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Apeoesp desmonta farsa da mais nova mediocridade tucano-midiática
Secretária de Serra agride
a escola pública, os professores e a verdade
O
Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp)
respondeu as entrevistas da secretária estadual da Educação, Maria Helena
Guimarães de Castro, publicadas na revista Veja e no jornal Folha de S. Paulo
No
documento, a Apeoesp esclarece que Maria Helena “fez algumas afirmações que
deixam clara a intenção do governo José Serra de desqualificar os professores,
suas representações sindicais e, ao mesmo tempo, promover aqueles que a
secretária considera ‘talentosos e esforçados’ em detrimento da absoluta maioria
dos professores”.
Pela importância do tema, o HP publica abaixo os principais
trechos do documento “O que diz a secretária e o que pensa a Apeoesp”.
“Essa velha política da isonomia salarial passa ao largo
dos diferentes resultados obtidos em sala de aula, e aí está o erro. Ao ignorar
méritos, e deméritos, ela deixa de jogar luz sobre os mais talentosos e
esforçados e, com isso, contribui para a acomodação de uma massa de
profissionais numa zona de mediocridade. Por isso, demos um passo na direção
oposta. “(Veja)
Aqui a secretária se omite complemente de seu papel como
autoridade educacional, apostando exclusivamente na premiação do “mérito” como a
fórmula mágica que irá resolver o problema da qualidade da educação. Ela prefere
ofender a maioria dos professores, considerados por ela como “acomodados” e
“medíocres”, mas não leva em conta, em nenhum momento, que apesar das péssimas
condições nas quais estes profissionais exercem seu trabalho, é graças a eles –
e não aos governantes deste estado - que ainda existe alguma qualidade na rede
estadual de ensino.
ABSURDO
“Na comparação com outros profissionais no Brasil e
também com professores de escolas particulares, um conjunto de pesquisas já
demonstrou que os salários dos docentes na rede pública chegam a ser até mais
altos.” (Veja)
Trata-se, evidentemente, de um absurdo. A secretária, de
forma pouco responsável, propaga uma informação baseada em “um conjunto de
pesquisas” das quais não se conhece as metodologias, o universo pesquisado, os
critérios. Além do mais, os defensores desta tese discutível consideram
“salário” as gratificações, abonos, prêmios e outras bonificações não
incorporáveis e que não repercutem na aposentadoria nem na evolução na carreira.
De outro lado, o universo das escolas particulares engloba uma série de pequenas
escolas de ensino infantil, cujos salários podem ser, de fato, irrisórios. A
secretária certamente sabe que se a comparação for feita entre escolas públicas
e privadas do mesmo porte os números mudarão substancialmente.
“O bônus pode chegar ao equivalente a mais três salários
num ano.” (Veja)
A grande maioria dos professores e professoras conhece a
propaganda enganosa do governo em torno dos bônus mérito e gestão. Auxiliado
pela mídia, o governo diz para a sociedade que paga bônus de 5 mil reais mas, na
realidade, a maior parte da categoria recebe infinitamente menos que isto.
“Segundo essa mentalidade atrasada e comodista, a culpa
pelo péssimo desempenho geral é invariavelmente do estado brasileiro, nunca dos
próprios professores, muitos dos quais incapacitados para dar uma boa aula. A
falta de professores preparados para desempenhar a função é, afinal, um mal
crônico do sistema educacional brasileiro. Sem desatar esse nó, não dá para
pensar em bom ensino.” (Veja)
Novamente a secretária preserva o governo do qual faz parte
e declara guerra aos professores, qualificados como responsáveis pelos problemas
da escola pública. Ao contrário do que diz a secretária, parte considerável dos
professores da rede estadual de ensino foi avaliada por concurso público; outra
parte está na desconfortável situação de contratação temporária porque o governo
não abre concursos públicos em número suficiente. A maior parte está, sim,
capacitada a dar boas aulas. Cabe ao governo fornecer as condições objetivas e
subjetivas para que isto ocorra. É a política educacional do governo estadual,
que concebe a escola pública como mera formadora de mão de obra para as
necessidades do mercado que compromete a qualidade do ensino.
“Num mundo ideal, eu fecharia todas as faculdades de
pedagogia do país, até mesmo as mais conceituadas, como a da USP e a da Unicamp,
e recomeçaria tudo do zero. Isso porque se consagrou no Brasil um tipo de curso
de pedagogia voltado para assuntos exclusivamente teóricos, sem nenhuma conexão
com as escolas públicas e suas reais demandas. (...) As faculdades de educação
estão muito preocupadas com um discurso ideológico sobre as múltiplas funções
transformadoras do ensino.”(Veja)
A secretária quer reduzir o papel das faculdades e dos
cursos de licenciaturas, tornando-os meros cursos de técnicas de ensino. As
metodologias de ensino são importantes e devem ser bem trabalhadas. É importante
garantir discussões sobre projetos político-pedagógicos que garantam aos
estudantes das escolas públicas o acesso ao conhecimento produzido e a
capacidade de produzi-lo também. Ao que parece, para a secretária basta que os
alunos da escola pública saibam as quatro operações e aprendam a ler; por isso
ela acha que cabe às faculdades de educação o papel de impor técnicas de
ensino... nada mais.
DESVALORIZAÇÃO
“Um dos mitos mais populares é aquele segundo o qual o
aumento no salário dos professores leva sempre à melhoria do ensino.” (Veja)
Se for verdade que a melhoria dos salários dos professores
não leva “sempre” à melhoria do ensino, o arrocho salarial – obrigando os
professores a se desdobrarem em várias unidades escolares - e a desvalorização
profissional contribuem certamente, e muito, para piorar a qualidade do ensino.
“Temos, por exemplo, problemas de absenteísmo [faltas
dos professores]. Fica claro que é devido a uma legislação extremamente
tolerante.” (Folha de S. Paulo)
Pretende, com isto, desviar o foco da continuidade das
políticas e medidas educacionais inadequadas que estão na origem dos problemas
enfrentados pela educação pública em nosso estado. Finge ignorar que o grande
número de faltas dos professores é motivado por problemas decorrentes de uma
jornada estafante, péssimas condições de trabalho, salários aviltantes,
desvalorização profissional e falta de incentivo à carreira. Por isto faz um
jogo de cena para tentar jogar a opinião pública contra o magistério, visando
proteger a imagem do governo do qual faz parte.
“Um segundo mito bastante divulgado diz respeito ao
tamanho das classes. Os educadores afirmam por aí ser impossível oferecer uma
boa aula diante de classes cheias, mas os estudos sobre o assunto indicam que,
tirando as séries iniciais, esse é um fator de pouca relevância.” (Veja)
“podemos reduzir o número de alunos por turma: para 30 nas salas de 1ª a 4ª
série; 35 para 5ª a 8ª [atualmente, a secretaria recomenda 35 e 40,
respectivamente].” (Folha de S. Paulo)
Esta é, de fato, uma afirmação extraordinária! Ela não
resiste à menor análise. A secretária defenderia esta mesma tese com relação às
escolas particulares, onde estudam os filhos da elite social do nosso país e que
mantém classes de 25 ou 30 alunos nas últimas séries do ensino fundamental e de,
no máximo, 35 alunos no ensino médio? Por outro lado, se a secretária acha mesmo
que quanto mais alunos em sala melhor, por que admite reduzir o tamanho das
classes?
“Ficou provado que essa plena autonomia
didático-pedagógica não era boa, levou a uma queda na qualidade. A progressão
continuada não é o problema. O problema é a fragmentação pedagógica nas escolas
e a ausência de mecanismos de recuperação permanente, do início ao final do ano
(...)” (Folha)
A secretária confunde fragmentação e desorganização da rede
de ensino, responsabilidades do governo estadual, com autonomia das escolas. Nós
defendemos e reivindicamos a autonomia e consideramos que ela hoje não existe.
Ao contrário, as políticas educacionais são impostas de cima para baixo, sem
debate com os educadores e demais segmentos da comunidade escolar. As escolas
não têm qualquer autonomia para desenvolver projetos político-pedagógicos
adequados a suas realidades específicas e às necessidades de seus alunos. Esta
falta de autonomia – e não a suposta “plena autonomia” a que se refere a
secretária – se reflete no esvaziamento dos conselhos de escola e na ausência de
participação da comunidade na vida da escola, elementos fundamentais para a
melhoria da qualidade do ensino.
“os professores se sentem tolhidos na sua liberdade de
ensinar – baboseira ideológica que passa ao largo de uma questão central.”
(Veja)
A secretária considera a liberdade de cátedra uma
“baboseira ideológica”. Por isso está impondo aos professores da rede estadual
de ensino uma camisa-de-força, concretizada na adoção de apostilas ao estilo das
adotadas em certo tipo de escolas particulares que não primam exatamente pela
alta qualidade de seu ensino.
DESVALORIZAÇÃO
“Há um fator comum a todas as escolas nota 10, e ele
merece a atenção das demais: trata-se da presença de um diretor competente, com
atributos de liderança semelhantes aos de qualquer chefe numa grande empresa.
Sob sua batuta, os professores trabalham estimulados, os alunos desfrutam um
clima positivo para o aprendizado e os pais são atraídos para o ambiente
escolar.” (Veja)
Aqui fica cristalino o conceito de gestão educacional que
tem a secretária. Ela equipara o diretor de escola a qualquer chefe de empresa.
Duvidamos que um diretor com as características apontadas pela secretária
consiga estimular os professores, criar um clima positivo para o aprendizado e
atrair os pais para o ambiente escolar. Neste contexto, a referência da
secretária à “batuta” do diretor pode ser considerada uma verdadeira licença
poética.
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