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Vulnerabilidade ideológica e
hegemonia cultural - Parte 2
“Assim como nos mercados de
produtos de consumo cabe ao Estado impedir a monopolização, a oligopolização, a
formação de cartéis e a prática de concorrência desleal, no interesse de
proteger o consumidor individual de preços abusivos e a sociedade da geração de
lucros excessivos, com maior razão cabe a ação do Estado nos mercados culturais
onde os produtos, além de sua importância econômica, têm uma importância
política fundamental”, considera o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães,
secretário geral do Ministério das Relações Exteriores, na última parte do
artigo que começamos a publicar em nossa edição anterior.
A Nação não se realiza
plenamente sem uma economia, um Estado e, antes de tudo, sem uma cultura
próprias. Cabe ao Estado nacional – e só ele tem essa condição, por organizar
coletivamente o conjunto dos membros na nacionalidade – impedir que a nação
desapareça, com a sua cultura, a sua economia e, inclusive, o próprio Estado,
tornados apêndices de outras culturas, economias e Estados.
Porém, aponta o embaixador,
“a sociedade brasileira se encontra hoje sob a hegemonia cultural estrangeira,
em especial da produção cultural estadunidense, devido à incompreensão, à miopia
e à omissão dos governos em relação à política cultural, de comunicação e de
educação. Essa omissão de política cultural, ou melhor, essa miopia em relação à
função política da cultura e às inter-relações entre produção cultural,
estruturas econômicas de produção e de comercialização cultural, fizeram que, em
nome da liberdade de expressão e de manifestação cultural se condenasse a ação
corretora do Estado e se permitisse a formação e a ação de estruturas
oligopolísticas”.
É exatamente essa situação
que é necessário, hoje, superar.
C.L.
SAMUEL PINHEIRO GUIMARÃES*
A maior parte dos produtos de
consumo, tais como geladeiras, sapatos e automóveis, tem efeito político e
social diminuto sobre o consumidor e seu valor social corresponde ao de seu
suporte físico, que resulta do seu processo produtivo, que empregou fatores de
produção e gerou renda. O suporte físico do produto cultural, ao contrário, tem
um valor infinitamente inferior ao seu valor cultural e a seu valor econômico.
Basta comparar o valor do papel em que está impressa uma obra literária, o valor
da película onde está registrado um filme ou o valor do mármore de uma escultura
para se constatar esta divergência.
O valor social do produto cultural
não se esgota com o seu consumo individual, mas se reproduz no tempo, enquanto o
valor social de um produto comum se esgota com o seu consumo. A manifestação
cultural transformada em produto cultural tem um custo de produção e, portanto,
gera emprego e renda, e tem um mercado onde se confrontam as empresas que o
comercializam e onde se encontra com o seu público.
Os mercados para os diversos produtos culturais têm características muito
distintas e podem vir a ser, com maior ou menor intensidade, oligopolizados, e a
sofrer distorções decorrentes de práticas de concorrência desleal e assim a
permitir margens de lucro extremas. Sem a compreensão do produto cultural como
um fenômeno cultural/econômico/político complexo não é possível a definição de
uma política cultural que leve em consideração o extraordinário potencial de
geração de emprego, de lucro e de divisas da produção e da distribuição
cultural, mas também seu papel político fundamental de formação do imaginário
social, da vitalidade da nação e do poder do Estado.
A produção cultural tem
importância fundamental na política internacional. Nem mesmo os principais
dirigentes e intelectuais da nação mais poderosa do mundo têm conhecimento
direto de mais do que uma parcela ínfima da miríade de eventos que ocorrem a
cada dia em cada sociedade. Todas as decisões desses dirigentes que afetam
profundamente a realidade são tomadas a partir de informações e de elaborações
culturais que interpretam eventos e que os transmitem através de manifestações
culturais sob a forma de livros, filmes, notícias, relatos, fotografias e que
vão formar o seu imaginário em confronto com sua experiência pessoal limitada e
sua capacidade teórica de processar informações e de encaixá-las em uma visão de
mundo.
Assim, as imagens dos países,
inclusive de seu próprio, das sociedades, dos Estados e de seu poder são
formadas através de um vasto e contínuo processo multifacetado de elaboração
cultural que gera nos diferentes setores sociais essas imagens. A própria
ausência de imagem própria ou a existência de imagem distorcida, fragmentada ou
incompleta afeta não somente as decisões de dirigentes de terceiros Estados em
suas relações com o Estado cuja imagem é fraca, mas também a própria sociedade
desse Estado, com efeitos sobre sua auto-estima, sua capacidade de apoiar seus
dirigentes e a capacidade desses dirigentes de agir para enfrentar os seus
desafios internos e externos.
Daí a importância que as grandes
potências, e em especial os Estados Unidos, conferem à sua indústria cultural
lato sensu e a prioridade que atribuem ao objetivo de garantir o livre acesso de
seus produtos culturais aos mercados culturais de todos os países - ou seja, ao
acesso a todas as estruturas e meios de produção e de difusão de produtos
culturais e de formação do imaginário das sociedades de terceiros países, com
objetivos de natureza cultural, econômica e também política.
FINS POLÍTICOS
Nos mercados culturais, a
estrutura dos mercados e suas características específicas de produção e
distribuição fazem com que as dimensões das empresas tenham, como em mercados de
produtos normais, enorme importância. Assim como nos mercados de produtos de
consumo cabe ao Estado impedir a monopolização, a oligopolização, a formação de
cartéis e a prática de concorrência desleal, no interesse de proteger o
consumidor individual de preços abusivos e a sociedade da geração de lucros
excessivos. Com maior razão cabe a ação do Estado nos mercados culturais onde os
produtos, além de sua importância econômica, têm uma importância política
fundamental.
Cabe ao Estado garantir a livre
competição em cada mercado cultural com muito mais rigor do que nos mercados de
produtos comuns de consumo, tendo em vista os efeitos sociais e políticos dos
produtos culturais sobre a sociedade, com os objetivos de evitar a hegemonia
cultural de outras sociedades; de estimular a mais ampla e diversificada troca
de informações culturais com o exterior; de promover a produção cultural
doméstica, única capaz de fortalecer e articular o conhecimento da sociedade de
si mesma, o qual é indispensável para a formulação de um projeto de futuro e
para definir a estratégia e os meios físicos e políticos para implementá-lo, em
especial em grandes Estados da periferia como o Brasil.
A sociedade brasileira se encontra
hoje sob a hegemonia cultural estrangeira, em especial da produção cultural
estadunidense, que decorre das estruturas de mercado que se criaram ao longo do
tempo, devido à incompreensão, à miopia e à omissão dos governos em relação à
política cultural, de comunicação e de educação. Essa omissão de política
cultural, ou melhor, essa miopia em relação à função política da cultura e às
inter-relações entre produção cultural, estruturas econômicas de produção e de
comercialização cultural, fizeram que, em nome da liberdade de expressão e de
manifestação cultural se condenasse a ação corretora do Estado e se permitisse a
formação e a ação de estruturas oligopolísticas. Ao mesmo tempo se mantinha
viva, porém em estado de asfixia, a produção cultural brasileira, sem criar os
instrumentos que permitissem sua competição com a produção cultural estrangeira
que, ao se realizar e se difundir através de megaempresas multinacionais,
oligopoliza o mercado consumidor pelo exercício de controle e influência sobre
as estruturas de difusão cultural, tais como editoras, gravadoras, exibidoras e
redes de televisão.
O Estado brasileiro tem limitado
sua ação a um modesto apoio assistencialista, colonizado e envergonhado à
produção cultural de elite ou de pequeno impacto social através de isenções
fiscais, sem se preocupar em promover e garantir a livre competição nos mercados
culturais de massa, onde se forma o imaginário social, essência da própria
existência da Nação brasileira e da possibilidade desta se organizar para
enfrentar seus extraordinários desafios e realizar seu potencial.
QUESTÃO DE EDUCAÇÃO
A questão do imaginário social e, portanto, da política cultural e de
comunicação está profundamente vinculada à questão do sistema educacional. Esse
sistema tem sido articulado pelo governo como um processo de formação de
indivíduos como produtores de maior ou menor qualificação técnica e não como um
processo de formação de cidadãos. Os valores transmitidos pelo sistema
educacional são os valores da produção material e da maximização do consumo
individual, do ser humano como unidade de trabalho e não como cidadão político
solidário, digno de uma vida espiritual superior, para além dos programas
degradantes e idiotizantes de televisão, atividade que consome em média mais de
quatro horas diárias do cidadão brasileiro.
Se deduzirmos o tempo médio de
trabalho, de transporte, de alimentação e de repouso quatro horas significam
mais de 80% de seu tempo diário, digamos livre. Este é o tempo de que pode
dispor para seu aperfeiçoamento como cidadão, como trabalhador e como ser
humano. Esse tempo foi capturado pela televisão, que os Estados e os governos
têm tratado como uma atividade econômica normal e não como um veículo com
influência extraordinária sobre a sociedade e seu imaginário. No Brasil, a
situação se agravou com a emenda constitucional que permitiu a participação do
capital estrangeiro na propriedade dos veículos de comunicação e com a ausência
de regulamentação do artigo 221 da Constituição Federal que se refere à
programação das emissoras de rádio e televisão.
Por outro lado, quaisquer que
sejam os métodos, a qualidade e os esforços utilizados para aperfeiçoar o
sistema educacional formal, são eles frustrados, pois as crianças e os jovens
utilizam grande parte de seu tempo fora das salas de aula em frente à TV de
programação mais ou menos comercial, mas onde há um permanente ainda que difuso
processo de transmissão de um imaginário estrangeiro, além de estímulos ao
consumo conspícuo, ao individualismo, à violência, à banalidade e ao culto do
corpo.
Assim, a escola tem de ser reconstruída como o veículo de transmissão de valores
culturais brasileiros enquanto a televisão e os meios de comunicação em geral
podem e devem ser estimulados a diversificar sua programação de modo a ampliar a
gama de influências culturais brasileiras e estrangeiras a que deve ter acesso a
sociedade brasileira, e assim ampliar sua margem de escolha e de reflexão sobre
os valores sociais.
Os recursos da coletividade, que
são arrecadados através de impostos, devem estar a serviço de uma política
cultural que amplie a competição entre produtos culturais de diferentes origens,
estimule a produção cultural brasileira e diversifique as influências culturais.
Aquelas empresas de produção e difusão cultural que não desejem diversificar a
origem dos produtos culturais com que trabalham e que desejem privilegiar a
produção cultural estrangeira podem e têm o direito de fazê-lo, mas com seus
próprios recursos e não com os recursos da coletividade.
PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO
É necessário distinguir, na
elaboração de uma política cultural, os aspectos de preservação do patrimônio
material e imaterial, de apoio e estímulo à produção cultural dos artistas da
ação junto às empresas de produção e difusão cultural de massa para estimular a
diversidade cultural e impedir a hegemonia de manifestações culturais de uma
origem específica sobre a manifestação cultural brasileira em cada setor. Os
estímulos à preservação do patrimônio e à produção cultural individual não terão
impactos sociais, políticos e econômicos se não forem conjugados com a
possibilidade de sua difusão através dos veículos econômicos.
A atual legislação de concessão de
isenções fiscais a empresas para investimentos em atividades culturais (as leis
Sarney, Rouanet, a legislação audiovisual) possibilitam modestos recursos
sociais à produção cultural, mas não garantem sua difusão e, portanto, o
cumprimento de sua função social.
A distinção entre manifestações
culturais de público restrito e manifestações culturais de massa não pode ser
feita de forma absoluta, pois não somente as manifestações culturais se
influenciam umas às outras de forma muito importante como às vezes se combinam
ou servem umas de matéria-prima para outras. Assim, a manifestação cultural de
público restrito, como, por exemplo, uma obra literária, pode servir de
matéria-prima para manifestações culturais de massa, como o filme e a novela de
televisão.
Uma política cultural eficaz deve
estar articulada com as políticas de comunicação e educação e deve ter como seu
objetivo estratégico permanente a redução da hegemonia cultural de qualquer
manifestação estrangeira face à produção cultural brasileira e a ampliação da
diversidade de oferta cultural à disposição da sociedade brasileira. Além das
diversas medidas e da legislação hoje existente, que devem ser aperfeiçoadas,
podem ser imaginadas diversas ações na área da difusão cultural.
A legislação pode e deve
estabelecer tratamento fiscal diferenciado e mais favorável às empresas
produtoras e às empresas difusoras de produtos culturais que em suas atividades
e programação ampliassem a participação das manifestações culturais brasileiras.
O BNDES, um dos maiores bancos de investimento do mundo, pode e deve estabelecer
linhas de crédito especiais para financiar investimentos e a operação de
empresas que assumam o compromisso de diversificar sua atividade de produção e
difusão cultural e de garantir a igualdade de participação do produto cultural
brasileiro face ao produto cultural de qualquer outra origem. A legislação pode
e deve estabelecer limite máximo de ocupação do mercado para produtos
audiovisuais quando há situações de oligopólio e integração vertical com risco
não só de hegemonia cultural como de exclusão do produto cultural brasileiro. O
limite do número de cópias por lançamento de filme é um exemplo desse tipo de
medida.
Na área da educação, a legislação
deve ampliar gradativamente o número de horas de permanência dos estudantes na
escola para reduzir sua exposição à TV assim como incluir entre as atividades
escolares obrigatórias a programação cultural brasileira e fornecer os meios a
cada escola pública e privada de ter acesso a videotecas básicas, a discotecas
básicas e a bibliotecas básicas. A instituição de concursos públicos, nos
diversos níveis de ensino, sobre temas culturais brasileiros, com prêmios para
professores e alunos, e a difusão por meios de comunicação de massa de seus
resultados, estimulariam o uso daquele material. O ato de prestigiar de forma
sistemática os produtores e difusores culturais brasileiros com a presença das
mais altas autoridades brasileiras a eventos culturais significativos, assim
como hoje prestigiam atletas, teria grande importância simbólica.
Na esfera internacional, a
organização de concursos internacionais de música e literatura, com prêmios
significativos, sobre temas, autores e compositores brasileiros, teria
importante impacto para o conhecimento da cultura brasileira, dentro e fora do
Brasil, com conseqüências relevantes para a formação da imagem do Brasil.
Finalmente, toda a atenção deve
ser prestada para evitar a participação do Brasil em acordos internacionais,
regionais ou multilaterais, de cunho aparente apenas econômico cuja conseqüência
seja limitar ou eliminar a possibilidade do Estado de ter instrumentos de
política para promover a diversidade cultural a que deve ter acesso a sociedade
brasileira e estimular as manifestações culturais brasileiras e, portanto, a
formação do imaginário social e a auto-estima brasileira, indispensáveis a um
projeto de desenvolvimento econômico, político e social mais justo e mais
duradouro.
(*) Samuel Pinheiro Guimarães é secretário-geral do Ministério das Relações
Exteriores do Brasil. O texto foi publicado pela Agencia Latinoamericana de
Información.
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