|
A política cínica
do império
FIDEL CASTRO
Nesta Reflexão de 25/05, Fidel, sem deixar de reconhecer qualidades no
pré-candidato democrata Obama, critica afirmações que o senador fizera sobre
Cuba dois dias antes em Miami. “Você deveria conhecer antes de julgar nosso
país”, afirma Fidel Castro. Publicamos trechos do documento.
Não seria honesto de minha parte guardar
silêncio depois do discurso de Obama na tarde de 23 de maio na Fundação
Cubano-Americana, criada por Ronald Reagan. Escutei-o, como fiz com o de McCain
e com o de Bush. Não guardo rancor de sua pessoa, porque não foi responsável
pelos crimes cometidos contra Cuba e a humanidade. Se o defendesse, faria um
enorme favor aos seus adversários. Por isso, não temo criticá-lo e expressar com
franqueza meus pontos de vista sobre suas palavras.
Que afirmou?
“Durante minha vida houve injustiça e repressão
em Cuba, e nunca durante minha vida o povo conheceu a verdadeira liberdade,
nunca na vida de duas gerações o povo de Cuba conheceu uma democracia… não vimos
eleições durante 50 anos… Nós não vamos dar suporte a estas injustiças, juntos
vamos buscar a liberdade para Cuba”, expressa aos anexionistas e continua: “Essa
é minha palavra. Esse é meu compromisso… é hora que o dinheiro estadunidense
faça com que o povo cubano seja menos dependente do regime de Castro. Vou manter
o embargo…”
O conteúdo das palavras deste forte candidato à
Presidência dos Estados Unidos, exonera-me da necessidade de explicar o porquê
desta reflexão.
O próprio José Hernández, um dos diretores da
Fundação Cubano-Americana ao que Obama elogia em seu discurso, era o
proprietário do fuzil automático de calibre 50, mira telescópica e raios
infravermelho capturado por acaso junto a outras armas mortíferas, durante seu
transporte por mar para a Venezuela, onde a Fundação planejou assassinar a quem
escreve estas linhas, em uma reunião internacional que ocorreu em Margarita,
estado venezuelano de Nueva Esparta.
(...)
O discurso do candidato Obama pode ser traduzido
como uma fórmula de fome para a nação, as remessas como esmolas, e as visitas a
Cuba como propaganda para o consumismo e o modo de vida insustentável que o
sustenta.
(...)
Como se expressou em seu discurso de Miami
aquele que sem dúvida é, do ponto de vista social e humano, o candidato à
postulação presidencial nos Estados Unidos mais avançado?
“Durante 200 anos”- disse - “os Estados Unidos
deixaram claro que não iremos suportar a intervenção em nosso hemisfério, no
entanto devemos ver que há uma intervenção importante, a fome, a doença, o
desespero. Do Haiti até o Peru podemos fazer melhor as coisas e devemos
fazê-las, não podemos aceitar a globalização dos estômagos vazios “
Magnífica definição da globalização
imperialista: a dos estômagos vazios! Devemos agradecer-lhe; mas há 200 anos
Bolívar lutou pela unidade da América Latina e há mais de 100 anos Martí deu sua
vida combatendo contra a anexação de Cuba aos Estados Unidos. Onde estão as
diferenças entre o que proclamou Monroe e o que dois séculos depois proclama e
reivindica Obama em seu discurso?
“Teremos um enviado especial da Casa Branca,
como o fez Bill Clinton” - expressou quase ao concluir -” ...vamos ampliar o
Corpo de Paz e vamos pedir a mais jovens que façam com que nossos vínculos com
as pessoas sejam mais fortes e quiçá mais importantes. Podemos forjar o futuro,
e não deixar que o futuro nos forje.”
É uma bela frase, porque admite a idéia, ou ao
menos o temor, de que a história faz os personagens e não o contrário.
(...)
Obama em seu discurso atribui à Revolução Cubana
um caráter antidemocrático e carente de respeito à liberdade e aos direitos
humanos. É exatamente o argumento que, quase sem exceção, foi utilizado pelas
administrações dos Estados Unidos para justificar seus crimes contra nossa
pátria. O bloqueio mesmo, por si só, é genocida. Não desejo que as crianças
norte-americanas sejam educadas nessa vergonhosa ética.
A revolução armada em nosso país não teria sido
talvez necessária sem a intervenção militar, a Emenda Platt e o colonialismo
econômico que esta trouxe à ilha.
A Revolução foi produto do domínio imperial. Não
podem nos acusar de tê-la imposto. As verdadeiras mudanças poderiam e deveriam
originar-se nos Estados Unidos. Seus próprios operários, há mais de um século,
lançaram a exigência das oito horas, filha da produtividade do trabalho.
(...) Sempre dispusemos de faculdades prévias e,
uma vez institucionalizada, fomos eleitos com a participação de mais de 90 por
cento dos eleitores, como já é costume em Cuba, e não a ridícula participação
que muitas vezes, como nos Estados Unidos, não chega a 50 por cento dos
eleitores. Nenhum outro país pequeno e bloqueado como o nosso teria sido capaz
de resistir tanto tempo a base de ambição, vaidade, engano ou abusos de
autoridade, um poder como o de seu vizinho. Afirmá-lo constitui um insulto à
inteligência de nosso heróico povo.
Não questiono a aguda inteligência de Obama, sua
capacidade polêmica e seu espírito de trabalho. Domina as técnicas de
comunicação e está acima de seus rivais na competição eleitoral. Observo com
simpatia sua esposa e suas meninas, que o acompanham e animam todas as
terças-feiras; é sem dúvida um quadro humano agradável ...
(...)
Você deveria conhecer, antes de julgar nosso
país, que Cuba, com seus programas de educação, saúde, esportes, cultura e
ciências, aplicados não apenas em seu próprio território senão também em outros
países pobres do mundo, e o sangue derramado em solidariedade com outros povos,
apesar do bloqueio econômico e financeiro e as agressões de seu poderoso país,
constitui uma prova de que pode-se fazer muito com muito pouco. Nem à nossa
melhor aliada, a URSS, foi-lhe permitido traçar nosso destino.
Para cooperar com outros países, os Estados
Unidos só podem enviar profissionais vinculados à disciplina militar. Não o
podem fazer de outra forma, porque carecem de número de pessoal suficiente
disposto a se sacrificar por outros e oferecer apoio significativo a um país com
dificuldades, ainda que em Cuba conhecemos e cooperaram conosco excelentes
médicos norte-americanos. Eles não têm culpa porque a sociedade não os educa em
massa sob esse espírito.
(...)
Nossa Revolução pode convocar dezenas de
milhares de médicos e técnicos da saúde. Pode igualmente convocar de forma
massiva professores e cidadãos dispostos a marchar a qualquer rincão do mundo,
para qualquer propósito nobre. Não para usurpar direitos nem conquistar matérias
primas.
Na boa vontade e disposição das pessoas há
infinitos recursos que não se guardam nem cabem nas abóbadas de um banco. Não
emanam da política cínica de um império.
|