|
Os chapéus de Marcílio
O exonerado ex-presidente da Comissão de Ética
Pública, Marcílio Marques Moreira, recebeu, finalmente, um apoio - naturalmente,
de um pessoal muito ético: foi entrevistado pela “Veja”.
Diz Marques Moreira, sobre sua exoneração, que
“a atuação da comissão ficou muito ‘fulanizada’. Virou uma disputa minha contra
o ministro Lupi... foi a demonstração clara do conflito de interesses. (....)
Quando uma autoridade serve a dois chapéus, o público fica em dúvida sobre a
qual chapéu ela está servindo ao tomar determinada decisão”.
Só há uma razão para que ele sinta o que
aconteceu como “uma disputa minha contra o ministro Lupi”: é que não estava
defendendo um princípio ético, mas perseguindo o ministro. Caso contrário, seria
impossível que recordasse o que ocorreu como uma disputa pessoal. A propósito,
sua descrição de “conflito de interesses” parece feita para si mesmo - e não
para Lupi. Pois, ser Embaixador do Brasil em Washington, ou ministro da Fazenda,
e também conselheiro da IBM, Reynolds, General Electric, Textron, Hoechst,
American Bank Note, Marsh & McLennan Group e consultor da Merril Lynch, só não é
o cúmulo do conflito de interesses porque a falta de vergonha de certos
elementos parece ser infinita.
No entanto, Moreira exerceu essas funções e não
viu conflito de interesses, ou, pior, finge que não viu. Por alguma boa (ou má)
razão, Moreira omitiu, em seu currículo oficial, as datas em que foi conselheiro
dessas multinacionais. É a única omissão de datas em todo o currículo. Somente
em relação às três últimas ele esclarece que atualmente é membro do conselho do
American Bank Note (que tem contrato com o governo para fabricar as carteiras
profissionais que Lupi pretende substituir por cartões magnéticos), do conselho
do Marsh & McLennan Group (dono da Kroll, que andou espionando o governo
brasileiro), e é consultor da Merril Lynch (que opera com títulos da dívida
brasileira em Wall Street, além de ser “avaliadora” das privatizações tucanas).
Marcílio também não vê conflito de interesses ou lesão à ética em manter essas
prebendas ao tempo em que era presidente do Conselho de Ética Pública.
Não entendemos bem o que é “servir a um chapéu”,
em vez de botá-lo na cabeça, mas, pelo visto, não faltaram chapéus para Moreira
Marques servir. Nove ao todo, declarados por ele, se incluirmos o chapéu do
Estado nacional brasileiro. Porém, por sua gestão como ministro da Fazenda,
sabemos que ao último ele jamais serviu – ao contrário, se serviu dele em
benefício do resto da sua coleção de chapéus.
A situação de Lupi é inteiramente oposta. O
presidente do PDT foi escolhido por seu partido para representá-lo na coalizão
de governo – e, aprovado pelo presidente Lula, foi nomeado ministro do Trabalho.
O chapéu do PDT e o do governo não eram dois – são o mesmo: o da coalizão
governamental. É inútil esperar que Moreira fosse suficientemente honesto para
confessar que seu alvo era, exatamente, a coalizão em que se baseia o governo
Lula. Mas não é outro o objetivo da teoria dos chapéus diferentes – por ela, os
ministros teriam que se afastar de seus partidos ou do governo. Tanto em um
quanto em outro caso isso significaria o fim da coalizão, já que ela é,
precisamente, uma coalizão de partidos em torno do governo. Naturalmente, sem a
coalizão, o governo Lula seria deixado à mercê dos cúmplices e patrões de
Moreira. Daí os insultos, nessa entrevista, ao próprio presidente da República,
homem cuja vida e ética estão a anos luz desse submundo antinacional de que
Moreira faz parte há décadas. Daí, também, seus ataques à política externa
independente do atual governo. O problema de Lula e do governo é que não se
submeteram ao(s) mesmo(s) chapéu(s) que Marcílio. Não é um acaso que “Veja” e
outros órgãos golpistas tenham se apresentado logo como seus advogados e
apologistas.
O ministro Lupi, homem civilizado, preferiu
licenciar-se da presidência do PDT para impedir que a mídia golpista tivesse
mais um pretexto para exercer o seu patogênico papel. No entanto, essa foi uma
escolha tendo em vista as circunstâncias. Do ponto de vista ético, nada
impediria Lupi de exercer as funções de presidente do PDT e ministro do
Trabalho, porque não há antagonismo de interesses: foi o reconhecimento de uma
identidade de objetivos que fez com que o PDT, através da nomeação de Lupi, se
incorporasse ao governo.
CARLOS LOPES
|