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Senado vence protelação e começa limpar a pauta
Após convocação
de Lula ao trabalho e atuação firme da maioria, governo aprova vários projetos
Eu não posso crer que apenas eu queira
trabalhar, e eles [os senadores] não”, afirmou o presidente Lula, em seu
programa semanal de rádio “Café com o Presidente”, transmitido na última
segunda-feira às seis horas da manhã. As declarações do presidente referiam-se à
necessidade do Congresso aprovar o Orçamento deste ano, o que veio ocorrer, com
três meses de atraso, no final da noite da quarta-feira. A maior preocupação de
Lula era com a liberação de recursos para o Programa de Aceleração do
Crescimento (PAC), que poderia ficar com algumas obras comprometidas.
A conclamação de Lula surtiu efeito, unindo a
base do governo, que também instigou a oposição a trabalhar, embora na
terça-feira ela ainda tenha dado certa canseira. Porém, nada demais para as
lideranças do governo, que resolveram o problema a contento.
A sessão que começou às 14 horas para votar o
Projeto de Lei de Conversão (PLC) 1/08, que devolve à Eletrobrás poderes para
ser sócia majoritária em investimentos, e o PLC 2/08, que cria a TV Brasil (leia
mais nesta página), acabou às 3 horas de quarta-feira.
A oposição tentou de todas as formas impedir que
os projetos fossem votados. Com manobras regimentais, os senadores, em especial
Arthur Virgílio e Tasso Jereissati, ambos do PSDB, teceram falações sobre os
mais diversos temas, reclamavam do “trator” da base governista, mas esta se
negou a cair em provocações.
Queixaram-se bastante do excesso de medidas
provisórias. Mesmo sabendo que as MPs só são emitidas para possibilitar que o
Executivo governe. Um dos exemplos foi a edição da MP que aumentou o salário
mínimo. Ela só foi emitida porque o Senado não votou o projeto a tempo. Ou seja,
sem MP não tem como administrar.
Enquanto a base tentava votar, Virgílio gritava
e fazia ameaças de paralisar o andamento do Senado. Isso chegou a irritar até o
presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN). “Agora, a partir de amanhã, não
passa mais nenhuma matéria em comissão nenhuma. Todas terão pedido de vista.
Todas, sem exceção, inclusive pedido de nomeação de embaixadores. Nunca mais
haverá acordo, nunca mais se votará nada”, ameaçou o tucano. “Não vejo motivo
para esse comportamento de verdadeiro desespero, como o de alguns senadores
aqui. Afinal de contas, estamos votando matéria de um projeto de conversão de
uma medida provisória, coisa que já foi feita aqui centenas de vezes na maior
tranqüilidade”, disse Garibaldi pouco depois de advertir Virgílio que não
aceitaria ser ameaçado.
Em meio ao fuzuê todo, o líder do governo na
Casa, Romero Jucá (PMDB), foi obrigado por diversas vezes a interferir para
tentar continuar os trabalhos. “O que está ocorrendo hoje aqui? Está ocorrendo
uma inversão de papéis. Desculpem-me. Se alguém está radicalizando, se alguém
está fazendo chicana, se alguém está catimbando, não é a base do governo. A base
do governo quer votar”, ressaltou Jucá, comparando o comportamento de Arthur
Virgílio com o de um personagem da novela das 8: “Não é nossa intenção baixar a
cabeça e deixar que a minoria diga o que se vota e o que não se vota aqui neste
Senado. Isto aqui é o Senado da República! Não é a favela ‘Portelinha’, em que o
Juvenal Antena manda e desmanda”.
Mas nada chamou mais a atenção do que as
dissertações do senador Álvaro Dias (PSDB-PR) sobre o “cruzamento de rinoceronte
com javali”. Para não ser injusto, talvez a preocupação da senadora Kátia Abreu
(DEM-TO) com as vestes de uma jornalista da “Globo” que não pôde entrar no
plenário com bermudas, como proíbe o Regimento, tenha superado o relato do
senador paranaense. Pelo menos provocou mais intervenções. “Eu quero aqui trazer
uma reivindicação de algumas jornalistas que foram abordadas na entrada do
plenário do Senado porque não usavam saia ou calça comprida, mas bermuda na
altura do joelho”, protestou a senadora. Isso foi suficiente para Virgílio e
outros se estenderem em avaliações se a saia é melhor do que a calça ou se o
Regimento do Senado é antigo ou não. Tudo era motivo para não votar.
O assunto só foi vencido após a senadora Ideli
Salvatti (PT-SC) lembrar os oposicionistas que o Senado é um lugar de trabalho,
e matérias precisavam ser votadas. “O comprimento da saia ou da bermuda não faz
parte da discussão da medida provisória sobre a questão do sistema elétrico”,
afirmou Ideli, que emendou: “Sem mais delonga. Quem não quer [votar] que não
atrapalhe o crescimento do país. Para nós, é muito importante que este país
continue crescendo, gerando empregos e distribuindo renda. Quem for contra isso
que se manifeste de forma clara, mas não impeça que o país cresça e que o povo
brasileiro tenha melhores condições de vida”.
O apelo da senadora só foi atendido no início da
madrugada. Foi uma queda-de-braço, vencida pelo governo que manteve a sua base
firme e mobilizada.
Vendo que não tinha mais como adiar, o senador
Arthur Virgílio convocou seus colegas de partido, levando a tiracolo os
senadores do DEM, e se retirou do plenário. A partir daí os trabalhos
deslancharam e as votações prosseguiram com rapidez. No outro dia, o Congresso
votou o Orçamento, ignorando as ameaças de Virgílio. |