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Meta de Meirelles é combater o
crescimento, não a inflação
Em abril, o IPCA
ficou em 5,04%, portanto dentro da meta estabelecida de 2,5% a 6,5%
No sábado, em entrevista à Agência Brasil, o
presidente do Banco Central afirmou:
A) “... um aumento do superávit primário
tem vantagens importantes (....). Isso tenderia a baixar as taxas de juros do
país a longo prazo”.
Ou seja, ele propugna que os bancos passem a
receber mais do Tesouro (“aumento do superávit primário”), mas, se depender
dele, nem assim haverá baixa dos juros a curto prazo. Aliás, nem a médio prazo.
B) “... existe, sim, uma inflação de
alimentos, mas não é só de alimentos. (....) Temos desde a inflação de
matérias primas, metais, não metálicos, químicos, petróleo e uma atividade
bastante aquecida levando também a uma inflação na área de serviços (....) o
Banco Central vai manter a inflação na meta. (....) a taxa de juros
juntamente com o sistema de metas de inflação têm se revelado no mundo todo como
o mecanismo mais adequado para a aplicação da política monetária. (....) a
meta de inflação (....) e a taxa de juros (....) é o sistema consagrado no
mundo todo”.
Em que mundo vive o cara-pálida? Durante os 19
anos (1987-2006) em que ocupou a presidência do banco central norte-americano,
Alan Greenspan se lixou para as metas de inflação. Onde foi que tal sistema foi
“consagrado”?
Porém, o mais importante é que Meirelles garante aos habitantes do seu mundo que
os juros vão continuar a subir... por causa da inflação.
PRETEXTO
No entanto, em abril, a inflação (IPCA/12 meses)
ficou em 5,04%. Portanto, dentro da sua “meta de inflação” (formalmente
estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional), que vai de 2,5% a 6,5%. Para
maio, até os especuladores disseram esperar uma inflação de 4,73% em 12 meses
(cf. o “boletim Focus”, do próprio BC, divulgado na segunda-feira, 26/05).
Portanto, mais baixa ainda.
Então, de onde Meirelles tirou essa inflação
aterrorizante, que estaria rondando a soleira da porta dos brasileiros?
Obviamente, da sua necessidade de ter um pretexto para aumentar os juros.
Há um aumento de preços dos alimentos, devido à
especulação desvairada no mercado internacional – um aumento sobre o qual,
portanto, nada adiantaria um aumento de juros.
Porém, Meirelles resolveu transformar isso em
inflação ampla, geral e irrestrita.
Com o presidente do BC propalando que a inflação está de volta, o que fará o
atacadista, ou mesmo o dono da venda da esquina? Por que ele não se defenderia
dos aumentos de preços com que terá de arcar, aumentando seus próprios preços?
Se é o presidente do BC que está avisando que vem aí uma onda inflacionária, o
que fará o fabricante e o comerciante, senão aumentar os preços por antecipação,
para não ser vítima dos aumentos nas matérias-primas ou nos produtos já
manufaturados?
Desde quando um presidente do BC pode: 1) dizer aos especuladores que os juros
dos títulos públicos vão aumentar por um longo período? 2) dizer que aos
industriais e comerciantes que seus preços vão aumentar? O incrível – nos perdoe
o presidente Lula, cuja política de crescimento é a maior prejudicada com isso -
é que Meirelles não seja chamado a responder perante a polícia e a Justiça.
O alvo, certamente, é a política de crescimento,
sintetizada pelo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Por isso,
Meirelles fala em “atividade bastante aquecida” e outros termos semelhantes. O
indesejável é o crescimento e suas consequências – o aumento do emprego, do
consumo, das vendas da indústria e do comércio, e o aumento dos recursos do
Estado para o desenvolvimento.
Mas como Meirelles falsifica a inflação para
criar uma onda inflacionária real – e, assim, ter pretexto para aumentar os
juros sem que lhe caia na cabeça a espada proletária do supremo magistrado?
Para isso, ele inventou uma nova teoria: a de
que não basta atingir a meta de inflação, isto é, ficar dentro da banda, mas
atingir o centro da meta (4,5%) - senão o mundo cairá no abismo.
É verdade que o próprio sistema de “metas de
inflação” é apenas uma excrescência inventada para extrair juros dos países
periféricos. O critério desse sistema não é a realidade, mas um número
artificial, que não leva em consideração as necessidades de crescimento, as
potencialidades do país ou as carências da população. Repare-se que esse número
(ou essa banda) só não é arbitrário em relação a uma questão: tem que ser o
melhor possível para garantir que os juros continuem altos.
Assim, com uma meta artificialmente baixa,
qualquer aumento da atividade produtiva e comercial parece provocar uma inflação
quase desvairada. Na verdade, o que está errado é a meta, não a inflação. Esta
aparece como alta apenas porque se escolheu uma meta completamente fora da
realidade. Na definição da meta de 2005, Meirelles cortou a banda da inflação em
0,5, sem nenhum motivo e sem nenhuma fundamentação (cf. o testemunho do
ex-ministro José Dirceu, HP, 14/05/2008).
Mas, como esses truques de mágico de mafuá não
conseguem mais sustentar a política de juros altos, Meirelles fez duas
inovações: a banda da meta de inflação deixou de ser banda. Só vale o “centro”
da meta. A segunda inovação é propagandear a inflação, e, assim, provocar uma
inflação verdadeira.
Na verdade, o sistema é tão frágil que até
Meirelles é capaz de avacalhá-lo.
C) “Uma das razões da elevação do déficit
de transações correntes é o aumento das importações, impulsionado pela demanda
interna, que está bastante aquecida. Um dos mecanismos é exatamente um ajuste
monetário que faz com que haja uma moderação desta demanda doméstica”.
Ou seja, também para a diminuição do saldo
comercial, a solução é aumentar os juros. Que essa diminuição do saldo, com
aumento das importações, tenha sido causado pela depreciação da cotação do dólar
frente ao real, por sua vez causada pelos juros altos que atraem montanhas de
dólares para dentro do país, é coisa que Meirelles passa por cima.
D) “É exatamente uma política monetária
rigorosa, a não hesitação do Banco Central de manter a inflação na meta, é
que garante o crescimento”.
ENTRAVE
Aqui passamos para o campo do franco cinismo.
Não é o PAC nem os esforços do governo, os investimentos públicos, etc., que
estão garantindo o crescimento. O que garante o crescimento são os aumentos de
juros do Banco Central, justamente o maior entrave a que o país cresça. Mas
talvez ele não esteja falando do Brasil. Pode ser que esteja falando da economia
dos EUA. Realmente, uma das coisas que impede que ela vá para o necrotério
esperar pelo sepultamento, são os bilhões que os bancos norte-americanos estão
retirando do Brasil, sob a forma de juros, devido a Meirelles.
Mas, vejamos a última pérola. Perguntado sobre a efetividade de elevar o
depósito compulsório dos bancos para reduzir um suposto “descompasso” entre a
oferta e a procura, disse Meirelles que:
E) “Já está bastante acima da média e dos
máximos praticados em outros países. A experiência do Banco Central, e de
diversos bancos centrais do mundo, é de que o meio mais eficiente é exatamente o
manejo da taxa básica, no caso do Brasil, a taxa Selic”.
Sintomático que ele diga que o depósito
compulsório “já está bastante acima da média e dos máximos praticados em outros
países”. E a taxa básica de juros, que é a maior do mundo, não está? Por que
isso não serve como argumento para não aumentar os juros básicos?
Certamente, um aumento do depósito compulsório é
também um aumento dos juros – mas não dos juros básicos, não dos juros dos
títulos públicos, e sim das taxas dos bancos privados. Para Meirelles, portanto,
não adianta qualquer aumento de juros, pois o objetivo do aumento é assaltar o
Estado.
CARLOS LOPES
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