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CUT: “Povo boliviano
respalda Evo contra separatistas a serviço do imperialismo”
Recém-chegado da Bolívia, onde esteve em La Paz e El Alto
representando a CUT, o professor Júlio Turra faz um relato sobre o que viu:
o imenso respaldo popular às nacionalizações das empresas de telefonia,
petróleo e gás, e a tentativa da oligarquia boliviana, submissa ao capital
multinacional, de transformar o país em outro Kosovo - com o apoio e
financiamento do governo norte-americano.
O
que pensam os bolivianos neste momento de intensa luta política?
Estive na Bolívia, em La Paz, desde o Primeiro de Maio,
quando falei em nome da CUT no ato realizado pela COB (Central Operária
Boliviana), expressando a solidariedade à luta dos trabalhadores, do povo
oprimido da Bolívia e do governo Evo Morales contra a ameaça de divisão do
país. Essa ameaça iria se expressar no dia 4 de maio num referendo ilegal e
inconstitucional que a oligarquia de Santa Cruz realizou. Nas manifestações
de massa ocorridas em La Paz, Oruro, Cochabamba e em várias regiões do país,
o centro era a defesa da nação contra a divisão.
Por
aqui, a mídia voltou à carga contra Evo. O que viste por lá?
A imprensa brasileira praticamente só deu destaque ao
ocorrido em Santa Cruz. Neste dia em toda a Bolívia, milhões saíram às ruas
convocados pelas suas organizações populares, sindicais, juvenis,
camponesas, indígenas, para proclamar a uma só voz: viva a Bolívia unida,
abaixo o referendo ilegal e os estatutos autonômicos da oligarquia de Santa
Cruz. Meio milhão de manifestantes em Cochabamba, outro meio milhão em El
Alto, dezenas de milhares em Potosi, Oruro, La Paz, expressando uma
resistência, uma disposição de luta em defesa da unidade da nação que também
se expressou em Santa Cruz. Neste Departamento, em várias localidades como
Yacapani, San Julian, San Pedro, Cuatro Canãles, se impediu inclusive a
entrada das urnas e não ocorreu votação. No principal bairro da capital
Santa Cruz de la Sierra, Plano 3.000, a votação teve de ser interrompida
devido às mobilizações de massa, da população que resistia a um bando
fascista chamado União Juvenil Cruceñista, que queria forçar o povo a votar.
Neste movimento de resistência, se queimaram urnas e,
casualmente, se descobriram urnas que já estavam completamente cheias,
grávidas como costumamos dizer no movimento sindical, com votos marcados
pela opção Sim. Isso só demonstra a fraude organizada neste plebiscito ao
arrepio da lei pela Corte Departamental local, sob controle das famílias
oligárquicas de grandes latifundiários e empresários da região de Santa
Cruz.
O
governo dos EUA enviou para ser embaixador na Bolívia o responsável pela
criação de Kosovo.
O presidente Chávez denunciou de maneira muito contundente
no seu programa Alô Presidente que é um plano que não pára na Bolívia. É
mais global e visa deter os processos de transformação revolucionária em
curso no continente com a arma que já foi utilizada, por exemplo, contra a
Iugoslávia e várias nações africanas, provocando a divisão da nação, criando
mini-republiquetas como Kosovo, que passam a ser plataformas de dominação do
imperialismo.
Como
reagiu o povo?
Uma das palavras de ordem cantadas por exemplo em La Paz
era “Bush, cabrón (fdp), Bolívia no es Kosovo!”. De todo modo é preciso
constatar - e ao se dirigir à nação na noite do dia 4 de maio o presidente
Evo Morales declarou isso -, que os dados que são manipulados pela imprensa,
de um referendo fraudulento, ilegal. Toda pressão, chantagem, humilhação,
ameaças de demissão - os patrões obrigaram empregados a comprovar que tinham
votado - não impediu que houvesse uma abstenção enorme, de 39%, e são dados
apresentados pelo próprio Comitê Eleitoral de Santa Cruz. Além disso, 15%,
aproximadamente, disseram não, além dos votos nulos e brancos. Ou seja, no
mínimo, metade do Colégio Eleitoral não foi votar. E é importante saber que
a palavra de ordem de todas as organizações populares e do MAS (Movimento Ao
Socialismo), partido que está no governo, era não ir votar, para não
legitimar o referendo. Mesmo assim, 15% votaram não, provavelmente pessoas
que foram obrigadas a votar pelos seus patrões e não tinham outra
alternativa. Então se somarmos a abstenção aos votos nulos e brancos, em
relação ao corpo eleitoral de 930 mil inscritos, mais da metade não apoiou
os estatutos autonômicos.
Na
prática, o que significam os tais estatutos?
Eles estabelecem algo muito mais do que uma simples
autonomia. O governador do Departamento passaria a ter funções de chefe de
estado, inclusive de conceder ou não asilo político, imagine você. De
estabelecer relações bilaterais com outros países sem consultar o governo
central, entrega ao governador do Departamento a questão que é essencial no
Oriente boliviano, a chamada Meia Lua, que é a questão das terras.
E a
reforma agrária?
O governo tentou pouco antes do referendo dar início ao
processo de reforma agrária nos latifúndios do Oriente e os representantes
governamentais foram expulsos por jagunços armados pela oligarquia. Então no
fundo está a manutenção de privilégios de empresários associados às
multinacionais e grandes proprietários de terra. Obviamente esses estatutos
autonômicos também batem de frente com as medidas progressistas que o
governo Evo Morales tomou no terreno das nacionalizações.
E as
comemorações do Dia do Trabalhador?
No Primeiro de Maio, fato muito
importante, que ajuda a construir a unidade contra essa oligarquia vendida,
foi a presença do principal dirigente da COB ao lado de Evo Morales, diante
do palácio de governo, em La Paz, afirmando a unidade necessária de todos os
movimentos sociais, junto com o governo, para impedir a implosão da Bolívia.
Nesta mesma data, Evo anunciou não só medidas de proteção aos dirigentes
sindicais, como novas nacionalizações, a da Entel, que é a principal empresa
de telecomunicações na Bolívia, cuja maioria das ações era de uma
multinacional italiana, e o controle pelo Estado de quatro petroleiras que
não haviam se adaptado ao decreto de 2006, de nacionalização do petróleo.
LEONARDO SEVERO |