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Os navios
fantasmas da 4ª Frota
GILSON CARONI
FILHO*
Ao anunciar a reativação da Quarta Frota,
desativada há 58 anos, para “patrulhar os mares da América Latina”, a
marinha estadunidense encena, em versão farsesca, a sina do capitão
magistralmente criado por Wilhelm Richard Wagner, em 1841.
A diferença é que se o “Holandês voador”
navegava eternamente por conta de maldição que só um amor redimiria, o que
move os militares norte-americanos - e seus “navios fantasmas” - é a
necessidade de retomar o controle de uma região que, por décadas, foi seu
quintal seguro.
A nova constelação de governos latino-americanos
que, assumindo posições contrárias às do governo dos Estados Unidos, opõe-se
à concessão de bases para as forças militares do Império, é o mar revolto a
ser vencido. Se o personagem wagneriano tinha em “Senta” sua possibilidade
de redenção, ao governo americano resta apenas Uribe como promessa de
rendição.
Convém atentar para o que disse Alejandro
Sánchez, funcionário de organismo de investigação do governo Bush: “Nos
últimos anos os Estados Unidos se concentraram no Iraque e Afeganistão.
Agora estão tentando voltar para a América Latina”. Nesse ponto, um breve
retorno a 2003 é indispensável.
O que movia o cenário internacional podia, sem
riscos de reducionismo, ser descrito em poucas linhas. O maior império da
história, governado por uma “junta” oriunda do segmento petrolífero,
precisava desesperadamente invadir o Iraque, ex-aliado no Oriente Médio,
para se apossar de uma reserva estimada em 112 bilhões de barris. Às voltas
com um crescente déficit público e uma produção doméstica de combustível que
correspondia a 50% do consumo interno, ao governo americano parecia não
haver outra alternativa que não fosse o uso de sua inconteste supremacia
militar.
Os objetivos eram claros: “ouro negro” e
controle político do Oriente Médio. A barbárie se anunciava com o mais
portentoso apoio midiático de que se tem conhecimento. Das páginas do
Washington Post ao jornalismo de campanha da Fox o que se vislumbrava era a
disfuncionalidade da ONU como instância de regulação internacional. Os
editoriais eram a crônica de uma guerra inevitável.
Tendo chegado ao poder em eleições marcadas por
fortes evidências de fraude, George W. Bush, apoiado pela direita
fundamentalista americana, é a expressão acabada de uma superpotência que,
enfraquecida como projeto hegemônico, busca manter a supremacia pela
truculência bélica e a chantagem econômica. Unilateralismo na política
externa e a elisão de direitos civis são as duas faces da mesma moeda.
A chamada Lei Patriota, que criou o Departamento
de Segurança Interna, deu à nova agência poderes para monitorar desde a
ficha médica aos e-mails de pessoas contrárias à política governamental. A
CIA não tem mais qualquer restrição legal para assassinar, em qualquer país,
indivíduos que possam ser classificados como terroristas.
Política expansionista e Estado policial são a
marca distintiva dos Estados Unidos desde o fim da Guerra Fria. Ante-sala do
horror contemporâneo, a cruzada americana teve em seu aparelho
propagandístico o pânico interno como dispositivo para construção do
consenso.
O papel dos órgãos de imprensa, a maior parte
controlados por grandes corporações, foi decisivo para a empreitada da
política imperialista americana. Legitimaram, como nunca, a aventura no
Oriente Médio. Não agem diferente no recorte simbólico dado às principais
lideranças latino-americanas.
Sua maior colaboração residiu, como ainda
reside, na capacidade de transformar em evento o que é processo, tirando da
história qualquer possibilidade de apreensão dialética. Operam em restrita
lógica binária, usando, para potencializar sua eficácia , o que Ignacio
Ramonet classificou como “fascínio pelo espetáculo do evento”.
Enquanto os jornalões brasileiros dão pouco
destaque à nova ameaça, as forças navais estadunidenses preparam-se para, a
partir de 1º de julho, “supervisionar as tarefas de suas unidades na América
Latina e no Caribe.”
É o momento de amplificar o alerta de Socorro
Gomes, presidente do Conselho Mundial da Paz:
“O anúncio da recriação da Quarta Frota
norte-americana, destinada a realizar missões navais agressivas nas regiões
do Caribe, América Central e América do Sul é uma grave ameaça à paz, à
segurança e à soberania de todos os povos e nações da América Latina.
Recentemente, ao respaldar a ação militar da Colômbia em território
equatoriano, o governo estadunidense intentou dar vigência em nosso
continente aos pressupostos da guerra preventiva, uma doutrina fascista a
serviço do terrorismo de Estado”. O que os Estados Unidos anunciam é o
fomento à militarização do continente, a corrida armamentista e a ameaça
nuclear.
Para lidar com isso, além da vontade política
das forças progressistas da região, é necessário restabelecer a agenda de
uma nova ordem informativa como possibilidade contra-hegemônica. Talvez
devêssemos recuar à década de 80 para resgatar projetos que a onda
neoliberal varreu do cenário acadêmico-político dos anos subseqüentes.
O mais caro, sem dúvida, seria a retomada das
discussões em torno de uma Nova Ordem Informativa. Mesmo levando-se em conta
a mudança radical da configuração geopolítica existente à época e o
surgimento de novas meios de produção, difusão e intercâmbio de dados, a
atualidade do relatório produzido, em 1980, pela Comissão Internacional para
o Estudo dos Problemas da Comunicação (a Unesco sediou os debates) é
inconteste. Como não deixar de referendar as palavras do presidente da
comissão, Sean MacBride, no prólogo do relatório?
“Gostaria de parafrasear H. G. Wells e dizer que
a história humana se transforma cada vez mais numa corrida entre a
comunicação e a catástrofe. O emprego total da comunicação é vital para
assegurar que a humanidade venha a ter mais história (...) do que nossos
filhos tenham futuro” (Um mundo e muitas vozes)”.
É uma agenda inadiável.
*Gilson
Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio
Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, e colaborador da Hora do Povo, o Jornal
do Brasil e Observatório da Imprensa. |