substituir
aquelas árvores de menos valor. A castanheira, a
seringueira... mas, no momento, o que chama
atenção, mesmo, é o dendê.
- Dendê?
G. F. - As reservas de petróleo estão
diminuindo no mundo e o consumo está aumentando.
Vai chegar um momento que o uso de petróleo será
inviável. Eu não estou dizendo que o petróleo
vai acabar. Sempre vai sobrar um pouco, ou um
achado novo, mais fundo, mas o uso do petróleo,
como fazemos atualmente, está com seus dias
contados. Além do mais, os Estados Unidos estão
procurando tomar conta de todas as jazidas que
existem no mundo e alguns países estão realmente
preocupados com isso. A Alemanha, que já sabe
muito bem o que é falta de energia, um bloqueio,
está plantando canola para substituir diesel, e
já tem alguns milhares de postos fornecendo
biodiesel aos consumidores. A canola produz por
hectare 20 vezes menos do que o dendê, que
precisa só de calor, sol e água. Exatamente o
que abunda na Amazônia.
Se nós plantarmos 7 milhões de hectares de dendê
na Amazônia, extrairemos 8 milhões de barris de
biodiesel por dia, o que equivale à produção
atual de petróleo da Arábia Saudita, que tende a
declinar. O Japão mandou o seu primeiro ministro
ao Brasil para tratar de biodiesel. O Japão não
tem um lugarzinho nem para plantar canola. A
China tem muito carvão, mas tem pouco petróleo;
ela também está reunida com o Brasil, pedindo
que o Brasil faça biodiesel. O mundo tem fome de
biodiesel. Essa, me parece, é a melhor ocupação
da Amazônia. Sete milhões de hectares plantados
seria uma área menor do que a área Ianomâmi. Nós
teríamos 200 milhões de hectares plantados, se
quiséssemos, produzindo biodiesel. Sete milhões
de hectares plantados criarão aproximadamente 6
milhões de empregos. Isso contribuiria para
atingir a meta de 10 milhões de empregos do
presidente Lula (Luiz Inácio Lula da Silva).
Isso tornaria o Brasil rico e começaríamos a
ocupar a Amazônia.
- Há possibilidade de guerra pela ocupação da
Amazônia?
G. F. - Sabemos que haverá pressões,
sabemos que outros tentarão ocupar a Amazônia,
sabemos que se nós não a ocuparmos, certamente
teremos uma guerra pela ocupação. E guerra que
ninguém garante que nós vamos vencer. A
necessidade de ocupação da Amazônia é um fato e
a melhor forma é deixar prosseguir a fronteira
agrícola, ao mesmo tempo que no interior da
floresta. E quanto mais perto das serras que
separam o Brasil dos países ao norte, melhor. É
nítido o desejo dos povos desenvolvidos tomarem
conta das serras que separam o Brasil da
Venezuela e da Guiana, por dois motivos: para
evitar que o Brasil concorra com seus mercados e
como reserva futura de matéria-prima. Podemos
substituir as árvores nativas pelo dendê e, com
isso, conseguiremos tudo o que precisamos.
Atenderia a 6 milhões de trabalhadores rurais e
acabaria até com o problema dos sem-terra. Essa
solução é tão vantajosa para o Brasil que para
mim é incompreensível que isso não esteja com
destaque na grande mídia, não esteja na
discussão de todos os brasileiros, embora eu
tenha consciência que está na discussão dos
ministros e do presidente.
- A quem interessa a grita dos ambientalistas
na Amazônia?
G.F. - Há três países especialmente
interessados nisso: os Estados Unidos, a
Inglaterra e a Holanda. Eles têm coadjuvantes:
França, Alemanha e outros; até mesmo a Rússia já
se meteu, no tempo de Gorbachev. Mas o interesse
dos Estados Unidos é mais profundo. Se nós
explorarmos o ouro abundante da Amazônia, vai
cair o preço do ouro, e isso vai diminuir o
valor das reservas dos Estados Unidos, onde está
certamente a maior parte do ouro governamental
do mundo. Isso seria um baque para os Estados
Unidos, talvez pior do que perderem o petróleo
da Arábia Saudita. A Inglaterra, não é de hoje,
sempre meteu o bedelho nessas coisas. A Holanda,
que é o país que mais modificou seu meio
ambiente, tendo retirado seu território do mar,
também tem umas manias loucas em função do meio
ambiente. A grita ambientalista atende
principalmente aos Estados Unidos, para cortar a
exploração do ouro, e também para não atrapalhar
seu mercado de soja. À Inglaterra interessa o
estanho, mercado que sempre dominou. Uma só
jazida de estanho na Amazônia, do Pitinga,
quebrou o cartel do estanho, fazendo despencar o
preço de US$ 15 mil a tonelada para menos de US$
3 mil. Agora está em US$ 7.500, mas não voltou
aos US$ 15 mil por causa de uma única jazida.
Reconheço que há ambientalistas sinceros, que
acreditam nessas falácias, nessas mentiras,
ostensivas, como a de que a Amazônia é o pulmão
do mundo e que os pólos estão derretendo por
causa disso e por causa daquilo. Os pólos estão
derretendo porque ciclicamente derretem e se
alguma coisa influi nisso são os países
industrializados.
- A abertura de estradas na Amazônia é
necessária?
G.F. - Quando foi aberta a
Belém-Brasília, a Amazônia era como se estivesse
noutro continente. Nós poderíamos chegar lá, sem
dúvida, de navio ou de avião. A Belém-Brasília
rasgou apenas 600 quilômetros de selva, mas essa
área já está povoada, é definitivamente nossa.
Tem conflitos, mas tem riquezas, tem um rebanho
enorme e começa a produzir alimentos vegetais. A
Transamazônica não teve o mesmo sucesso porque
devia ter sido construída por etapas. A estrada,
especialmente estratégica, que garantiria para o
Brasil a posse da Amazônia, que seria a
Perimetral Norte, não saiu do papel. Mas somente
estradas podem povoar a Amazônia. Elas terão que
ser abertas.
- Quais são os pontos específicos da Amazônia
que interessam às potências estrangeiras?
G. F. - As serras que separam o Brasil da
Venezuela e da Guiana, e um pouquinho da
Colômbia. Lá é que estão as principais jazidas e
minerais do mundo. É lá que eles forçam para a
criação de nações indígenas e, quem sabe, vão
forçar depois a separação dessas nações
indígenas do Brasil. Um segundo ponto é a orla
da floresta, essa transição da floresta para o
cerrado, perfeitamente apta à agricultura. Isso
entra em choque com os interesses agrícolas dos
Estados Unidos.
O interior real da floresta, esse é desabitado,
desconhecido e é mais falado pelos
ambientalistas sinceros, mas ignorantes, aqueles
que julgam que a floresta tem que ser preservada
na sua totalidade, mesmo que o povo brasileiro
fique desempregado, faminto e submisso às
potências, que construíram o seu progresso
modificando o meio ambiente. Não há como haver
progresso sem modificar o meio ambiente. Nós
temos, às vezes, algumas falácias nisso. Os
ambientalistas não querem que se construa
barragens nem que se faça irrigação. Não existe
desperdício maior do que o rio jogar água no
mar. O ideal é que a água fosse usada toda aqui
dentro.
- Trafica-se animais, plantas e até sangue de
índio da Amazônia.
G.F. - A Rússia tem aquela imensidão da
Sibéria, quase despovoada, inabitável mesmo, e
com muito menos animais do que pode conter a
floresta amazônica. E, para ela, é uma imensa
riqueza a exploração de peles. Naturalmente, os
ribeirinhos tem que caçar. Os animais são
desperdiçados por leis ambientais erradas. Esses
animais acabam sendo levados para países
vizinhos e de lá são exportados. O que nós
teríamos que fazer é uma regulamentação e não
uma proibição.
Quanto à história de sangue de índio, até onde
eu saiba, andaram aí coletando para fazer
pesquisas. O que querem com essas pesquisas? Não
é prático, no meu entender, coletar sangue para
contrabandeá-lo. Quanto à exploração de espécies
vegetais, ou à biopirataria, eu também não me
assusto muito com isso, porque, uma vez que se
vê que uma planta cure alguma coisa, vai se
procurar o princípio ativo e produzi-lo
sinteticamente. A pesquisa disso, no meu
entender, traria bem para a humanidade. Se bem
que eu gostaria que nós fizéssemos isso e não
que os estrangeiros patenteiem e depois queiram
vender para nós. Esses aspectos são mais
emocionais e direcionados para que a gente não
explore nada.
- É verdade que a população indígena foi
reduzida drasticamente desde o descobrimento do
Brasil?
G. F. - Mais de 30 milhões de brasileiros
que se consideram brancos têm sangue indígena.
Temos, portanto, mais de 30 milhões de
descendentes de indígenas. Se considerarmos que
havia 3 milhões de indígenas na chegada de
Cabral e se há 30 milhões de seus descendentes
entre os que se consideram brancos nós vemos que
a população indígena não foi reduzida; foi
ampliada. O que certamente acontecerá não é a
eliminação do índio; é a eliminação de suas
sociedades, por serem anacrônicas.
A sociedade medieval já acabou. A sociedade dos
samurais também. A sociedade dos mandarins
também. Por que tem de ser mantida uma sociedade
que não cabe no mundo moderno? Os valores
tribais não são facilmente aceitos por pessoas
evoluídas. Canibalismo pode ser aceito?
Sinceramente, no meu entender, não. O
assassinato de filhos, como cultura, não como
delito, pode ser aceito? Isso não é compreensivo
para mim. A nossa ingenuidade talvez nos leve a
achar que devemos preservar a mata nativa e
deixar o povo com fome.
- Os ianomâmis são uma nação verdadeira ou
forjada?
G. F. - Absolutamente forjada. São quatro
grupos distintos, lingüisticamente, etnicamente
e, por vezes, hostis entre eles. A criação dos
ianomâmis foi uma manobra muito bem conduzida
pela WWF com a criação do Parque Ianomâmi para,
certamente, criar uma nação que se separe do
Brasil.
O Parque Ianomâmi é uma região do tamanho de
Portugal, ou de Santa Catarina, onde, segundo
afirmação da Funai (Fundação Nacional do Índio)
há 10 mil índios. A Força Aérea, que andou
levando o pessoal para vacinação, viu que os
índios não passam de 3 mil. Ainda que fossem 10
mil, há motivo para se deixar a área mais rica
do país virtualmente interditada ao Brasil? O
esforço deveria ser no sentido de integrá-los na
comunidade nacional. Nenhuma epidemia vai deixar
de atingir índios isolados. A única salvação,
nesse caso, é a ciência médica.
A área ianomâmi é imensa e riquíssima, está na
fronteira e há outra área ianomâmi, similar, no
lado da Venezuela. Então, está tudo pronto para
a criação de uma nação. Um desses pretensos
líderes, orientado naturalmente pelos falsos
missionários americanos, Davi Ianomâmi, já andou
pedindo na ONU uma nação, e a ONU andou fazendo
uma declaração de que os índios podem ter a
nação que quiserem. No discurso de Davi, ele
teria dito que querem proteção contra os colonos
brasileiros, que os querem exterminar.
- Qual é a grande vocação da Amazônia?
G. F. - Duas. Uma é a mineração. E a
outra é a silvicultura. Particularmente a
silvicultura do dendê, que, certamente, vai
suprir o mundo de combustível em substituição ao
petróleo. Em menos de duas décadas, o biodiesel
e o álcool terão substituído o diesel e o
petróleo em quase todo o mundo. Lugar algum
oferece melhores condições para essa produção do
que a Amazônia.
- E o turismo?
G. F. - É um pequeno paliativo. Não é
suficiente para desenvolver a Amazônia. A
Amazônia nunca será uma Suíça, uma Espanha...
- A falta de ocupação da Amazônia é, então, o
grande problema da região?
G. F. - É o grande problema do Brasil. A
Amazônia será ocupada, de um jeito ou de outro.
Por nós ou por outros. A solução da ocupação não
é para a Amazônia, é para o nosso país, se
quisermos ter a Amazônia. |