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A defesa da vitória de São
Paulo
MONTEIRO
LOBATO
Após a vitória de São Paulo, na campanha ora empenhada, se
faz mister que seus dirigentes não se deixem embalar pelas idéias sentimentais
de brasilidade, irmandade e outras sonoridades. O Norte inteiro é nosso inimigo
instintivo. O Rio Grande não é amigo. Minas cuida de si. O fato de sermos irmãos
não implica amizade e apoio. Temos de nos guardar de todos esses irmãos. Se Abel
houvesse pensado assim não teria caído vítima da queixada de burro com que o
matou Caim. Consideremo-los como inimigos: se não o forem melhor; se inimigos se
revelarem, estaremos preparados para a hipótese.
A atitude única que o instinto de conservação impõe a São
Paulo, depois da vitória, deverá expressar-se nesta fórmula: Hegemonia ou
Separação. Ou São Paulo assume a hegemonia política, que lhe dá a hegemonia de
fato que já conquistou pelo seu trabalho no campo econômico e cultural, ou
separa-se. De modo nenhum poderá ficar na posição em que se achava em virtude da
Constituição de 24 de fevereiro. Seria um suicídio.
Para efetivar essa conquista não há negociar. Há impor com
armas na mão. Medida de elementar evidência depois da vitória será, com absoluto
desprezo de todas as leis federais relativas (leis feitas contra nós, na
maioria) a transferência para São Paulo do melhor material bélico que esteja em
depósito nos arsenais do Rio – aviões, artilharia, munição, etc. Em vez de nos
armarmos para uma equiparação bélica com o inimigo é mais barato desarmarmos o
inimigo e ficarmos com as suas armas. Desarmando-o desse modo, daremos, ao
militarismo federal o primeiro golpe seguro. Ficará ele com os bufos, com a
arrogância - e nós com a pólvora e a granada.
O dilema é sério. Ou São Paulo desarma a União e arma-se a
si próprio, de modo a dirigir doravante a política nacional a seu talento e em
seu proveito, ou separa-se. Continuar como até aqui, a contribuir com setecentos
mil contos por um ano para a manutenção do monstruoso parasitismo burocrático e
militarístico do Rio de Janeiro – cuja função primordial é agredir e sabotar São
Paulo – corresponde a suicídio por imbecilidade.
Temos que pensar nisto muito a sério. A vitória paulista
vai nos custar um sacrifício imenso. Guerra significa destruição intensa de
riquezas. Nada mais caro que a guerra - e temo-la em casa. Essa vitória
caríssima, porém, será miseravelmente sabotada e surrupiada pelos nossos amados
irmãos em brasilidade, se no momento oportuno não soubermos agir com a mesma
decisão com que estamos agindo agora. Temos que arrancar as armas federais (que
o dinheiro paulista pagou) das munhecas dos nossos queridíssimos irmãos antes
que eles as voltem contra nós ainda uma vez. Já três em sete anos – 1924, 1930,
1932. Positivamente é demais...
O nosso sentimentalismo é uma forma de romantismo.
Romantismo quer dizer criação dum mundo falso, fora de todas as realidades. De
todo romantismo o homem acorda, um dia, ferido pelo pontapé da realidade.
Ponhamos de lado o romantismo grotesco com que nos procuramos iludir, encaremos
de frente a realidade real – como fazem os fortes. Saibamos, convençamo-nos de
que Hobbes terá eternamente razão: o homem é o lobo do homem. Saibamos ainda que
nunca, jamais, em tempo algum, o fato de ser irmão tirou ao lobo a sua
ferocidade de lobo. Aceitemos Hobbes. Sejamos lobos contra lobos. Lobos gordos
contra lobos famintos. Organizemos a nossa defesa. Tenhamos até a nossa futura
Tcheca interna, nos moldes russos, se for preciso, para a destruição sistemática
dos inimigos internos. Itararé está mostrando que quem o inimigo poupa nas mãos
lhe morre.
Convençamo-nos de que só há dois caminhos na vida: ser
martelo ou bigorna, boi de corte ou tigre. Velha bigorna, velho boi de corte,
velha vaca de leite que tem sido, transforme-se São Paulo em tigre. Faça-se
todos dentes e garras afiadíssimas, antes que a linda idéia romântica da
brasilidade o reduza a churrasco. E oponhamos aviação eficientíssima e
metralhadoras das mais modernas às queixadas de burro com que Caim nos pode
atacar.
*A íntegra da carta se encontra no livro “1932 - A guerra
paulista”, de Hélio Silva, nas páginas 279 a 283.
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