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Vulnerabilidade ideológica e
hegemonia cultural - Parte 1
O embaixador Samuel Pinheiro
Guimarães, do qual já reproduzimos alguns textos, antes e depois que se tornasse
secretário-geral do Itamaraty, é um de nossos maiores intelectuais – no sentido
próprio da palavra, de homem que pensa o Brasil, ao contrário de certa cepa
colonizada, naturalmente bastante promovida pela mídia, cuja característica é,
precisamente, a de não pensar, apenas repetindo chavões e lugares-comuns
forjados em outras plagas.
É sobre isso o texto que publicamos hoje, e que terá continuação na próxima
edição. Samuel Pinheiro Guimarães mostra como a questão central da dependência
do país é a dependência ideológica de certos setores, culturalmente esmagados
pela metrópole.
A prevalecer esse esmagamento, estaríamos diante da desnaturação da identidade
nacional – e, portanto, também da impossibilidade de absorver o que de melhor
produziram outras culturas nacionais.
Esse processo está em curso no país há algumas décadas. Temos resistido
bravamente – porém, não sem seqüelas e não poucas confusões. Certamente, é para
manter a exploração econômica que a metrópole tenta manter a colônia em
submissão ideológica e promove os que se prestam ao colaboracionismo cultural.
Porém, não se trata apenas de uma questão geral. Os mesmos que no passado
pregavam uma arte sem caráter nacional, o “som universal” e outros slogans do
gênero, são os mesmos que hoje propõem que os artistas brasileiros abram mão dos
direitos sobre sua obra, para favorecer alguns poucos conglomerados da indústria
cultural externa. Seria proveitoso a esses expoentes do fim da identidade
nacional aprenderem alguma coisa com o embaixador Pinheiro Guimarães. Porém,
essa expectativa seria, provavelmente, uma perda de tempo. Deixemos então o
leitor com o texto de Samuel e seu estilo brilhante. C.L.
A sociedade brasileira se
caracteriza por crônica vulnerabilidade externa com facetas econômica, política,
tecnológica, militar e ideológica. A mais importante, pois influencia todas as
políticas e atitudes do Estado e da sociedade brasileira, e agrava as outras
facetas da vulnerabilidade externa, é a de natureza ideológica. É ela que,
através de diversos mecanismos, mantém e aprofunda a consciência colonizada não
só das elites dirigentes tradicionais como até de segmentos das oposições
políticas, intelectuais, econômicas e burocráticas. A consciência colonizada se
expressa em uma atitude mental timorata e subserviente, que alimenta sentimentos
de impotência na população, ao atribuir as mazelas brasileiras à escassez de
poder do Brasil, à incompetência brasileira, ao nosso caipirismo, ao arcaísmo
social, à xenofobia etc., enfim, à nossa inferioridade como sociedade.
A vulnerabilidade ideológica está
estreitamente relacionada com a ampla e crescente hegemonia cultural americana
na sociedade brasileira, que se exerce em especial através do produto
audiovisual, veiculado pela televisão e pelo cinema, articulado com a imprensa,
o disco e o rádio. A vulnerabilidade ideológica é de tal ordem que a opinião de
um sociólogo francês ou de um economista americano, ou os aplausos estrangeiros
a um dirigente brasileiro, ou a opinião de uma agência de análise de risco, ou
de um organismo internacional têm enorme impacto positivo ou negativo sobre a
visão das elites sobre a situação e as perspectivas do Brasil, gerando
manifestações auto-congratulatórias ou protestos de repulsa e lamentos de
decepção. A sociedade brasileira é vulnerável ideologicamente porque parte
majoritária de suas elites, ao invés de procurar governar para o povo, prefere
governar para os interesses internacionais de toda a ordem. Desejam essas elites
serem aceitas como representantes de um país normal, de uma sociedade jovem, mas
civilizada, que não confronta os interesses das Grandes Potências e com elas
colabora. As opiniões sobre o Brasil de intelectuais, políticos ou empresários
estrangeiros são recebidas com maior respeito, admiração e concordância do que
aquelas emitidas por brasileiros (a não ser quando esses refletem a opinião
estrangeira), por setores importantes da mídia a qual repercute tais
julgamentos, e pelas elites nativas de mentalidade colonial.
A vulnerabilidade ideológica faz
com que as elites intelectuais e dirigentes procurem ver sempre em modelos
estrangeiros as soluções para o subdesenvolvimento econômico, para o atraso
cultural, para o autoritarismo político, para o arcaísmo institucional
brasileiro. Vão elas buscar modelos institucionais no exterior (agências
reguladoras, Banco Central autônomo, etc.), estratégias econômicas (câmbio fixo
e sobrevalorizado, metas de inflação, etc.), teorias militares (segurança
cooperativa, etc.), modelos educacionais (o currículo escolar, o sistema de
créditos na universidade, etc.). Esquecem que esses modelos e teorias foram
desenvolvidos com base na experiência histórica de sociedades que tiveram
evolução e características distintas da brasileira. Assim, esses modelos e
teorias transplantados para o Brasil definham ou degeneram, para desespero de
seus propugnadores colonizados.
A questão da vulnerabilidade
ideológica é fundamental, pois ela se refere diretamente à coesão ou
desintegração social, à construção ou fragmentação nacional, à auto-estima ou
auto-rejeição e à própria possibilidade de êxito de uma política de
desenvolvimento econômico (não apenas de crescimento desigual), democrático (não
oligárquico e não-plutocrático) e social (cultural e espiritual) da sociedade
brasileira.
IDENTIDADE CULTURAL
A vulnerabilidade ideológica afeta
a identidade cultural brasileira. Esta identidade é fundamental para os que
admitem que a sociedade brasileira se desenvolveu em um território geográfico
específico, com uma composição étnica e religiosa distinta, com uma experiência
histórica, política e econômica única. A consciência disto é essencial para que
a sociedade possa encontrar soluções próprias para seus próprios desafios. A
vulnerabilidade ideológica e a hegemonia cultural estrangeira impedem,
dificultam e confundem os distintos segmentos da sociedade brasileira e tendem a
eliminar a consciência de suas características específicas e da própria evolução
dessas características, que é a sua história.
A consciência que a sociedade
adquire de si mesma, isto é, a consciência de cada cidadão e dos grupos sociais
sobre as características da sociedade em que vivem depende de uma representação
ideológica, que depende, por sua vez, de manifestações culturais as mais
distintas que interpretam e criam o imaginário nacional do seu passado, de seu
presente e de seu futuro. Essa criação do imaginário, dessa visão do passado, do
presente e do futuro, é, em sua quase totalidade, alheia à experiência direta
dos indivíduos. Quanto ao passado e ao futuro, porque não o viveram nem o
viverão. E quanto ao presente, porque não podem dele participar, ter a
experiência direta de todas as situações sociais pela impossibilidade da
ubiqüidade. Assim, a esmagadora maioria dos fatos e das interpretações que
conhecemos sobre o passado do próprio Brasil e do mundo depende da elaboração
intelectual e cultural de historiadores e artistas, em especial os criadores de
obras audiovisuais e literárias, por mais que sejam elas consideradas apenas
como obras de ficção. Muito daquilo que um brasileiro imagina a respeito de
situações e valores individuais e sociais é uma construção
cultural/literária/audiovisual/noticiosa, muitas vezes repleta de preconceitos e
estereótipos. Tudo o que sabemos sobre a história da sociedade brasileira não
foi vivido por nós, mas sim elaborado por terceiros.
A vulnerabilidade ideológica se
acentua com a crescente hegemonia cultural estadunidense no Brasil. Na medida em
que a elaboração, produção e difusão cultural brasileira, audiovisual ou não,
está sujeita à hegemonia cultural estrangeira, a formação do imaginário nacional
acaba se realizando de forma fragmentada e claudicante. As interpretações da
realidade mundial elaboradas pelas manifestações culturais hegemônicas
estadunidenses passam a predominar, refletindo os preconceitos e os estereótipos
daquela cultura.
A construção da identidade
cultural decorre da produção de manifestações culturais que abrangem desde as
atividades da imprensa à elaboração científica e artística, mas em especial,
devido ao seu extraordinário alcance, às manifestações audiovisuais
(documentários, filmes, séries e noticiários). A construção desta identidade não
se contrapõe à necessidade de diversidade cultural e muito menos ao diálogo com
a cultura estrangeira. Contrapõe-se, isto sim, à hegemonia das manifestações
culturais estrangeiras sobre a cultura brasileira no próprio território
brasileiro. O estimulo e o acesso à diversidade das manifestações culturais
permitiria à sociedade brasileira ter acesso a distintas e, muitas vezes,
contraditórias visões do mundo, das relações interpessoais, das questões
existenciais. A questão estratégica é, pois, imaginar mecanismos que ampliem o
acesso de todos, sejam eles artistas, intelectuais, políticos ou simples
brasileiros, à miríade de manifestações culturais brasileiras e de todas as
sociedades que constitui a diversidade cultural planetária e que fortaleçam e
enriqueçam a nossa própria identidade, combatendo a hegemonia cultural de
qualquer origem no Brasil. Trata-se de definir uma política cultural, de
comunicação e de educação, não-assistencialista, integrada e voltada para o
projeto de construção da sociedade brasileira. E para isto é indispensável
discutir a questão cultural também em seus aspectos econômicos, políticos e
sociais.
CULTURA, COMUNICAÇÃO E EDUCAÇÃO
A cultura pode ser definida em
sentido estrito como o conjunto de atividades humanas, de natureza não
utilitária, que expressam e reproduzem a experiência individual ou coletiva, a
disseminam no presente e a transmitem no tempo, de geração em geração. Sendo a
experiência humana variável no espaço, devido a circunstâncias geográficas,
étnicas, políticas e econômicas distintas, há naturalmente culturas nacionais
específicas que, todavia, não sendo estanques, se influenciam umas às outras.
Não há culturas nacionais superiores, assim como não há raças superiores, mas
pode haver um distinto modo de elaboração das manifestações culturais em
decorrência de circunstâncias históricas, do processo de acumulação de riqueza e
de conhecimento técnico-artístico em determinadas sociedades e pode haver, por
razões econômicas e políticas, maior capacidade de difusão e penetração social,
a nível global, de certas culturas.
A cultura corresponde a um
conjunto de manifestações das diversas artes tradicionais, tais como a música, a
escultura, a pintura, a literatura, a arquitetura, a dança, o teatro, o cinema e
de outras formas, como a gravura e a fotografia. As artes e as manifestações
artísticas não se identificam com o seu suporte físico nem com o seu veículo de
difusão, ainda que veículos e suportes específicos afetem a obra de arte e de
certa forma alterem o seu conteúdo e o seu impacto social, econômico e político,
e passem assim a ser de grande relevância para a definição e execução de uma
política cultural eficaz.
A cultura popular se expressa
igualmente através de manifestações das mesmas artes, porém de forma intuitiva,
artesanal, sem o mesmo domínio do conhecimento técnico e sem a aplicação estrita
de regras eurocêntricas que correspondem tradicionalmente a cada arte. Não se
trata de discutir ou decidir se a cultura erudita é superior à cultura popular,
pois elas se influenciam e têm funções sociais semelhantes. Um artista popular
pode ser capaz de refletir de forma extraordinária a experiência humana, de um
certo momento e meio social enquanto um artista erudito pode falhar nesse
propósito, apesar de seu maior domínio, digamos, das técnicas tradicionais
eurocêntricas. As características da obra de arte, da manifestação cultural, e
seu impacto dependem do nível técnico com que se realizam, mas também da
criatividade individual do artista e do alcance do veículo de difusão.
Sendo as manifestações culturais o
modo como a experiência humana, que se verifica em uma certa dimensão
geográfica, se transmite no tempo, a questão da cultura, da produção e da
difusão cultural, está estreitamente vinculada à formação e à permanência da
nação como conjunto de indivíduos, que em geral habitam um mesmo território, que
compartilham uma experiência histórica comum e que têm a aspiração de construir
um futuro comum, ainda que as visões sobre este futuro possam ser distintas.
A Nação, a sociedade, se organiza
como Estado, que pode ser definido como um conjunto de instituições que elaboram
normas, as executam e as sancionam com o objetivo de disciplinar as relações de
toda ordem entre seus integrantes para que sejam pacíficas e consensuais, e de
defender e promover seus interesses e direitos em suas relações com as demais
sociedades e Estados. O enfraquecimento da produção cultural de uma nação leva
ao enfraquecimento dos laços que vinculam seus integrantes, de sua memória do
passado e da experiência comum e de sua aspiração de construção de um futuro
compartilhado. Naturalmente que o enfraquecimento da cultura nacional diante da
hegemonia de manifestações culturais de outras sociedades, que são
necessariamente distintas e que não correspondem às experiências daquela Nação
em sua trajetória histórica, corrói sua auto-estima e enfraquece a capacidade do
Estado de promover e defender os interesses nacionais. A maior parte das imagens
que os indivíduos formam em seu consciente e inconsciente sobre as experiências
humanas individuais e coletivas e que constituem a base para suas ações não
decorre de sua experiência direta, mas sim são o resultado de informações que se
transmitem pela mídia escrita e audiovisual e que utilizam ursos artísticos,
culturais. Os valores sociais são construídos, elaborados, transformados e
destruídos através da influencia de um fluxo contínuo de manifestações culturais
transmitidas pelos meios de comunicação e difundidas socialmente.
Assim ocorre com a obra literária,
que inclui o jornalismo, com a música, com as manifestações audiovisuais, tais
como o teatro e o cinema, transmitidos pelos instrumentos da mídia que
constituem uma indústria que recolhe, produz, distribui e divulga as
manifestações culturais. Seus diferentes setores são constituídos pelas
editoras, as empresas jornalísticas, as rádios, as companhias de teatro, as
produtoras e distribuidoras de filmes para cinema e TV, as redes de televisão
aberta e a cabo etc. A obra do escritor, do músico, do diretor de cinema não tem
impacto e função social (e nem mesmo cultural) se ela não chega ao público, à
sociedade. Para que isto ocorra é necessário que se transforme em um produto, o
mais importante da atividade humana, pois alimenta o processo contínuo de
reconstrução do passado, de tempos que os indivíduos que formam a sociedade
atual não viveram; de interpretação do vastíssimo presente do qual os indivíduos
conhecem diretamente apenas ínfima parcela; e de formação de visões do futuro,
cuja forma concreta que vier a assumir dependerá desde já do que se pensa que
ele será ou que poderá ser. Assim, a manifestação cultural tem de ser
transformada em produto econômico, isto é, em resultado de processos específicos
de produção e de distribuição física para que venha a ter impacto social e
político.
(*) Samuel Pinheiro Guimarães é secretário-geral do Ministério das Relações
Exteriores do Brasil. O texto foi publicado pela Agencia Latinoamericana de
Información.
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