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“Ou São Paulo assume a hegemonia ou separa-se”
Monteiro Lobato e o programa da revanche
oligárquica de 1932
“Agora estamos em plena guerra de independência, disfarçada
em guerra constitucionalista... Após a vitória de São Paulo se faz mister que
seus dirigentes não se deixem embalar pelas idéias sentimentais de brasilidade,
irmandade e outras sonoridades... Ou São Paulo desarma a União e arma-se a si
próprio, de modo a dirigir a política nacional a seu talento e em seu proveito,
ou separa-se... Aceitemos Hobbes. Sejamos lobos contra lobos. Lobos gordos
contra lobos famintos”
É verdade, leitor. Toda essa sujeira
e outras mais, que parecem ter sido produzidas no auge de um êxtase fascista,
saíram da pena do nosso grande e estimado mestre Monteiro Lobato, em carta a
Valdemar Ferreira, Secretário da Justiça e da Segurança Pública do governo dito
constitucionalista e revolucionário de São Paulo, datada de 10 de agosto de
1932.
O fato confirma o adágio de que mesmo as águias, por vezes,
voam mais baixo do que as galinhas. Revela também que o analfabetismo político,
que tanto preocupava o velho Brecht, é capaz de levar grandes artistas a agirem
contra si próprios e prestarem-se aos mais desatinados papéis, como o da nossa
diva, Fernanda Montenegro, que recentemente ocupou as câmaras da Globo para
afirmar em alto e bom som: “A Califórnia se tivesse ficado com o México teria
sido uma ruína, aquilo não seria o que é hoje. Então eu acho que realmente o
americano deveria tomar conta do Brasil Central, porque aquilo ali é um celeiro
e conosco não vai dar em nada”.
Porém, o mais importante é verificar que tanto Lobato,
quanto Fernanda, em seus rasantes, cada um a seu modo e em seu tempo, abraçaram
e expressaram de modo direto e sem rodeios teses que os beneficiários diretos
costumam proteger sob o véu da discrição.
Os promotores e dirigentes da contra-revolução de 9 de
julho de 1932 jamais tornaram pública, com a clareza e a contundência de Lobato,
neste texto, a essência do seu programa.
Mas o programa era esse mesmo, sem tirar nem pôr: hegemonia
ou separação. O propalado constitucionalismo se tratava de elemento meramente
figurativo.
As eleições para a Constituinte já haviam sido marcadas,
para 3 de maio de 1933, dois meses antes de rebentar o movimento. E não poderiam
ter sido realizadas antes, porque era impossível promover no Brasil eleições
minimamente limpas sem realizar uma reforma completa do sistema, substituindo a
legislação que amparava currais e degolas, instituindo a Justiça Eleitoral e
realizando um cadastramento eleitoral digno de confiança.
Getúlio Vargas apontou, com inteira propriedade, que: “A
causa principal da Revolução de 1930 fora a completa falência do regime
representativo vigorante, corrompido pela fraude eleitoral, estabelecida como
norma... Realizar nova eleição, logo após a vitória, sob o império da mesma lei,
do mesmo alistamento, da mesma máquina eleitoral adestrada e manejada na prática
de quarenta anos de corrupção e ludíbrios seria falsear, em absoluto, os
objetivos determinantes do movimento renovador”.
Foi fundamentalmente contra a realização das eleições, num
quadro diferente daquele que dominava e sobre o qual reinava, que explodiu o
inconformismo oligárquico.
Distraído, Lobato tomou o trem errado. Mas não se pode
negar-lhe o mérito de haver deixado à posteridade um eloqüente testemunho dos
objetivos e, sobretudo, dos pressupostos que pautavam a ação dos cândidos
maquinistas.
SR
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