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UNE denuncia
mercantilização e desnacionalização do ensino privado
Aprovação de
criança em vestibular para Direito revela o caos do ensino privado
“Aquele
estudante foi visto apenas como mais uma soma em dinheiro a entrar no caixa
da universidade”, denuncia, em nota, a presidente da União Nacional dos
Estudantes (UNE), Lúcia Stumpf, em relação à aprovação de um garoto de 8
anos no vestibular de uma das maiores universidades particulares do Brasil,
a Unip. “Há anos a UNE vem pautando a problemática do ensino superior
privado e denunciando inúmeras irregularidades e processos indiscriminados
de expansão, sem nenhum aporte ou projeto educacional por parte das grandes
instituições: verdadeiros tubarões do ensino”, completou a entidade
DÉCADA DE 90
A nota da UNE
responsabiliza a indiscriminada expansão e sucateamento do ensino
particular, ocorrida durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, pelo
fato “chocante e emblemático” ocorrido na Universidade Paulista. Segundo a
entidade, “este processo de expansão (do ensino privado) ocorreu em grande
medida pela estagnação da oferta de vagas e sucateamento das universidades
públicas ocorridos na década de 90. Houve uma expansão desenfreada do ensino
superior privado, sem levar em consideração, entretanto, a qualidade do
ensino, que deve estar indissociado da pesquisa e extensão na universidade”
explica Lúcia, destacando a importância do tripé de sustentação do ensino
superior.
CAPITAL
ESTRANGEIRO
A entidade coloca
em sua nota, como bandeira de luta, a “limitação do capital estrangeiro nas
universidades”, problemática com a qual os estudantes do ensino particular
no Brasil vêm se defrontando. Grandes grupos estrangeiros, como Laureate,
Apolo, Patria, Best Bank e JP Morgan, vêm promovendo um processo de
desnacionalização através da aquisição de universidades privadas no país.
A rede
norte-americana Laureate já possui três instituições de ensino superior no
Brasil. A empresa controla a universidade Anhembi Morumbi e é dona de um
grupo nordestino que reúne a Faculdade Guararapes, em Pernambuco, e as
universidades Potiguar da Paraíba e do Rio Grande do Norte. Além desses
complexos, a multinacional americana controla a Business School São Paulo (BSP),
que é especializada em cursos de pós-graduação em gestão, os chamados MBAs.
A Laureate não esconde que suas metas para o ensino superior no Brasil são
alcançar cobertura nacional e 100 mil alunos nos próximos anos. Hoje, são
quase 55 mil estudantes - 28 mil da Anhembi, 25 mil do grupo Potiguar e mais
1,5 mil da BSP.
Além da Laureate,
que por enquanto domina a maior parte das universidades “globais”, já estão
presentes no ensino superior brasileiro o fundo de investimento Pátria, que
adquiriu a rede de universidades Anhanguera e o grupo Apolo, que fez
sociedade com o Grupo Pitágoras e abriu universidades em Belo Horizonte e em
Curitiba. Além disso, o Best Bank, que controla a Universidade Whitney, nos
EUA, tem uma parceria com a Universidade Jorge Amado, em Salvador. O curioso
é que no Brasil, este grupo é representado pelo ex-ministro da Educação do
governo FHC, Paulo Renato.
A presidente da
UNE condena na nota esse modelo de ensino superior que vem reinando nas
universidades particulares brasileiras. “Esse formato de ensino superior -
que prevê educação como mercadoria, um serviço comercializado, em detrimento
do Direito Constitucional que ela de fato é - não atende às necessidades de
um projeto de desenvolvimento nacional com autonomia e soberania, o qual,
sem grandes pesquisadores, é simplesmente inviável. Por isso mesmo, o ensino
superior no Brasil vem sendo vendido como mercadoria, inclusive para grandes
empresas internacionais”, denuncia.
REFORMA
EDUCACIONAL
Segundo Lúcia, a
aprovação de João Victor Portellinha de Oliveira, no curso de Direito, é
mais um exemplo de que “faz-se imprescindível a reforma educacional no nosso
país”. A presidente também destaca que “a realidade atual do ensino superior
privado brasileiro, em geral, está muito aquém do que necessitam os
estudantes para se formar enquanto cidadãos e agentes transformadores
críticos. Ao contrário, o que se vê é um ensino de baixa qualidade,
infra-estruturas precárias (há instituições com mais de 150 pessoas em sala
de aula), a inexistência de uma política de assistência estudantil, além das
já citadas ausências de pesquisa e extensão”, completa.
FERNANDA CALVI |