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GloboNews
derruba avião
GILSON
CARONI FILHO*
“Barriga em jornalismo, quer
dizer publicar um fato falso, mas sem intenção de enganar o leitor. Uma
mancada, informação errada, uma autotraição. Geralmente, o erro cai no
ridículo, fica circunscrito aos limites do vexame, mas há casos nos quais a
barriga assume dimensões sérias”. (Editorial da revista Caros Amigos, edição
de novembro de 2004).
Vinte de maio de 2008. Esse
dia, certamente, entrará para a história da imprensa nativa como a data em
que a GloboNews produziu a mais “volumosa barriga” do jornalismo brasileiro.
Uma barriga pedagógica, pois modelada por um “q” de qualidade desprovido de
qualquer compromisso com apuração do que é divulgado. Um relato de como se
produz o que o telespectador “deve saber”. Um instantâneo de como a ética
corporativa trabalha com o conceito de responsabilidade social.
Por volta de 17h, a emissora
anunciava que: “interrompemos a transmissão da CPI dos Cartões Corporativos
para mostrarmos imagens ao vivo de São Paulo. Acaba de chegar a informação
de que um avião da empresa aérea Pantanal caiu em cima de um prédio
comercial na Zona Sul de São Paulo”. Ao apontar a Infraero como fonte, foi
desmentida de imediato. É tênue a fronteira que separa o fascínio
espetacular do lodaçal patético do testemunho desqualificado.
Um incêndio em um depósito de
colchões, em Campo Belo, bairro de classe média de São Paulo, foi
apresentado, durante cinco minutos, como um desastre aéreo. Mostrando
imagens de fumaça, a emissora informava que uma aeronave da empresa Pantanal
havia caído próximo a Congonhas. Foi o suficiente para que dois portais (IG
e Terra), além de emissoras de rádio, no curso do mimetismo midiático,
reproduzissem, sem citar fontes, a falsa notícia.
A que atribuir tal açodamento?
Ao processo taylorista instalado na dinâmica do campo jornalístico? É
possível. Isso é compatível com o modus operandi de uma indústria que
concebe a informação como bem simbólico mercantil.
Como checar as informações e
publicá-las dentro de um padrão de bom senso e confiabilidade, quando o
critério de eficiência é dado pela velocidade da divulgação? Quando o
objetivo é furar o concorrente, dando a notícia em primeira mão, direto, ao
vivo, instantaneamente. Continuar o bombardeio informativo, em tempo
contínuo, dispensa até mesmo o profissional qualificado: basta uma
testemunha que produza o “efeito do real”. Alguém que já não controle mais o
produto final da produção simbólica, visto que dela participa como mero
legitimador.
Como destaca Ignacio Ramonet
“o jornalista está literalmente asfixiado, ele desaba sob uma avalanche de
dados, de relatórios, de dossiês - mais ou menos interessantes - que o
mobilizam, o ocupam, saturam seu tempo e, tal como chamarizes, o distraem do
essencial. Por cúmulo, isto incentiva ainda sua preguiça, pois não precisa
mais buscar a informação. Ela chega por si mesma a ele.”
Por certo, a barriga dos
repórteres e editores da telinha deve também ser analisada nas próprias
condições materiais de produção da informação em “tempo real”. Mas será que
isso nos exime de examinar o caráter ideológico e político inerente à
atividade jornalística. No caso brasileiro, não cabe falar em um “script”
que está no substrato das coberturas?
Nossa grande imprensa pode ser
considerada um serviço público que, de forma isenta, faz a mediação dos
“fatos que falam por si”, cabendo ao público o livre discernimento? Ou
prevalece a orientação editorial de que há que se preservar a estabilidade
democrática salvo o surgimento de “fatos novos e comprometedores”?
Não estaria aí, na perfeita
sintonia com o pensamento de quem lhes emprega, o descuido que levou uma
aeronave a colidir com colchões? Interromper uma construção midiática que se
mostra sem fôlego (“dossiê”) para reativar outra (“caos aéreo”) nada mais é
que estabelecer a agenda que interdita o real debate político. Algo que cai
do céu para uma oposição que vive seu vazio programático de forma
melancólica.
Terá sido por acaso que,
alertado por um assessor, o deputado Antônio Carlos Pannunzio( PSDB-SP),
interrompeu a sessão da CPI dos Cartões para, como destaca José Dirceu em
seu blog, fazer uma “comunicação bastante grave e muito triste” aos seus
pares e lamentar o “caos no tráfego aéreo”? Ou será que o parlamentar
tucano, em boa hora, alugou a barriga global?
Em comunicado sobre o
episódio, a Central Globo de Comunicação afirmou que: “A respeito do
incêndio ocorrido hoje à tarde em São Paulo, a GloboNews, como um canal de
noticias 24 horas, pôs no ar imagens do fogo assim que as captou. Como é
normal em canais de notícias, apurou as informações simultaneamente à
transmissão das imagens. A primeira informação sobre a causa do incêndio
recebida pela GloboNews foi a de que um avião teria se chocado com um prédio
na região do Campo Belo, Zona Sul de São Paulo.
“Naquele momento bombeiros e
Infraero ainda não tinham informação sobre o ocorrido. As equipes da própria
GloboNews constataram que não havia ocorrido queda de avião e desde então
esclareceu que se tratava de um incêndio em um prédio comercial. Poucos
minutos depois o Corpo de Bombeiros confirmou tratar-se de um incêndio em
uma loja de colchões”.
O Portal IMPRENSA registra que
mesmo após o Alto Comando das Organizações esclarecer que “embora a
GloboNews tenha publicado esta primeira informação, a TV Globo não fez
qualquer menção ao possível acidente aéreo”, o engano ainda permanecia em
vídeo no site do canal por assinatura, ainda que a informação já estivesse
desmentida. Minutos depois, ele foi retirado”.
Diante do naufrágio, a família
Marinho fez o que achou mais acertado. Tirou o “q” de qualidade da barriga e
seguiu solene para a próxima “exploração de hipótese”. É assim que o
monopólio compreende a democracia. Como uma possibilidade de pequenos
arranjos e grandes negócios.
* Professor de Sociologia
das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, e
colaborador do Hora do Povo, Jornal do Brasil e Observatório da Imprensa. |