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Monopólios fecham portas do mercado ao cinema brasileiro
A ocupação do mercado nacional por filmes brasileiros, nos cinemas,
está reduzida a apenas 10%. Na TV aberta, é
menos ainda: 5,6%. E 0,5% na TV por assinatura. Os
monopólios que controlam a distribuição e a
exibição para favorecer o cinema americano estão
impedindo o público de tomar conhecimento do que
é produzido no país. O governo financia a
produção, que cresce a cada ano, mas a política
neoliberal do Minc e da Ancine conspira para manter
essa produção longe das telas
Há alguns dias, em uma lista de discussão na
internet, um cineasta perguntava, entre a ironia
e a ingenuidade: “Acabaram com o capitalismo e
nem me avisaram?”. Ele fez uma conta simples. Os
dois filmes nacionais com as maiores bilheterias
em 2007 tiveram, juntos, 448 cópias e foram
assistidos por 3,9 milhões de pessoas. Uma média
de 8.705 espectadores por cópia. Comparou com
dois “fracassos” estrangeiros que, apesar de
muita propaganda e de terem estreado com 1049
cópias, conseguiram “apenas” 3,4 milhões de
espectadores. Uma média, portanto, de 3.241
espectadores por cópia, menos da metade dos
filmes brasileiros. Nosso amigo não conseguia
entender o porquê de distribuidores e exibidores
investirem mais dinheiro, tempo e energia em
lançamentos que dão menos retorno financeiro.
Qualquer bom empresário não faria o contrário? O
tema já foi abordado aqui, na edição de
26/09/2007, em artigo do camarada Sérgio Rubens.
Mas voltemos a ele.
Se vivêssemos no tempo de Adam Smith, nosso
amigo cineasta estaria com a razão: o capital
tendia a concentrar-se onde havia um retorno
maior. Mas vivemos nos tempos do capitalismo
monopolista, nos tempos do imperialismo, onde o
retorno não é garantido graças à competência,
mas sim graças às práticas anti-concorrenciais.
A verdade que precisa ser dita é que, se
dependesse da vontade das majors da distribuição
e da exibição cinematográfica, os filmes
brasileiros não teriam nenhuma cópia, nenhum
espectador. Interessa-lhes mais ocupar o máximo
possível do mercado com as produções da matriz
do que investir em produções locais.
Todas as estratégias de lançamento, o número de
cópias e salas, as datas, a quantidade de
propaganda são decididas fora do Brasil. Os
estúdios americanos, em conjunto com os
distribuidores também americanos e com os
exibidores - coincidentemente também americanos
-, juntam-se em cartel, decidindo aquilo que o
público brasileiro “vai querer ver”. Neste caso,
qualquer projeto de cinema nacional não passa de
um estorvo que só lhes atrapalha os planos. Por
que gastar dinheiro aqui, produzindo filmes, ou
deixar de arrecadar, exibindo filmes alheios, se
eles podem inundar nosso mercado com os seus
enlatados?
À indústria cultural não interessa a variedade,
a diversidade, mas o domínio do mercado e o
lucro fácil. Se alguém ainda duvida, mais dois
dados. Primeiro: ainda que tenham aumentado a
sua participação na arrecadação das bilheterias
de 2006 para 2007, as majors lançaram menos
filmes, 100 em 2007 contra 127 em 2006. Como?
Aumentando em 30% o número de cópias de seus
filmes. As 10 maiores bilheterias do Brasil no
ano passado foram atingidas graças às 5.169
cópias bancadas pelas distribuidoras americanas.
Ou seja, menos filmes ocupando mais salas. E
deixando de fora o cinema nacional e a produção
independente de outros países.
PAPEL DO ESTADO
É por isso que estes senhores não podem agir
livremente. Qualquer país que deseje desenvolver
uma cinematografia, que queira preservar um
mínimo de diversidade em sua produção cultural,
precisa impor freios à sanha monopolista das
majors. Muitas nações desenvolvidas fazem isso -
a França é o exemplo maior. É o que deveríamos
fazer. A indústria cultural norte-americana
inserida no Brasil cede para a produção local,
quando muito, o espaço que a lei obriga. Se a
cota de tela for de 10% este é o máximo de
cinema nacional que eles permitirão. Quando não
há regulação, como no caso da TV, a participação
do cinema nacional é ainda mais ridícula: 0,6%
nos canais a cabo e 5,6% nas TV’s abertas.
Se o Brasil quiser mesmo ter uma cultura forte,
uma cinematografia de respeito, que reflita os
sonhos, os anseios e a realidade do nosso povo,
precisa urgentemente enfrentar o desafio e
ampliar radicalmente - através de mecanismos
legais - o espaço para a exibição da produção
nacional. Os filmes americanos lançados em 2007
foram 142, mas ocuparam cerca de 80% do espaço
de exibição. Os filmes brasileiros foram 82, mas
não chegaram a 11% dos espectadores. Isso
significa que não falta produção nacional,
faltam espaços para que ela circule. A cota de
tela, graças à velhacaria da Ancine se encontra
hoje no patamar meramente simbólico de 10%. Se
quisermos realmente dar algum incentivo aos
realizadores brasileiros, ela precisa ser de
50%. Para 2008 já existem 36 filmes nacionais
com lançamento marcado a partir de março. Há
outras 55 obras prontas, muitas delas sem
distribuidora ainda, esperando uma chance de
serem exibidas. E outras 69 em processo de
finalização. Ou seja, temos filmes de sobra para
ocupar, pelo menos, a metade do espaço.
Se o Ministério da Cultura e a Agência Nacional
do Cinema não fizessem exatamente o jogo das
majors, a coisa seria até fácil de resolver. Mas
parece que lá é o último lugar (além da redação
da Veja) onde a lenga-lenga neoliberal ainda
vigora. Os doutos burocratas preferem acreditar
que o mercado irá resolver o problema. E
capricham nos incentivos às majors,
permitindo-lhes destinar uma parte de seu
imposto para produções “nacionais”,
financiando-lhes novas salas e mantendo a cota
de tela em patamares pornográficos.
TRISTE FADO
Os cineastas brasileiros encontram-se em uma
difícil situação. De um lado a fúria dos cartéis
internacionais que - mesmo quando usam belas
palavras, como parceria, querem mesmo é
varrê-los do mapa - e de outro a permissividade
das autoridades do Minc e da Ancine. Acossados
pela conjuntura desfavorável, vêem diante de si
apenas três caminhos, um pior do que o outro.
O primeiro, um pouco mais digno (se é que
dignidade é algo quantificável) é fazer um
projeto caprichado, inscrevê-lo nas leis de
incentivo, acreditar na seriedade dos editais
públicos, levantar menos recursos do que o
necessário para fazer o filme, pedir para os
amigos trabalharem de graça. Depois de três ou
quatro anos mourejando, estará com o seu filme
na lata (e muitas dívidas). Poderá participar de
alguns festivais, terá seu filme lançado em meia-dúzia
de salas e ele será visto por quase ninguém.
O segundo é entrar para a patota da TV e
imaginar um filme “quase-novela”. De preferência
com o mesmo título e os mesmos atores da TV. Não
acrescentará nada a sua carreira, fará um filme
chinfrim. Mas terá a possibilidade de ganhar
algum dinheiro, quem sabe até estar entre os
5,6% que aparecem na telinha.
E o terceiro é o da subserviência total: dispor-se
a receber o dinheiro do imposto das majors,
fazer um filme com a estética americanizada,
servir de testa de ferro para o esquemão. Rende
uma grana legal, dá até para ganhar uns
festivais no exterior. E joga mais uma pazinha
de terra na cova do cinema brasileiro.
Acreditamos que a maioria dos nossos
realizadores não esteja contente com tal fado.
Para livrar-se dele, é preciso algum esforço,
mas nada de assustador. Nada que o povo
brasileiro já não tenha feito antes. A primeira
coisa é livrar-se de uma vez por todas das
ilusões mercadológicas. Contra o gigantesco
poderio dos cartéis do entretenimento, só
podemos resistir com o apoio decidido do Estado.
O antigo modelo, de incentivos fiscais e
liberdade de ação para os monopólios controlarem
a distribuição e a exibição, está mais do que
falido.
Apesar de o Minc agir na contramão (e de a
Ancine já ter nascido na contramão), o governo
do presidente Lula, em outros setores, tem
demonstrado o firme propósito de que é preciso
desenvolver o país com independência. Precisamos
tirar do caminho aqueles que, fingindo agir em
nome da classe artística, servem aos monopólios,
e colocar à frente das instituições responsáveis
pela cultura pessoas comprometidas com a nossa
soberania.
Livres do engodo da ideologia neoliberal e dos
seus executores encastelados no Minc,
precisaríamos de algumas poucas medidas:
descentralização e ampliação do número de salas,
com restrições aos grupos estrangeiros; redução
do preço abusivo dos ingressos; cota de tela e
cota de TV, garantindo espaço para toda a
produção nacional; taxação do lucro das majors
para financiamento da distribuição das obras
brasileiras; garantia de distribuição decente
(mínimo de 100 cópias) para os filmes nacionais,
de preferência através de uma distribuidora
pública.
O resto podemos deixar por conta da criatividade
dos nossos artistas e do desejo de nosso povo de
poder, finalmente, voltar a se ver nas telas.
VALÉRIO BEMFICA |