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Redução da jornada não é
ameaça à competitividade
ARTUR HENRIQUE
Nesta campanha nacional pela redução da jornada de
trabalho sem redução de salários, nós todos que queremos a mudança devemos nos
preparar para rebater um argumento que, com certeza, o empresariado mais
retrógrado vai usar frequentemente, com a inestimável ajuda de seus
representantes na imprensa.
Vão dizer que a redução da jornada de trabalho de 44 para
40 horas semanais reduzirá a competitividade da indústria brasileira e também do
setor de comércio e serviços, o que vai prejudicar nossa capacidade de exportar.
Na visão deles, a redução aumentaria o custo da mão-de-obra de tal maneira que
os preços de nossos produtos de exportação seriam altos demais.
É MEN-TI-RA. Alguns dados muito consistentes contrariam
frontalmente a tese dos empresários.
Um dos mais contundentes refere-se ao conceito de
competitividade. É preciso lembrar que sequer o Fórum Econômico Mundial (aquele
de Davos e um dos mais neoliberais instrumentos do empresariado) considera os
baixos salários como fator positivo na hora de medir a competitividade de uma
economia nacional.
Portanto, nem mesmo com a redução da jornada, e o acréscimo
do custo decorrente da medida, a economia brasileira perderia competitividade
aos olhos dos órgãos internacionais. Nada como esgrimir um ícone do adversário
como forma de desarmar seu discurso.
A favor da redução da jornada ainda há os números que
retratam a realidade do trabalho no Brasil. Nos últimos 15 anos, a produtividade
da economia brasileira cresceu 150%. Este dado faz parte de uma tese de
doutorado defendida junto à Unicamp, em 2006, pelo economista do Dieese Cássio
Calvete, intitulada “Redução da Jornada de Trabalho: uma Análise Econômica para
o Brasil”.
Há, portanto, uma enorme camada de gordura no item
competitividade. A redução da jornada em 4 horas, ainda segundo o mesmo estudo e
com base em números da CNI (Confederação Nacional da Indústria), elevaria os
custos da mão-de-obra em 1,99%. Este índice é semelhante à elevação que a
produtividade vem registrando, por semestre, ao longo dos anos 2000. Isso quer
dizer, simplesmente, que esse custo seria absorvido em apenas seis meses.
Outro dado revelador diz respeito aos salários no Brasil em
comparação a seus 20 maiores parceiros comerciais. O poder de compra do salário
mínimo em nosso país, apesar das recentes recuperações, só é mais alto que o da
Rússia. Em todos os outros 19 países com que trocamos mercadorias, o poder de
compra do mínimo é maior. Incluindo em Xangai, região mais industrializada da
China.
O mesmo vale para os salários médios. Segundo tabela do
Ministério do Trabalho dos Estados Unidos, o poder de compra do salário médio
brasileiro só não perde para México e Sri Lanka, na comparação com os daquele
grupo de nossos 20 maiores parceiros.
Podemos dizer com certeza de que não há o menor risco para
a competitividade de nossa economia. Quando empresários dizem que reduzir
direitos dos trabalhadores e trabalhadoras vai diminuir preços, e, portanto,
aumentar a volúpia produtiva, mentem. É preciso destacar, ainda, que as
consistentes reduções de custos advindas do processo de reestruturação
neoliberal não diminuíram os preços. O que os capitalistas querem, de verdade, é
aumentar as margens de lucro.
Há espaço para reduzir a jornada em até mais de 4 horas.
Vamos dar este primeiro passo a que nos comprometemos para, então, lutar por
mais. A redução da jornada é, isso sim, instrumento para repartir um pouco o
crescimento que nós, trabalhadores e trabalhadoras, estamos construindo.
(*) é presidente nacional da CUT |