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BC boicota ‘fundo soberano’ para aumentar o pagamento de juros
Para Meirelles,
aumento da arrecadação, fruto
do crescimento da economia, é dos banqueiros
O sr. Henrique Meirelles reivindica um status
bastante peculiar entre os membros do atual governo. Vive a exigir que todo o
governo o apóie, inclusive reclamando ao presidente Lula quando algum ministro
ou autoridade declara que está contra ou, simplesmente, que não está totalmente
de acordo com a política jurássica do BC. Mas não se acha obrigado a apoiar as
medidas do governo – pelo contrário.
O apedrejamento do “fundo soberano” por parte
dos corifeus de Meirelles e, inclusive, pelo próprio, mostra que seria de bom
alvitre liberá-lo logo para que empreenda a sua anunciada campanha em Goiás.
Caso contrário, corre-se o risco da política econômica, dentro em breve, se
limitar meramente à aceitação dos aumentos de juros do BC – e adeus crescimento,
emprego e distribuição de renda.
Na terça-feira, incensado por tucanos e
ex-pefelistas, a que se somaram um ou outro incauto, Meirelles esteve na
Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. Disse que é a favor do aumento do
“superávit primário” (isto é, de aumentar o dinheiro que os bancos levam do
Orçamento), mas que, independente disso, as altas de juros vão continuar (“No
médio e longo prazo temos uma tendência de queda da taxa de juros. Mas isso não
quer dizer que seja uma queda linear”, de onde se conclui que, na sua opinião, a
melhor forma de baixar os juros a médio e longo prazo é aumentá-los a curto
prazo). Porém, recusou-se a apoiar o “fundo soberano”, lançado no dia anterior
pelo ministro da Fazenda, depois de aprovado pelo presidente Lula.
Meirelles passou ao largo do que havia sido
anunciado pelo governo na véspera e, quando instado a manifestar-se sobre o
assunto, disse que não era sua área, apesar de, evidentemente, a medida fazer
parte da política monetária, isto é, da mesma área que os juros, as reservas e o
BC.
Nesse dia, aquela mistura de funcionários de
bancos externos, consultores que dizem o que interessa ao especulador que lhes
paga, mal-amadas (porém bem remuneradas) que confeccionam colunas de “economia”,
e outros tipos exóticos, protagonizava um ataque de nervos com o governo por
causa do “fundo soberano”. Porém, Meirelles preferiu juntar-se à sua trupe do
que defender o governo.
MAL-AMADAS
Alguns acabaram revelando o que lhes incomodava,
ao chamar o “fundo soberano” de “BC paralelo”. Ou seja, o problema é que uma
parte da política monetária – muito pequena, mas mesmo assim uma parte – está
sendo tocada pelo Ministério da Fazenda e pelo Tesouro Nacional, que será o
administrador do “fundo”, em vez do BC. Naturalmente, queriam que o BC, e,
portanto, Meirelles, fossem os únicos a dar palpite sobre o assunto, como até
agora. Concretamente, postulavam para Meirelles o poder absoluto sobre a
política econômica, acima do presidente da República. E, como Meirelles apenas
sabe aumentar juros, desconhecendo-se nele outro talento, querem que tenha poder
absoluto para aumentar os juros.
Certamente, as demonstrações de hidrofobia não
foram devidas aos defeitos e insuficiências - que, evidentemente, existem - da
proposta do ministro Mantega. Por outro lado, reclamam que o governo não
aumentou o “superávit primário” - ou seja, não aumentou a parcela do Orçamento
destinada aos juros.
EXCEDENTE
Aí está a questão. Segundo o ministro da
Fazenda, o “fundo soberano é como um cofrinho. Você ganha o salário, faz as
despesas e sobram recursos. Aí você coloca no cofrinho. Vamos colocar no
cofrinho o excedente”. Isto é, ele está propondo colocar no fundo os recursos da
arrecadação de impostos que ultrapassarem a meta atual do “superávit primário”,
equivalente a 3,8% do PIB.
Aumentar o “superávit primário” é destinar aos
bancos o aumento da arrecadação, ou seja, desviar esse aumento, ou parte dele,
para os juros. Pela proposta anunciada na segunda-feira, esse aumento da
arrecadação, proporcionado pelo crescimento da economia, iria para um fundo,
cuja principal função seria a de financiar empresas brasileiras no exterior.
Portanto, a elevação do que é arrecadado da população através dos impostos não
iria aumentar o que os bancos recebem por conta da dívida pública.
No entanto, os bancos que especulam com os
títulos dessa dívida consideram que o aumento de arrecadação é uma propriedade
sua – não pode ter outro destino senão os seus cofres. Daí a fúria dos
leões-de-chácara dos monopólios financeiros – inclusive de Meirelles, não
apoiando nem mesmo protocolarmente a proposta do governo de que faz parte.
Depois de seu depoimento no Senado, as apostas
em torno do próximo aumento de juros começaram a roçar a estratosfera. No dia
seguinte, quarta-feira, no chamado “mercado futuro”, a expectativa era que o
Banco Central, na próxima reunião do Copom, aumentasse os juros básicos em 0,75.
No entanto, a mídia, os consultores (e as
mal-amadas) atribuíram essa explosão nas apostas sobre juros ao fato de que o
ministro da Fazenda não anunciou um aumento do “superávit primário” na
segunda-feira, apesar do “fundo soberano”, ao capturar o crescimento da
arrecadação de impostos, frear o aumento de gastos do governo – o que eles, há
meses, vinham propugnando como única medida capaz de impedir um fantástico surto
inflacionário e fazer os juros descerem do poleiro.
Mas, 48 horas depois que o governo anunciou o
fundo e 24 horas depois que Meirelles depôs no Senado, as previsões de juros
dispararam. É evidente que só poderiam disparar, com o presidente do BC dizendo
publicamente que, aconteça o que acontecer, os juros vão ser aumentados.
O “fundo soberano” é, implicitamente, uma
tentativa de impedir a alta de juros sem enquadrar o BC. A lógica é combater uma
suposta inflação retirando recursos que o governo poderia gastar. Assim, não
seriam necessários novos aumentos de juros.
Mais importante do que assinalar que essa lógica não é muito lógica, é notar que
a disparada de juros que Meirelles está abertamente fomentando faria o governo
gastar mais com eles – e, portanto, sobrar menos recursos para o “fundo
soberano”.
Certamente, a forma mais eficaz de baixar os juros é baixar os juros.
Naturalmente, ela não é possível com Meirelles à solta no BC. Mas, com
Meirelles, outra maneira também é impossível.
CARLOS LOPES |