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Sucesso de Obama
reflete
o crescimento dos EUA
JESSE JACKSON*
No dia 28 de agosto, 45 anos depois do histórico
discurso de Martin Luther King em Washington, Barack Obama será nomeado
candidato presidencial do Partido Democrata, em Denver.
A iminente vitória de Obama reflete não
simplesmente o triunfo da esperança e do desejo por mudanças. Ela revela que o
EUA cresce, se renova e se torna melhor.
Obama tem dons especiais. Ele concorreu em uma
extraordinária campanha contra todas as probabilidades mas se apoiou nos ombros
de gigantes. Essa tem sido uma longa campanha, mas a jornada até a chegada deste
dia foi ainda mais longa.
O discurso de King, em 1963, foi um passo desse
incessante movimento. Depois da decisão da Suprema Corte de 1954 no caso Brown
versus Conselho de Educação, em que declarou ilegal a segregação, o povo se
manteve cético de que algo fosse mudar. Mas muitos começaram a se mobilizar.
Então, em 28 de agosto de 1955, Emmet Till,
adolescente de 14 anos de idade, foi assinado por ter assobiado para a esposa
branca de um lojista, na cidade de Money, no Mississipi. Till, que morava em
Chicago, estava passando o verão com seu tio. Seus assassinos arrancaram seus
olhos, atiraram em sua cabeça, usaram arame farpado para enrolar uma faixa em
volta de seu pescoço e atiraram seu corpo no Rio Tallahatchie. Indignada, sua
mãe, Mamie Till, trouxe seus restos de volta a Chicago e exigiu que o funeral
fosse feito com caixão aberto. As informações foram de que 50 mil pessoas
passaram por seu corpo. O protesto de Mamie Till eletrificou os afro-americanos,
mesmo quando os assassinos foram absolvidos por um júri branco do Mississipi.
Três meses depois, Rosa Parks recusou-se a se
levantar do assento de um ônibus. Quando a perguntei como ela lidou com as
ameaças que se seguiram, ela disse que pensava em Emmet Till. Ela havia visto
uma foto de seu corpo e tinha dificuldade de dormir à noite, de tanta dor. Ela
decidiu que era hora de agir. King, um jovem pastor, veio em sua ajuda. O
boicote aos ônibus de Montgomery trouxe o movimento dos direitos civis à atenção
da Nação.
Em 28 de agosto de 1963, quando King nos
transmitiu seu sonho, o Sul continuava segregado. Nem mesmo a Lei dos Direitos
Civis ou o direito ao voto haviam sido aprovados. A marcha a Washington se
realizou em um momento de luta, de espancamentos e prisões, de inocentes
sacrificados e heróis tombados. Mas King decidiu olhar além da agonia do momento
para vislumbrar um novo dia, a esperança do que poderia ser.
Agora, 45 anos depois, a vitória de Obama é um
testamento não simplesmente de suas singulares habilidades, mas da luta e do
sacrifício de décadas, de muitos heróis comuns, frequentemente esquecidos.
Os EUA não são uma Nação perfeita. A raça ainda
nos divide. O fosso entre pobres e ricos continua aumentando. Nós desperdiçamos
nossa riqueza em guerras ilegítimas e em prioridades erradas.
Mas a glória da América é que ela não é
perfeita, mas que estamos crescendo. Para isto precisamos de líderes corajosos e
lutadores independentes, lideranças não impostas de cima pra baixo, mas que
surjam de baixo para cima. King galvanizou uma Nação, mas seu movimento depende
da coragem e do sacrifício dos cidadãos americanos anônimos, brancos e negros,
decididos a se levantar contra grandes desigualdades, a se manterem
disciplinados diante da brutal reação, e seguirem adiante mesmo quando a
escuridão parecia impedir a luz.
Nós tivemos uma agitada primária. Nós
enfrentaremos o que será uma selvagem eleição geral, que já se caracteriza por
grandes esforços para nos dividir. Mas não podemos esquecer de apreciar o quão
longe nós chegamos. E quantos nos ajudaram a chegar até aqui.
*Reverendo
Jesse Jackson, um dos principais colaboradores de Martin Luther King na luta
pelos direitos civis, é ex-senador e ex-candidato à indicação do partido
Democrata para concorrer à presidência dos EUA |