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O impacto da
crise dos EUA no Brasil: como enfrentar–2
NILSON
ARAÚJO DE SOUZA*
Continuação
da edição 2.645
No cenário de médio/longo prazo, colocam-se
duas questões: 1) se a crise internacional se agravar e vier a ocorrer uma
fuga de capitais, que efeito isso teria sobre a atividade econômica
interna?; 2) se a forte desaceleração da economia dos EUA se transformar em
recessão, que efeito isso teria sobre a balança comercial e a atividade
econômica no Brasil?
Com relação ao primeiro caso, depende da reação
do governo brasileiro. Se a decisão for a de deixar o câmbio flutuante
promover o “ajuste”, coadjuvado por juros e superávits primários elevados, o
resultado será a desaceleração da economia, conspirando contra a reativação
que ela tem experimentado no período recente, além de reacender a chama
inflacionária. Isso porque, como vimos, uma desvalorização descontrolada da
moeda poderia pressionar os preços para cima, enquanto os juros elevados e a
queda dos investimentos públicos ou a elevação dos tributos (como forma de
aumentar o superávit primário), ao retirar dinheiro de circulação, desanimam
a atividade produtiva, tanto privada quanto pública.
Como assinala o economista Francisco Eduardo
Pires de Souza, membro do Grupo de Conjuntura de UFRJ: “O risco maior
ocorreria se a crise afetasse os fluxos de capital para o Brasil de tal modo
que levasse o Banco Central a subir os juros” (Cit. In “Impacto da crise é
limitado, diz especialista”. Folha de S.Paulo, 18.01.2008, p. B3). No
entanto, se, em lugar de deixar o câmbio flutuar livremente e de elevar os
juros e o superávit primário, o governo optar por proteger nossas reservas
cambiais mediante alguma forma de controle de capitais, os juros e o
superávit primário podem ser reduzidos, estimulando, assim, a atividade
produtiva.
Quanto ao possível impacto de uma recessão nos
EUA sobre a balança comercial e atividade econômica no Brasil, cabe
registrar, em primeiro lugar, que, também neste aspecto, a economia
brasileira está mais preparada do que nas crises que ocorreram nos anos de
1990. Um aspecto decisivo é o fato de que os EUA já não têm o peso na
economia mundial de antes. Segundo cálculos do FMI, com base no PIB medido
por Paridade do Poder de Compra, a participação dos EUA na economia mundial,
em 2006, era de 19,7%, vindo a China em segundo lugar, com 15,1% (Canzian,
Fernando. “Crise pega Brasil e o mundo mais ricos”. Folha de S.Paulo,
27.01.2008, p. B3). Ou seja, já não se pode afirmar que, ao crescer, a
economia dos EUA automaticamente alavancaria as demais economias e que, ao
declinar, levaria de roldão essas economias.
Além disso, houve mudanças na economia
brasileira que a tornaram menos dependente da dinâmica da economia dos EUA.
Destacam-se duas a seguir:
- em primeiro lugar, houve uma forte
diversificação das nossas exportações. Na década de 1990, por ocasião das
turbulências internacionais, a participação dos EUA na pauta de exportação
brasileira chegou a superar os 30%; em 2007, não passava de 17% (Fonte: MDIC.
Disponível em: www.desenvolvimento.gov.br. Acesso em: 20.02.2008). Se formos
considerar por categoria de uso, os EUA participam com 20,44% das nossas
exportações de bens de capital (os países da América Latina entram com
40,47%), 11,18% das exportações de bens de consumo (a América Latina,
24,65%) e 14,99% das matérias primas e bens intermediários (atrás da União
Européia, da Ásia e da América Latina) (MDIC. “Exportação brasileira –
blocos econômicos por categoria de uso”. Disponível em:
www.desenvolvimento.gov.br. Acesso em: 20.02.2008).
- apesar da forte contribuição das exportações
para o dinamismo recente da economia brasileira, o mercado interno, depois
de anos de achatamento, vem evoluindo positivamente desde 2004: o volume de
vendas no comércio varejista cresceu 6,2% em 2006 e 9,6% em 2007 (IBGE. “Em
2007, vendas no varejo cresceram 9,9% e a receita nominal, 14,1%”.
Disponível em: www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias. Acesso em:
20.02.2008).
Isso significa duas coisas: a) que a economia
brasileira, para seguir exportando e se expandindo, depende menos do mercado
estadunidense; b) que, graças à expansão do mercado interno, depende menos
das exportações do que antes para manter o crescimento.
No entanto, aqui também há alguns elementos de
vulnerabilidade:
a) os principais importadores do Brasil - União
Européia, China e América Latina – dependem, em certa medida, de suas
exportações para o mercado estadunidense; isso significa que, com a
desaceleração econômica ou recessão nos EUA, eles tendem a diminuir suas
exportações, contraindo, em conseqüência, suas importações oriundas do
Brasil;
b) as importações brasileiras vem crescendo a um
ritmo muito superior ao das exportações (em 2007, 32,04% contra 16,58%.
Fonte MDIC. Disponível em: www.desenvolvimento.gov.br. Acesso em:
20.02.2008), devido, principalmente, à forte valorização da nossa moeda: o
dólar baixou de R$ 3,50 em dezembro de 2002 para R$ 1,80 em dezembro de
2007;
c) esse “desequilíbrio dinâmico” está
deteriorando o saldo positivo na balança comercial: caiu de US$ 46 bilhões
em 2006 para US$ 40 bilhões em 2007 (Fonte. BCB. Disponível em:
www.bcb.gov.br. Acesso em: 20.02.2008); a prosseguir a tendência verificada
em 2007, em 2008 esse saldo pode cair para US$ 27 bilhões; esse é o cenário
otimista previsto pela Fundação Centro de Comércio Exterior (Rehder,
Marcelo. “Exportação menor afeta o PIB”. O Estado de S.Paulo, 05.02.2008, p.
B3), mas a FIESP, num cenário menos otimista, em que as exportações só
cresceriam 5%, estima um superávit de US$ 24 bilhões (Ibid.); com essa
tendência, em algum momento no futuro, poderemos voltar aos déficits
comerciais que tantos problemas trouxeram para o país na década de 1990;
d) com a queda do superávit comercial, o próprio
BCB já estima que, em 2008, o saldo comercial não será suficiente para
cobrir o déficit da balança de serviços (juros, lucros, royalties, etc.),
voltando o país a ter déficit na balança de transações correntes, fazendo-o
voltar a depender da entrada de capitais externos para fechar seu Balanço de
Pagamentos;
e) ainda que o dinamismo recente da economia
brasileira venha sendo puxado pela expansão do mercado interno, as
exportações têm um peso importante na nossa economia: representaram em 2007
de 12% a 15% do PIB, a depender da forma de medição deste; caso se
concretize a estimativa da FIESP para o crescimento das exportações em 2008
(5% contra os 16% de 2007), isso significaria, segundo a entidade, uma perda
de 2 pontos percentuais na expansão do PIB (Rehder, Marcelo. “Exportação
menor afeta o PIB”. O Estado de S.Paulo, 05.02.2008, p. B3).
f) depois de quatro anos de saldos positivos na
balança comercial de produtos manufaturados, o ano de 2007 assinalou o
retorno do déficit nessa balança (ver tabela abaixo); assim, o
superávit comercial que temos obtido depende da balança de produtos básicos
(as chamadas “commodities”), cuja perfomance decorre não tanto do aumento da
quantidade exportada, mas da melhoria dos preços internacionais, de modo que
nosso saldo positivo na balança comercial está na dependência de um fator
(preços dos produtos básicos) altamente sujeito a perturbações no mercado
internacional.

Isso significa que uma eventual queda das
exportações, derivada da contração da economia estadunidense, poderá afetar
a nossa balança comercial, aumentando as perspectivas de queda do superávit
comercial, e repercutir negativamente, ainda que em grau menor, na atividade
econômica interna, à medida que, vendendo menos no exterior, as empresas
passariam a produzir menos. Isso não significaria necessariamente a queda da
produção interna, isto é, um processo recessivo, mas se poderia perder, a
depender da dimensão da retração das exportações, alguns pontos na taxa de
crescimento do PIB, comprometendo a meta de crescimento de 5% ao ano lançada
pelo Programa de Aceleração de Crescimento.
Para enfrentar essas vulnerabilidades, o país
deveria – como fez em 1930 e em 1974 – aproveitar a crise para transformar
sua economia de modo a aumentar seu “grau de endogeneidade”, isto é, de
forma a fazer sua dinâmica depender cada vez mais de fatores internos, que
estão sob controle nacional. Nesse sentido, cabe registrar a importância do
Programa de Aceleração do Crescimento como instrumento destinado a
incrementar a infra-estrutura física (transporte e energia) e social
(saneamento básico e habitação) do País, mas torna-se necessária adoção de
medidas de política industrial que favoreçam o avanço da industrialização.
Urge, portanto, concluir a discussão que está sendo feita dentro do governo
sobre uma política industrial, discussão que, de alguma forma, foi retardada
em face da rejeição da CPMF pelo Senado Federal. A formulação dessa política
terá que levar em consideração os possíveis impactos da crise internacional
sobre a economia brasileira.
Assim, para compensar eventuais problemas que
podem afetar nossas exportações e dessa forma prejudicar a atividade
econômica, seria recomendável criar mecanismos para dinamizar mais ainda o
mercado interno, tais como a aceleração da recuperação do salário mínimo, a
derrubada da taxa de juros e a redução do superávit primário (como forma de
injetar mais dinheiro em circulação).
Por outro lado, para contornar a deterioração da
balança comercial, um caminho seria adotar ações que pudessem conter o forte
crescimento das importações. Isso implicaria em selecionar os produtos que
estão pressionando a balança comercial e adotar mecanismos que estimulassem
sua produção interna, tais como elevar suas alíquotas de importação e
conceder-lhes isenções fiscais e créditos baratos pelo BNDES. Não descartar
investimentos públicos nessa área.
Um estudo dos dois últimos anos (2006 e 2007) da
nossa balança comercial indica que produtos são esses: matérias primas e
produtos intermediários para a indústria farmacêutica; partes e peças para
bens de capital para a indústria e para automóveis, aviões, navios, etc.;
acessórios de equipamentos de transporte; maquinaria industrial; matérias
primas para a agropecuária; máquinas e aparelhos de escritórios e serviço
científico; veículos automóveis de passageiros; produtos alimentícios,
produtos farmacêuticos.
O país já possui capacidade produtiva para
muitos desses produtos. No entanto, a indústria local sofre a concorrência
predatória dos produtos que vêm de fora, favorecidos pelo real valorizado e
pelos juros elevados dentro do país. Para outros produtos, teria que
instalar essa capacidade produtiva. Teria que se estudar cada caso e
verificar o instrumento mais adequado. Seria o PAC da Indústria, assim como
já foi feito o PAC da Educação e outros PACs.
*Economista,
professor e membro do Secretariado Nacional do Movimento Revolucionário Oito
de Outubro - MR8
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