|
Para Flounders, EUA
subestimou a disposição do povo sérvio de defender a unidade do seu país
Sara Flounders é
dirigente da organização norte-americana International Action Center,
fundada e presidida pelo ex-secretário de Justiça dos EUA, Ramsey Clark.
Ela esteve na Iugoslávia durante o bombardeio de 1999 para denunciar os
ataques à população civil. É é co-autora e editora dos livros “Otan nos
Balcãs” e “Agenda Secreta”, que discutem o assunto. Seguem os principais
trechos de seu último artigo: “Na Sérvia: Resistência em massa ao papel
da Otan/EUA”, publicado pelo IAC em 28 de fevereiro.
PARTE I
Uma
indignada e gigantesca manifestação – estimada entre meio milhão e mais
de um milhão de pessoas – em Belgrado, capital da Sérvia, em 21 de
fevereiro, mudou os termos do debate sobre Kosovo.
Em seguida a essa colossal
expansão na oposição ao roubo de Washington à província do Kosovo,
milhares de pessoas em Belgrado atacaram e incendiaram a embaixada dos
EUA. As embaixadas da Inglaterra, Alemanha, Croácia, Bélgica e Turquia
também foram atacadas. Franquias ocidentais, incluindo 10 McDonalds e
lojas da Nike e outras 50, assim como janelas de bancos, foram alvos de
jovens revoltados. Houveram noites de batalhas com a polícia pelas ruas.
Milhares se manifestaram
na fronteira entre a Sérvia e o Kosovo. Dois controles de fronteira
foram destruídos, um por fogo, outro por explosão. Todos esses atos
mandaram uma mensagem certeira – a decisão dos EUA de estabelecer uma
colônia direta em Kosovo pelo reconhecimento de sua “independência”
seria desafiado por um explosivo movimento que vai muito além do que a
simples declaração oficial de oposição do governo sérvio.
Certamente, parece que o
EUA mais uma vez subestimaram a oposição à suas criminosas políticas.
Washington considerou que o seu, há muito anunciado, reconhecimento de
um mini-Estado nos Balcãs não teria oposição.
Contudo, mesmo sem o
reconhecimento oficial da ONU, pensaram que o rápido reconhecimento dos
EUA e da União Européia, em conjunto com o financiamento e com a
permanente presença de tropas internacionais, subjugariam a oposição
sérvia.
Certamente, muitos
políticos na Sérvia, ansiosos pela adesão à União Européia, não estão
dispostos a fazer mais que uma oposição simbólica. Mas a resposta do
conjunto da população sérvia mudou bastante a base sob a qual se apoiava
o mais recente roubo de terra imperialista.
Na ponte sobre o Rio Ibar,
em Mitrovica, foi uma longa semana de impasse entre a Polícia do Kosovo,
uma força multi-étnica, e soldados da ONU. A polícia do Kosovo
recusou-se a servir ao “novo Estado” do Kosovo. Dezenas de ônibus
lotados de manifestantes foram à fronteira da província para protestar
contra a separação do Kosovo.
Ao mesmo tempo as forças
da Otan/EUA, chamadas de KFOR, se moveram para fechar a fronteira com
veículos de batalha e tanques para impedir a chegada de mais
manifestantes.
Para muitos, a alta
hipocrisia da posição norte-americana alertou para um motivo mais
sinistro do que querer garantir a independência do Kosovo. Afinal, os
EUA recusa-se a conceder a independência de Porto Rico apesar de mais de
100 anos de luta, e mesmo assim, foi o primeiro país a reconhecer a
independência do Kosovo da Sérvia – no mesmo dia que a declaração
unilateral foi feita.
OPOSIÇÃO INTERNACIONAL
Ambos, Rússia e China, que
possuem poder de veto no Conselho de Segurança da ONU, deixaram claro,
que não permitiriam que a ONU endossasse o assalto de Kosovo da Sérvia.
Eles expressaram grave preocupação sobre o perigoso precedente para
futuros rompimentos de nações em todo o mundo - alvos da intervenção
imperialista.
A declaração unilateral
foi uma violação direta da Carta da ONU, outras leis internacionais, e
mesmo dos termos da Resolução 1244 do Conselho de Segurança da ONU.
Em oposição ao
reconhecimento estavam Sérvia, Rússia, China, Espanha, Grécia,
Venezuela, Bolívia, Portugal, Eslováquia, Malta, Bulgária, Romênia,
Chipre, Sri Lanka e Armênia. Outros países não tomaram nenhuma decisão a
despeito da intensa pressão dos EUA.
Kosovo não é independente.
É essencial explicar
novamente, quando discutimos o assunto do reconhecimento norte-americano
da “independência”, que o Kosovo não conquistou nem um pouco de
auto-determinação ou mesmo mínima soberania, nem mesmo no papel.
A não ser que isso seja
continuadamente explicado e repetido, muitos ativistas políticos que
defendem a auto-determinação para nações oprimidas podem inocentemente
apoiar a “independência” do Kosovo.
O plano sobre Kosovo
tornar-se “independente” estabelece um velho estilo de estrutura
colonial em sua forma bruta. Kosovo será gerida, na verdade, por um
grupo administrativo indicado pelos EUA, pela União Européia e pela Otan
– a aliança militar comandada pelos EUA.
Os administradores
imperialistas terão controle direto sobre todos os aspectos da política
interna e externa. Eles terão o controle sobre os departamentos da
Receita, Tesouro e Financeiro. Eles controlam a política externa,
segurança, polícia, judiciário e todas as prisões. Esses oficias
indicados podem anular qualquer medida, qualquer lei e remover qualquer
um do governo de Kosovo. |