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McCain quer
Liga de ‘Democracias’ para “privatizar sanções” a países
O candidato
de Bush a presidente acha que sua Liga deveria atuar à margem da ONU e
intervir em Myanmar, Zimbábue, Sérvia e Ucrânia. McCain dá outra senha: “as
reservas de petróleo do mundo estão nas mãos de ditadores e estatais de
petróleo”
O candidato de Bush à presidência dos EUA,
senador John McCain, anunciou, em discurso de campanha em Los Angeles, e em
artigo da revista “Foreign Affairs”, sua pretensão em substituir a ONU por
uma “Liga das Democracias” para agir em todos os continentes sob as ordens
da Casa Branca. Anteriormente, McCain havia apregoado,em Nova Hampshire, sua
vontade de “100 anos” de ocupação do Iraque.
A proposta é, antes de tudo, uma confissão do
isolamento dos EUA no mundo inteiro e particularmente na ONU, sob os oito
anos de agressões promovidas por W. Bush, e uma admissão da dificuldade de
mudar esse quadro. Para a tal “Liga” democrática global, McCain citou as
tropas dos EUA atoladas no Afeganistão, com tropas inglesas, holandesas,
canadenses, lituanas, alemães, polonesas e outras menos votadas da Otan.
Possivelmente por um lapso de memória, ele se esqueceu das tropas e
minguados aliados no Iraque, mas se lembrou dos militares ianques que estão
servindo junto à Austrália, Nova Zelândia, Japão, Filipinas e Coréia do Sul.
O problema - assinalou McCain - é que “essas
tropas não são todas elas parte de uma estrutura comum”. Elas não trabalham
“todas juntas sistematicamente” para fazer frente aos desafios comuns,
acrescentou. Portanto, a “Liga das Democracias” seria uma “Liga das tropas”
- comandadas por McCain. A lacuna, asseverou o candidato republicano, já
teria começado a ser preenchida “pela Otan e suas parcerias na Ásia e por
toda a parte”, mas era preciso “ir além”. “Uma organização comum, a ‘Liga
das Democracias’ global”. Provavelmente para evitar confusões com a falida
“Liga das Nações” do presidente Wilson, McCain esclareceu que não seria
essa, mas uma “organização similar” à do “visionário Theodore Roosovelt”.
Presidente dos EUA que ficou na história mais conhecido por sua “diplomacia
das canhoneiras”. Que tinha muito mais canhoneira que diplomacia.
SERVENTIA
Quanto à serventia de tal “Liga”, ele começou
pelo Irã. Afirmou que, “se a ONU não está disposta a agir”, os EUA devem
liderar um grupo de países para “impor sanções multilaterais efetivas – como
restrição à exportação de gasolina refinada -, fora da estrutura da ONU”.
Propôs, ainda, “privatizar as sanções com uma campanha de desinvestimento
que isole e deslegitime o regime de Teerã”. Elucidou que a “opção militar”
permanecerá “sobre a mesa”. Dito isso, anunciou que irá estabelecer “uma
área de livre comércio de Marrocos ao Afeganistão”.
A “Liga” – exemplificou - poderia “atuar onde a
ONU falhasse”: aliviando o “sofrimento humano” na província sudanesa cheia
de petróleo de Darfur; “provendo acesso desimpedido de mercado”; “moldando
melhores políticas para enfrentar crises ambientais”; e “tomando outras
medidas inalcançáveis pelos sistemas universal e regionais existentes”.
Comparando-a a uma “aia única da liberdade”, McCain sugeriu intervenções em
Myanmar, Zimbábue, Sérvia e Ucrânia. “Se eu for eleito presidente, durante
meu primeiro ano de mandato, convocarei uma cúpula das democracias mundiais
para realizar essa visão – tal como a América liderou a criação da Otan seis
décadas atrás”. Ele só não antecipou como, com seu próprio exército
desmoralizado no Iraque e no Afeganistão, vai conseguir botar cabresto no
mundo inteiro e fazer de todos carne-de-canhão. Ele se esquivou, também, ao
atual debate na Otan, sobre a ameaça de falência, dado a falta de empenho
dos governos europeus em enfiarem mais tropas nos buracos criados por
Washington.
GOLFO
PÉRSICO
No final desse texto, McCain abriu o jogo,
finalmente, sobre a “importância” da sua “Liga das Democracias”. “A
dependência da América em petróleo estrangeiro constitui uma vulnerabilidade
estratégica crítica”, afirmou, acrescentando que o país gasta “25% da
demanda global por petróleo, mas possui menos de 3% das reservas mundiais
provadas”. A maior parte das reservas conhecidas de petróleo, reclamou,
“estão no Golfo Pérsico, nas mãos de ditadores ou companhias estatais de
petróleo”. Dito isso, prometeu ter como “estratégia na área de energia” uma
“declaração de independência” diante do petróleo dos sheiks. Dada sua
vontade de ficar “100 anos” no Iraque, deve ser a mais pura verdade. A
propósito, após acusar a “revanchista Rússia” de “manipular a dependência da
Europa de gás e óleo”, McCain propôs sua expulsão do G-8, e um cerco da Otan
ao país, “do Mar Báltico ao Mar Negro”. Quanto à China, exigiu que
abandonasse sua política “go-it-alone” às fontes de energia mundiais; e que
fosse “um parceiro econômico responsável” (provavelmente comprando títulos
do Tesouro dos EUA). De acordo com McCain, a rapinagem do mundo inteiro
pelos magnatas dos EUA seria um propósito divino, já enunciado por Truman, e
inclusive antecipado por Thomas Jefferson e Alexander Hamilton.
ANTONIO PIMENTA |