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Sarney, Chávez e a América do Sul
É bastante conhecido, e há muito, o apreço que
temos pelo senador e ex-presidente José Sarney. Sua atitude ao somar-se à
oposição contra a ditadura como candidato a vice-presidente de Tancredo Neves,
já passou para a História - e lá permanecerá como episódio inapagável.
Exatamente por isso, estranhamos sua posição em
relação aos acontecimentos que nos últimos dias comoveram os países da América
do Sul. E, verdade seja dita, a estima que temos pelo ex-presidente nos impede
de calar quando um amigo é vítima de um apoio tão comprometedor quanto o do
inefável senador Agripino, que, em aparte a Sarney, condenou o presidente Hugo
Chávez por “não guardar respeito pela autoridade do presidente da nação mais
poderosa do mundo”. Como nunca se ouviu falar de um puxa-saco que tenha respeito
pelo saco que puxa, é evidente que nem o senador Canjiquinha, perdão, Agripino,
tem respeito por esse idiota, de resto desprovido de qualquer autoridade.
Mas vamos aos fatos: o território do Equador foi
invadido por forças colombianas - ou supostamente colombianas, porque as forças
armadas da Colômbia encontram-se há anos sob comando direto dos EUA, que mantêm
tropas e “conselheiros” militares no país, como nem o governo colombiano nega,
pois é isso, precisamente, o que se chama “Plano Colômbia”. O objetivo da
agressão ao território equatoriano foi assassinar o dirigente das FARC que
estava negociando a paz com o próprio governo colombiano e a libertação de
reféns com a França e outros países.
No entanto, a julgar pelo pronunciamento de
Sarney na segunda-feira, no Senado, o responsável pela Colômbia – ou pelos EUA –
ter invadido o Equador foi o presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Parece uma
confusão entre abacaxis e rodas de velocípede, pois a Venezuela não invadiu o
Equador nem a Colômbia - e nem os EUA. Porém, diz o senador, “o Presidente
Chávez tomou a decisão de usar os recursos da Venezuela para tornar o seu país
uma potência militar [o que é] extremamente perigoso para o Continente porque a
sedução da força é realmente muito grande”. Portanto, supõe-se, foi por isso
que a Colômbia agrediu o Equador, apesar de nem este país nem a Venezuela terem
atacado o território colombiano. Trata-se de uma estranha “sedução”, que ao
invés de levar à consumação do seu objetivo, faz com que outros, que não estão
seduzidos, sejam forçados a consumá-lo.
O senador Sarney é um homem razoável e uma
pessoa afável. Por isso, não continuaremos a comentar essa forma de ver as
coisas usando a lógica mais elementar. Porém, há que se registrar que a
Venezuela não poderia ser uma “potência militar” nem que suas forças armadas
fossem elevadas à centésima potência – o que, aliás, é impossível, devido ao
tamanho da população do país. De onde um país com menos de um sexto da população
do Brasil, com um PIB que é um quinto do nosso, iria tirar legiões militares -
e, ainda por cima, sustentá-las?
Atualmente, as forças armadas venezuelanas têm
um efetivo total de 87.500 militares (a fonte da informação é insuspeita de
“chavismo”: a CIA). Só o Exército do Brasil, sem contar a Marinha e a
Aeronáutica (que é a maior do continente), tem 190 mil soldados – e isso porque
as nossas Forças Armadas ainda estão longe de ter o efetivo necessário para
defender satisfatoriamente o nosso território.
Mas, segundo Sarney, o problema é que Chávez
andou comprando armas - inclusive do Brasil. Porém, a lista completa de armas
que, segundo o senador, o presidente Chávez estaria comprando, daria, no máximo,
para equipar com alguma decência as forças armadas de um país relativamente
pequeno, como é a Venezuela. Nada além disso.
Os EUA, com armas nucleares e convencionais
saindo pelo ladrão, são uma potência militar. É verdade que seu establishment
não corre o risco de ser “seduzido” pela força – simplesmente porque a força, a
mais estúpida, covarde e ilegal, é parte de sua própria essência.
Nada há de parecido nisso com a Venezuela. Mas,
continua Sarney, Chávez pretende gastar em armas a fenomenal quantia de US$ 7
bilhões - ou seja, 85 vezes menos do que Bush gastou com o Pentágono num
único ano (2007) sem que se ouvissem protestos no Senado brasileiro, apesar dos
EUA terem violado fronteiras, ocupado e promovido banhos de sangue no
Afeganistão e no Iraque, além de manter tropas em dezenas de países contra a
vontade de seus povos.
Não acreditamos que o senador Sarney, homem de
arraigadas convicções democráticas, tenha a opinião de que os EUA podem fazer o
que bem entenderem, mas a Venezuela não tem o direito de manter seu exército,
marinha e força aérea decentemente apetrechados, ainda que com modéstia, para
dissuadir os aventureiros. Certamente, como brasileiro, ele deve compreender que
se a Venezuela ficar à mercê dos belicistas ianques, o Brasil, dentro em pouco,
estará na linha de tiro.
Apesar disso, ele pergunta: “que necessidade
tem um país do nosso continente de armar-se dessa maneira? Contra quem? Para
quem? Com que objetivo?”. Não insultaremos sua inteligência (trata-se de um
imortal da Academia) explicando contra quem, porque e com que objetivo a
Venezuela tem de se defender. Notaremos apenas que quando chegarem todas as
armas que o presidente Chávez encomendou ou pretende encomendar, mesmo assim a
Venezuela terá menos armas do que aquelas que os EUA colocaram na Colômbia - ou
em Aruba, em frente à costa venezuelana, base militar de onde, segundo
documentos do governo americano, seria comandada a invasão ao Brasil durante o
golpe de Estado de 1964, se os golpistas demorassem a derrubar o governo eleito
e constitucional do presidente João Goulart.
Por último: em artigo na “Folha de S. Paulo”, o
senador Sarney afirmou em relação às FARC que “inserir esses fatos [a tomada
de reféns] como parte de um estilo normal do jogo político é atribuir valores a
um simples exercício do terrorismo. É, no mínimo, uma velada solidariedade com
esse modo de tortura”.
É evidente que a tomada de reféns não pode ser
“um estilo normal do jogo político”. Pelo contrário, significa que o “jogo
político” não é normal. Tanto é assim que, na Colômbia, o governo mantém
milhares de reféns nas cadeias, como presos políticos. O senador não se refere a
esses reféns, mas apenas aos das FARC, por sinal em muito menor número que
aqueles que o governo mantém, e tratados em muito melhores condições. Esquecendo
esses reféns, Sarney acha que “a ideologia e os ideais das FARC são a violência
pela violência”. Colocando de lado o fato de que isso jamais existiu na
História, nem entre os assírios, não é sábio igualar a violência do opressor
àquela do oprimido que se defende da opressão – mesmo quando esta última
violência se reveste de formas que não são, provavelmente, as que escolheríamos.
E, quanto à tortura, não são as FARC que torturam na Colômbia, assim como, no
Brasil, não foram os que se levantaram contra a ditadura que torturavam.
CARLOS LOPES
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