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O desespero da
oposição pautada
GILSON CARONI
FILHO
Será que a
estratégia de obstruir as votações de Medidas Provisórias no Plenário e
paralisar as reuniões de comissões temáticas é apenas uma reação à MP que
criou a nova TV pública do país ou o inconformismo tem motivações
inconfessáveis? O desespero que leva parlamentares de oposição a renunciarem
ao exercício legislativo que lhes foi delegado pelo voto popular deve ser
visto como algo pontual, motivado pelo requerimento do líder do governo,
senador Romero Jucá (RR ), pedindo o fim de manobras protelatórias em
votações de interesses relevantes, ou aponta para algo mais profundo?
O crescimento de
5,4% do Produto Interno Bruto (PIB), provocado pelo aumento do consumo
interno e de investimentos não terá acendido o sinal vermelho nos gabinetes
de lideranças demotucanas e nas grandes oficinas de consenso? O que temos
não são apenas números favoráveis à política econômica do governo Lula, mas
uma inédita mudança de eixo da economia brasileira. Mercado interno
aquecido, investimento crescente em bens de capital e inflação controlada
significam que, pela primeira vez na história, o país logrou encontrar o
caminho do crescimento sustentável. Ruíram como castelos de areia o mito do
PIB potencial e os sofismas da cartilha neoliberal. Aqueles que pregavam uma
“inadiável” reforma da Previdência e a supressão imediata de direitos
trabalhistas como requisitos para o desenvolvimento.
A uma oposição sem
bandeira para as eleições de 2010, só resta atribuir ao governo o que tem
sido sua prática desde a derrota de 2002: violentar a nação e o regime
democrático.
Por tudo isso são
emblemáticas as palavras do líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio: “Se
der para aprovar, deu, se não deu, dane-se”. Nada mais ilustrativo de como
se comporta um dos cardeais do tucanato quando defrontado com o vazio de sua
própria existência política. É um desses momentos raros, que põe a nu a
farsa de republicanismos de fachada. É didático ao expor, sem meias
palavras, o que o jornalismo de campanha tenta ocultar.
O que lemos sobre
o Congresso limita-se ao que acontece no Plenário ou a informações de
cocheira de lideranças conhecidas. As redações ignoram as comissões
temáticas e os projetos apresentados por parlamentares menos cotados na
bolsa de apostas dos jornalões. Não seria a hora de o jornalismo repensar a
sua própria prática perpassada pela lei do menor esforço e dos falsos
dualismos? Ou isso implicaria ingratidão com quem lhes deu projeção e
colunas cativas?
Nos últimos anos,
lemos vários editoriais “indignados” com o que chamavam de emergência do
fisiologismo. Conhecidos profissionais passam a discorrer sobre o retrocesso
que isso significava. Mais uma vez, prestavam favores a fontes caras.
Distorceram a realidade e se tornam reféns de suas próprias idealizações. Se
quisessem um jornalismo-cidadão, seria preciso acertar as contas com a
própria história. O exílio no reducionismo e nas taxonomias de ocasião nada
acrescenta à formação de um espaço público ideal.
É preciso deixar
claro que na vida político-partidária do campo conservador, a emergência,
sob aplausos dos notáveis, de um Severino Cavalcanti, não foi a exceção, mas
a confirmação perversa da regra.
Expressão acabada
de um fazer político que ignora a distinção entre público e privado,
corporificação em estado bruto do patrimonialismo que, desde sempre,
posterga uma República proclamada por insatisfação oligárquica, o deputado
do PP foi o filho sem lustro do conluio entre o latifúndio e os bacharéis.
Sua maldição explica o nosso ordenamento jurídico-político como nenhuma
Teoria da Dependência conseguiu. Ao adotar a sabotagem como ação política,
em que Virgílio lhe é superior? Que tipo de avanço representa?
Quando a imprensa
transformou o ex-deputado pernambucano em ícone de uma direita atrasada que
se abrigaria no baixo-clero, o discurso jornalístico correu o risco de se
enredar numa trama perigosa, por suscitar duas questões significativas: o
que caracterizaria a direita moderna? E quais seriam seus representantes, os
condestáveis senhores do alto-clero? Aos órfãos do tucanato, cabe perguntar
se estavam falando daqueles que, em oito anos, atualizaram o mandonismo, se
refestelaram no cartorialismo e não hesitaram em usar todos os expedientes
fisiológicos para assegurar mais um mandato presidencial.
A “modernidade”
desejada é aquela que produziu endividamento recorde do setor público,
financeirizou a economia e, como em nenhum momento da história recente,
precarizou as relações de trabalho? Tudo sob os aplausos da banca e as
bênçãos do pensamento único que tomou conta das editorias de economia.
Estranho que os
defensores do mercado como oráculo não tenham registrado o saldo final. Como
destacou Emir Sader (Vingança da História, Boitempo Editorial), “em
2003 e 2004, o Brasil precisaria de US$ 1 bi por semana para financiar as
amortizações da dívida externa de US$ 30 bi e o déficit em conta-corrente,
de US$ 20 bi. Pode-se calcular as dificuldades se considerarmos que nos
últimos anos o Brasil contou com o ingresso de US$ 20 bi, em média”. São
números que, pela magnitude, não deviam ser olvidados por quem pretendia
fingir que fazia um jornalismo sério.
Ou será que o
conservadorismo moderno é propriedade dos cardeais do DEM? O que
diferenciava qualitativamente José Agripino Maia e Demóstenes Torres, entre
outros, de Severino Cavalcanti? A maior capilaridade do clientelismo? A
capacidade de loteamento eleitoral nos seus estados de origem? O poder
coronelístico que mostra sua carranca a qualquer dissidência regional? Ou,
como resultante de tudo isso, um esquema de troca de favores com a grande
imprensa? A famosa fonte que pauta. A notinha plantada em troca de
confidências exclusivas. O que seriam as distinções clericais senão uma
criação das relações entre o campo político e jornalístico?
Se lermos
atentamente a mídia impressa, veremos que da coluna social à política,
pagando pedágio na economia, o jornalismo brasileiro, com raríssimas
exceções, se pauta pelo relacionamento personalista, pelo horror à distância
e pela aversão à impessoalidade democrática e igualitária.
É para ela que os
reclamos de Virgílio se dirigem desesperadamente. Se der para distorcer a
nova realidade, distorça. Se não der, nos danamos todos. |